O Resistente (Sagat B.)
Quando perdi a liberdade, foi como se arrancassem um pedaço da minha alma. Algemado dentro da viatura, atravessando as ruas de Queimados, o barulho das sirenes misturava-se ao som do meu próprio coração. Eu não sabia, mas já estava entrando num outro mundo — um mundo onde o tempo anda de costas e o ar tem cheiro de medo e ferro.
A 55ª DP foi minha primeira travessia. Quando as trancas se fecharam, o som ecoou como sentença eterna. O cheiro de mofo, suor e desespero me invadiu pelas narinas e me queimou por dentro. Trinta homens espremidos em menos de dez metros quadrados, olhos vazios e corpos exaustos, cercados por paredes rabiscadas com frases que clamavam por liberdade. Um inferno em chamas cujo combustível era a mente humana.
Mesmo assim, um gesto inesperado: uma marmitex fria, uma toalha, um pedaço de sabonete. O representante da cela me explicou as regras e leu o estatuto da facção. Ali, aprendi que sobreviver era um exercício de silêncio e cálculo. Na cadeia, uma palavra errada pode custar a vida.
Com o tempo, descobri que aquele lugar tinha uma ordem própria, uma justiça peculiar, feita de códigos e olhares. Dividíamos o alimento igualmente, puníamos quem desrespeitava, e cada um guardava no peito a mesma vontade sufocada de respirar fora dali. Aprendi a observar mais do que falar, e o respeito veio — não pelo medo, mas por entender as dores que todos ali carregavam.
Fui transferido de cela em cela, de delegacia em delegacia, até chegar ao presídio Ary Franco. Ali o inferno tinha nome, cheiro e som. O “batismo” com cassetetes, os gritos sufocados, os olhos que aprendiam a chorar por dentro. Em Bangu, no Vicente Piragibe, encontrei uma cidade dentro dos muros: igreja, escola, cantina, campo de futebol, tráfico, comércio, fé e pecado caminhando lado a lado. A prisão era o espelho distorcido do mundo lá fora.
Mas o golpe mais profundo não veio dos muros — veio de fora deles. Um dia, depois de meses, minha esposa apareceu com minha filha no colo. Quando olhei nos olhos dela, percebi que algo tinha se partido. Pressionei-a, e ela confessou: tinha me traído. O chão fugiu dos meus pés. Eu quis gritar, mas a voz morreu dentro da garganta. Mandei que ela nunca mais voltasse. Vi as duas indo embora — minha mulher, minha filha — e senti como se o pouco que restava de mim tivesse ido junto.
Depois disso, comecei a definhar. Parei de comer, de dormir. A raiva virou meu alimento. À noite, eu via rostos na escuridão e ouvia minha própria voz murmurando vingança. A cela virou o palco dos meus delírios. Caminhava de um lado pro outro, falando sozinho, alimentando um ódio que crescia como erva daninha dentro do peito. Eu já não era eu. Era a soma da dor, da solidão e da insanidade.
Um dia, indo para o refeitório, ouvi uma voz atrás de mim:
— Ô pretinho!
Era o pastor preso, um ex-traficante que agora cuidava da igreja do pavilhão. Entrei, desconfiado. Ele me abraçou forte e disse que via uma nuvem escura sobre minha cabeça — o espírito da morte. Disse que, se eu não perdoasse, morreria por dentro antes de sair dali. Suas palavras me atravessaram como um raio. Como ele sabia o que se passava dentro de mim?
Naquela noite, deitado no chão frio, fiquei olhando o teto rachado e senti medo — não da prisão, nem das facções, nem dos agentes. Medo de mim mesmo. O cárcere tinha me moldado, me esvaziado, me transformado em algo que eu não reconhecia.
Ali percebi que as grades são apenas metáforas. A verdadeira prisão mora na alma — feita de raiva, culpa e lembranças que não dormem. E foi ali, entre os ecos das orações e o barulho das trancas, que comecei a entender: a liberdade não é um portão aberto. É um estado de espírito que a dor tenta apagar, mas que ainda resiste, pequena e teimosa, dentro do peito.
Minha liberdade resiste intacta e eu compreendi que mesmo após 12 anos atrás das grades, ela nunca esteve de fato aprisionada.