“A geografia da prisão impõe aos seus detentos uma postura revolucionária” Entrevista de Nasser Abu Srour a Dr. Mahmoud Baraka
Disponível em The New Arab1
Março 1, 2026
Após quase trinta e três anos de cativeiro sob a ocupação, a linha da libertação surgiu em 13 de outubro de 2025.
Naquela noite, vi Nasser com um grupo de prisioneiros libertados das prisões israelenses, que haviam sido deportados para fora do país. Eles chegaram tarde da noite ao Egito, a pátria maior e mais próxima.
Abu Srour, filho de uma família de refugiados da aldeia ocupada de Beit Nattif, nascido no campo de Aida, em Belém, em 1969, foi preso em 1993 e condenado à prisão perpétua. Ele conseguiu obter um mestrado em Estudos Regionais enquanto cumpria pena na prisão de Hadarim. Enquanto estava preso, publicou seu primeiro livro, “Um Conto do Muro de 2022”, pelo qual ganhou o Prêmio de Literatura Árabe do Instituto do Mundo Árabe, em Paris. O livro foi traduzido para o francês com o título “Eu Sou Minha Liberdade” e, em novembro de 2025, ele concluiu seu segundo livro, “No Caminho da Escrita”.2
Diálogo com Dr. Mahmoud Baraka
Terapeuticamente, pode-se utilizá-la para criar medicamentos a partir da escrita, capazes de curar doenças físicas, psicológicas ou intelectuais. Escrever é um convite à exposição e à nudez, o que muitas vezes pode ser escandaloso, especialmente se o escritor abandonou suas repressões, complexos, inibições e controles, e prtica o ato de escrever a partir de um lugar onde há muita satisfação, aceitação e reconciliação. Escrevo — antes de tudo — para curar e me recuperar, não das minhas feridas e dores, mas do impacto e do poder dessas dores sobre os meus momentos presentes, e da capacidade da dor de paralisar o movimento, congelar sentimentos, dispersar passos e estreitar caminhos.
A memória e a confissão ocupam um grande espaço no seu último livro, No Caminho da Escrita. Qual é o seu comentário?
Nasser Abu Srour: Na memória, todos os nossos medos se escondem e permanecem em seu esconderijo, sem aparecer nem se expressar. E, se o fazem, é em seus próprios tempos, sem se preocupar com o nosso tempo, nosso lugar ou nosso estado emocional. Na memória, complexos, repressões e medos adormecem, permanecendo em seu sono, alheios e inconscientes, até acreditarmos que evaporaram e não estão mais lá, como se tivessem perdido sua força de nos atormentar e nos arrastar para espaços estreitos, ásperos e dolorosos. Mas repressões e medos não morrem, não evaporam, nem perdem a consciência; ao contrário, apenas cochilam e podem atacar a qualquer momento.
O esplendor e o deslumbramento das cores. Alguns desses vestígios são tão profundos que não podem ser detectados, exigindo toneladas de respirações para mergulhar neles e alcançar seus esconderijos. Permanecem em segredo, temendo que, se revelados, se tornem vestígios comuns, tratáveis com uma aspirina ou com uma receita de um boticário que, ao lado de tabaco barato, vende misturas maravilhosas que afirmam penetrar profundamente.
Outros vestígios são desconhecidos, sem dono, como se tivessem caído por acaso enquanto eu estava ocupado arrumando minha cama ou preparando um prato de jantar indigno da minha atenção, feito por hábito e fome.
Baraka: Durante 33 anos vi o mundo pela ponta de uma agulha. Como você viu o mundo durante esses longos anos?
Abu Srour: A ponta da agulha3 foi o que a prisão me ofereceu, imposto pelas condições de detenção dentro de celas estreitas e superlotadas. Um grande número de prisioneiros compartilhava minhas tentativas de ver e observar, dividindo os poucos espaços disponíveis. Devido à estreiteza da janela, eu precisava me deter longamente sobre minhas observações e os vislumbres do vasto mundo.
O estreito olho da agulha me ensinou a permanecer por muito tempo diante de cada cena, a me enredar em cada detalhe e, depois, a recompor e reorganizar as inúmeras pequenas imagens e representações até formar um quadro que refletisse, ainda que aproximadamente, a realidade do que eu via. O universo parecia vasto através do olho da agulha, cheio de detalhes que corporificavam sua imagem.
