O conjunto de leituras Almas livres, corpos encarcerados reúne uma série de relatos sobre diferentes prisões. O único critério comum a todos os relatos é o fato de terem sido escritos pelos próprios presos. A exceção fica por conta do texto “O Estado terrorista do Brasil”, escrito pelo desembargador aposentado Siro Darlan, mas ele se justifica: Siro é um dos idealizadores e o principal promotor da Academia Brasileira de Letras do Cárcere, uma iniciativa original da cultura de nosso país, que reúne escritores-egressos com diferentes trajetórias e visões políticas.
Há de tudo um pouco neste pequeno mosaico: de pessoas que amargaram meses na detenção até pessoas condenadas a prisões perpétuas; ativistas que se lançaram à luta contra a opressão política; e pessoas simples que se viram sem qualquer alternativa para sobreviver. Neste mosaico, observamos também os efeitos desumanizadores da superlotação e do isolamento absoluto, sendo esta talvez a forma mais cruel de tortura institucionalizada que exista, em qualquer latitude.
Por falar em latitude, encontraremos aqui notícias da experiência do cárcere não só nos centros do capitalismo como também em suas periferias, num inventário de cicatrizes que talvez revele aos leitores toda a universalidade das dores e das resistências, encerradas atrás dos muros espessos.
O depoimento que abre esse projeto é de autoria do escritor palestino Nasser Abu Srour, mantido prisioneiro durante trinta e dois anos pelas forças de ocupação sionistas. Ele diz: “Minha sobrevivência irritou os muros da prisão, desafiando-os com minha ousadia”.
Talvez isto nos ensine algo para travar e vencer as lutas do lado de cá dos muros.
Igor Mendes
Rio de Janeiro, março de 2026.