Isso constituía um obstáculo difícil para compreender e interpretar o que eu via e percebia, forçando-me a isolar — e, às vezes, apagar — muitos detalhes. Talvez essa prática explique minha linguagem abstrata e minha frequente imersão nos mundos do pensamento. O mundo — fora dos limites do pensamento — me parecia estreito, apesar de sua vastidão; disperso, apesar de sua ordem; e quase feio, apesar de sua beleza inerente.
Dr. Mahmoud Baraka: O que escrever representa na jornada de Nasser Abu Srour entre o aprisionamento e libertação?
Nasser Abu Srour: Escrever, em uma das suas várias formas, pode ser um ato terapêutico com que um pode fazer medicamentos com papéis.
Dr. Mahmoud Baraka: Você foi libertado junto com muitos prisioneiros. Isso simboliza um novo capítulo na luta do povo palestino para você e para eles?
Nasser Abu Srour: A geografia da prisão impõe aos seus detentos uma postura revolucionária que é extensão de uma longa luta, garantindo que a prisão não constitua uma ruptura ou descontinuidade no cenário político e de resistência nos territórios ocupados. Aqueles que assumem posições devem ser uma força motriz e um fator que torne os prisioneiros capazes de — e de fato comprometidos com — formular um discurso nacional abrangente que reorganize o vocabulário do conflito com a ocupação e construa uma espécie de guarda-chuva ou berço no qual todas as mentes e mãos se unam em busca do objetivo da libertação e da emancipação.
Já aconteceu de os prisioneiros elaborarem um documento nacional que unificou todos os palestinos e conquistou a confiança e a aprovação de todas as facções ativas no cenário palestino, sejam nacionalistas ou islâmicas. A cena vitoriosa, pintada com sangue, que culminou na libertação de muitos prisioneiros, deve levá-los — com base no que representam em termos de luta simbólica e como exemplos de combate e sacrifício — a se comprometerem com uma carta nacional que enfrente a crise que aflige a causa palestina nos níveis político, social, cultural e econômico.
Qualquer abandono desse papel será interpretado — e deve ser interpretado — como traição e desrespeito aos sacrifícios feitos para manter viva a nossa causa e para libertar os prisioneiros. A “inundação” confirmou que o nosso povo palestino, apesar da divisão e fragmentação que sofre, não aceitará acordos que o privem de seu direito à resistência, criminalizem suas ações de luta e imponham soluções temporárias para uma ocupação que busca se perpetuar.
Os prisioneiros libertados devem se apegar ao vocabulário dessa vitória e, a partir dele, formular um discurso claro e consciente sobre as complexidades do cenário político nos níveis local, regional e internacional — um discurso que una todos os elementos do conjunto palestino, hoje disperso pela divisão interna, que tem causado perda de direção, distorção de fronteiras e o alargamento das distâncias entre a Palestina e a consciência do povo palestino.
Baraka: Walid Daqqa é um daqueles escritores que você conheceu. Quem era Walid, e quais foram as jornadas intelectuais e humanas que vocês compartilharam?
Abu Srour: Eu o acompanhei, e ele me deixou. Conheci Walid, a criança, e como ele retornava à sua infância sem fazer qualquer esforço significativo. Fazia isso com a espontaneidade própria da infância. Eu o via recolher-se aos seus papéis e começar a traçar linhas, depois voltar para colori-las, com os dedos cobertos por uma mistura caótica de cores. Eu o via contar suas pinturas, contando-as como quem conta os próprios anos, correndo contra seus momentos fugazes, na esperança de fixar alguns deles no papel.
Conheci Walid, o amante e o amado. Eu o via se barbear antes de cada visita e se esforçar para parecer bonito aos olhos de sua esposa e amada, Sanaa. Eu o via se emocionar sempre que falava de Sanaa ou a mencionava de passagem. Eu o via tirar as fotografias do armário e expô-las, explorando suas memórias recentes e distantes.
Eu vi Walid, o pai, chorando por sua filha recém-nascida, Milad, enquanto ela — tão distante de seu tempo — organizava seus primeiros dias e anos. Ele chorou quando ela nasceu, quando ela chorou e quando deu seus primeiros passos. Chorava por cada momento que os separava. Walid, em seu aprisionamento, carregava sua pátria, sua esposa, sua filha e seus últimos vestígios.
Acompanhei Walid, o pensador, o intelectual orgânico, profundamente ligado às esperanças e dores de seu povo. Acompanhei-o como um leitor voraz, que nunca desperdiçava seu tempo, nem fazia concessões em relação às suas horas preciosas. Acompanhei-o como um escritor que manipulava o alfabeto com habilidade, como se quase acrescentasse suas próprias letras.
E acompanhei Walid como o generoso, o professor, o mentor, ferido por muitos dos que se sentavam ao seu redor, absorvendo sua sabedoria e rindo com gosto cada vez que ele os surpreendia com sua inteligência e humor. Walid acompanhou Daqqa em todos os momentos, e me deixou com um aviso longo e doloroso. Walid abandonou seu corpo mortal e se agarrou à sua alma, tornando-se pensamento e memória.
“Momentos que eu guardo fundo no meu bolso. Minhas horas presentes são momentos ilusórios, inacreditáveis até que eles sumam. Estou escrevendo para congelar o máximo possível desses momentos ilusórios, para prendê-los cativos como ar enquanto se afoga.”
Baraka: Você recebeu o Prêmio do Instituto do Mundo Árabe de Literatura em Paris por meio de um link eletrônico. Qual foi a sua mensagem ao mundo?
Abu Srour: Eu quis dizer a eles que é preciso que ela retorne ao seu antigo iluminismo. Paris hoje, como outras capitais europeias, escolheu brilhar, mas esqueceu o significado e a linguagem do iluminismo que um dia a adornaram. Eu quis dizer ao mundo (por meio de Paris iluminada) que ele assuma sua responsabilidade por cada gota de sangue derramada em Gaza e na Palestina ocupada, e que pare de nos ver como seres transparentes, através dos quais enxerga, mas sem nos ver de fato. É preciso parar de ver nosso povo massacrado e nossas cidades assassinadas, nosso anseio por uma vida normal na qual possamos praticar os rituais mundanos e repetitivos da existência, sem morrer mil mortes, tendo apenas a velhice como destino final.
Eu disse aos países que apoiam Israel que parem de financiar nossa morte, o cerco e o deslocamento, e que, em vez disso, destinem seus recursos a causas mais humanitárias. Em meu discurso, afirmei que o Oriente possui uma civilização antiga, pronta para ser parte integrante da identidade universal. Também disse que o universo é diverso, rico e amplo o suficiente para uma cultura ou identidade unificadora que não exclua nenhuma outra.
Recebi o prêmio porque minha linguagem era universal. Apesar de sua autenticidade e de sua ligação com tudo o que há de belo no Oriente, ela foi escrita como se se declarasse a si mesma, sua particularidade e sua disposição para absorver todos os significados de verdade, beleza e bondade, sem consideração por política ou geografia. Fez isso como representante desse Oriente oprimido, assassinado, saqueado, aprisionado, privado, empobrecido, faminto e tornado invisível.
Este prêmio constituiu um reconhecimento da literatura carcerária e da geografia da prisão como uma linguagem singular.
Baraka: Certamente a prisão tem efeitos que podem ser discutidos?
Abu Srour: A prisão deixou muitos efeitos, alguns dos quais podem ser percebidos sem a necessidade de uma lente de aumento. Eles aparecem como tatuagens, gravadas e coloridas por uma mão que não verificou a temperatura da pele nem a intensidade das cores quando foram aplicadas.
A minha sobrevivência enfureceu as paredes da prisão, negou a minha singularidade e as provocou com a minha insolência e audácia de desafiá-las. Eles continuam a carregar consigo tudo aquilo que pensávamos estar morto e enterrado, e tudo o que tentamos apagar ou ignorar. Em um confronto assim, nada é útil exceto a franqueza: encarar os medos, reconhecer o que foi reprimido e limpar os espelhos para que possamos ficar diante deles nus, sem filtros que suavizem, embelezem ou diminuam a dificuldade da cena e a dureza do confronto.
Baraka: No mesmo livro, você disse que a prisão lhe concedeu conhecimentos e depois o negou quando você começou a conhecer… O quê?
Abu Srour: A prisão me forneceu tudo de que precisava de isolamento para praticar meus rituais particulares e contemplar a existência ampla e estreita. E como fazem as paredes o que é da sua natureza e os papéis funcionais para os quais foram preparadas4.
Ela me forneceu uma série de conhecimentos, revelações e deslumbramentos, e organizou esses conhecimentos em seu caminho e como lhe pareceu, até que esses conhecimentos apareceram em formas e imagens e se tornaram sólidos, quase como a solidez das paredes, não aceitando que algo fosse acrescentado a eles ou deles retirado. Eu não teria sobrevivido à solidez desses conhecimentos, à sua capacidade de permanecer como eram e à sua limitação da minha capacidade de reformulá-los, acrescentar imagens e representações adicionais ou remover certos significados que pesavam sobre a facilidade de compreensão e percepção. E eu não teria sobrevivido se tivesse me submetido à linguagem das paredes, sucinta, reduzida e desprovida de espaço para a imaginação. E eu não teria sobrevivido se tivesse praticado meus hábitos sob e diante dos olhos das paredes, acreditando em sua capacidade de me ver, me penetrar e espreitar o mais profundo do meu interior.
Eu tive sucesso quando abandonei meus cinco sentidos, que se submeteram às paredes e à sua linguagem sólida, e que restringiram meu desejo e minha necessidade de libertar outros significados novos, diferentes daqueles que o alfabeto da prisão e suas paredes impuseram.
Eu tive sucesso quando dei nomes aos meus semelhantes e retirei deles o atributo da solidez, até que se tornaram uma matéria dócil, que aceita todos os fatores de influência e não se opõe se eu mudo em suas epopeias5, em seus papéis, em suas intenções e em seus propósitos para mim.
Meu sucesso irritou as paredes da prisão, que negaram minha capacidade e minha firmeza, e eu me atrevi a desafiar seus papéis pré-determinados. Mas elas acabaram se submetendo e passaram a dançar comigo sobre a realidade do meu ser. A prisão passou a me acompanhar em minhas andanças, divagações e voos.
A parede acreditou nos títulos e atributos que lhe conferi e passou a agir de acordo com o que acreditou. Depois, aproximou-se ainda mais de mim, aderiu a mim e carregou o peso dos meus fardos, até que se tornou minha parceira numa jornada que começou antes mesmo do meu nascimento, quando me esperava no beco do campo de refugiados, preparando para mim o primeiro choro do recém-nascido, e ainda hoje compartilha meu exílio, antecipa meus momentos de distração e meus tropeços, para que eu não caia sozinho.
Baraka: Entre o primeiro livro, publicado em 2022, e o segundo livro, publicado recentemente em 2025, há uma distância temporal entre a prisão e seus mundos. O que você diz sobre essa distância e o tempo da escrita, agora que você está no espaço da liberdade?
Abu Srour: O tempo é a medida do movimento, e é relativo, sofrendo os efeitos da velocidade ao seu redor. O tempo ocorre independentemente do nosso posicionamento ou movimento dentro dele, ou da nossa distância em relação a ele. É um indicador da percepção, embora não perceba a si mesmo nem se pretenda uma entidade separada. O tempo da escrita está necessariamente ligado ao lugar (geografia), e cada geografia tem seu próprio tempo, conectado à capacidade do lugar de se mover, ao ritmo desse movimento e às diferenças de temporalidade entre os lugares. A prisão tem um tempo próprio e específico, um tempo que é influente para qualquer tempo que salte sobre os muros da prisão e se torne livre.
O tempo da prisão pode escapar por entre os dedos ou assumir uma postura tormentosa em relação àqueles a quem aflige, e pode ser amigável, não se detendo nas dores nem prolongando sua duração. A liberdade também tem seu próprio tempo, porque a liberdade pode ser um lugar que se habita ou no qual se reside, seja por um curto ou longo período. A liberdade pode abandonar sua justiça e distribuir o tempo de forma desigual, concedendo partes contraditórias, a ponto de tornar-se a escrita (no meu caso) um ato de protesto que pode expor seu autor ao perigo.
Tradução de Viviane Carvalho
- The New Arab ou Al-Araby Al-Jadeed (em árabe: العربي الجديد) é um veículo de notícias pan-árabe com sede em Londres, pertencente à empresa catariana Fadaat Media. A entrevista foi publicada na Edição 1701, o projeto entrou em contato com Abu Srour pelo Facebook que disponibilizou este texto para tradução do inglês para o português.
- Título original “On The Writing Bed” ainda não publicado em português
- Da expressão em inglês “eye of the needle” que significa “olho da agulha”, referindo-se à pequena abertura por onde passa a linha. A expressão tem origem bíblica, na conhecida passagem em que Jesus afirma ser mais fácil um camelo passar pelo fundo ou pela ponta de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus, indicando impossibilidade ou grande dificuldade.
- As paredes cumprem o papel de prender, limitar e restringir.
- Do árabe, ملاحم — malāḥim, refere-se às grandes narrativas fixas e imutáveis que a prisão impôs ao autor — histórias de poder, submissão e identidade predeterminada, de peso mítico e aparentemente inalteráveis.