Após duas décadas em prisão especial (Lutz Taufer)
Em dezembro de 1997 eu estava na praia de Ipanema, pouco depois de ter sido liberto da cadeia na Alemanha. Após vinte anos, a maior parte do tempo em regime especial, em isolamento, e os últimos dez anos com apenas dois outros presos, também da RAF, em uma ala de segurança máxima.
Essa primeira experiência de Ipanema e de sua praia me deixou sem palavras. Algo se gravou profundamente em mim. A simples naturalidade da beleza, do verão, da praia, essa imensidão infinita do céu e do mar, as pessoas, como eram bonitas, como corriam, se moviam, de forma tão diferente da Alemanha – isso me deu uma sensação definitiva de uma nova liberdade inimaginável. A ala de segurança máxima e as paredes da prisão, bem distantes, com o Atlântico entre elas.
Em 1970, a Fração do Exército Vermelho iniciou sua luta. Ela se via como parte da luta mundial contra o colonialismo, o imperialismo e o fascismo. Dois anos depois, quase todos foram presos e submetidos a uma tortura sistemática de isolamento. Não havia qualquer contato com outros presos, as celas eram à prova de som. Duas dúzias de presos da RAF entraram em greve de fome por tempo indeterminado no final de 1974. Exigiam o fim do tratamento especial e a igualdade de tratamento com todos os presos. Era já a terceira greve de fome contra a prisão em isolamento. Um dos presos, Holger Meins, morreu.
Em seguida, em abril de 1975, nós, como Comando Holger Meins, ocupamos a Embaixada da Alemanha Ocidental em Estocolmo. Exigimos a libertação de 26 prisioneiros. Matamos a tiros dois funcionários da embaixada; dois de nós morremos em consequência de uma explosão. A ação fracassou; só após nossa libertação é que desenvolvemos uma postura claramente autocrítica em relação a esse crime que foi o assassinato dos reféns.
Passamos vinte anos na prisão, a maior parte do tempo em diferentes graus de isolamento, dez dos quais a três em uma ala de segurança máxima. Os governantes queriam nos destruir. Um ministro disse: “A ala de segurança máxima é uma máquina de lavar”.
Eu sofria com a solidão. Sentia que meu organismo, minhas sensações estavam entrando em colapso. Eu andava de um lado para o outro por horas nos meus três metros e discutia em voz alta com participantes imaginários. A certa altura, me assustei: será que estava sendo grampeado? O concerto habitual de ver, ouvir, cheirar, saborear, tocar tornou-se uma dissonância. Ser ou não ser. Quando acordava de manhã, tinha uma sensação que pode ser melhor descrita como uma amputação cerebral. Tudo estava vazio lá em cima, vazio, supérfluo. O organismo humano age com parcimônia. Quem quebra uma perna e usa gesso por semanas, após seis semanas constata que a musculatura está atrofiada. O sistema nervoso humano reage de forma semelhante. A janela da minha cela era feita sob medida, de vidro blindado; eu não conseguia abri-la. Quando chovia, eu podia ver a chuva, mas não a ouvir. Após dez anos de isolamento acústico, minha capacidade auditiva estava bastante prejudicada; cheguei até a receber um aparelho auditivo às custas do Estado – um preso que não ouve simplesmente não funciona. Até hoje uso aparelhos auditivos. A interação das sensações que nos permite acessar o que nos rodeia, agir e reagir, estava desequilibrada. Quando acordava de manhã, acordava em um vazio sem sentido. Eu andava de um lado para o outro na cela, tentava desafiar esse vazio com movimento, ruídos, postura, precisava me redescobrir nesse vazio até então desconhecido. Pequenos passos. Decorei poemas de amor de Brecht ou fazia cálculos mentais: 12,8 vezes 21,5. Aos poucos, tive a sensação de que o vazio se dissipava, de que meu cérebro despertava, porque percebia que era necessário.
Nesses vinte anos, participei de doze greves de fome coletivas, a mais longa durou nove semanas. Meu peso corporal era de 42 quilos. À noite, muitas vezes ficava sem dormir. A greve de fome não se tratava apenas de fazer valer nossas reivindicações, mas também de nos reconstruirmos como sujeitos atuantes e lutadores, de vivenciar que é possível estabelecer limites à onipotência dos muros.
Não foi uma luta heroica, como alguns a viam. Acontecia constantemente de tropeçarmos e cairmos. Eu, por exemplo, interrompi uma greve de fome coletiva. Ou tentei me suicidar. Mas tudo isso não era o problema. A questão era apenas se levantar novamente e seguir em frente. Experimentar coisas novas. Recordar o que há muito estava esquecido, aprender e pôr à prova a independência.
Nossa vida, nosso dia a dia naquela época, era preenchido pela busca, pela invenção e pela experimentação de formas de sobrevivência como pessoas autodeterminadas nesse vazio que parecia não ter fim. Como geração que, após 1945, ainda tinha de vivenciar diariamente a obediência, a rigidez e a heterodeterminação, não havia outra possibilidade. Éramos e somos algo diferente.
Auschwitz, porém, ainda parecia uma opção útil para os governantes. Três anos após minha prisão, fui transferido para outra prisão. Quando, à noite, a porta da minha cela foi destrancada para que eu pudesse pegar a refeição do jantar, havia três prisioneiros idosos em uniformes de detentos em frente à minha cela; eles permaneciam imóveis nas portas de suas celas. Os guardas estavam ali ao lado, sorrindo. Todas as outras celas do corredor estavam trancadas. Eu nunca tinha tido contato com outros prisioneiros. No primeiro momento, fiquei surpreso e não sabia como me comportar. Acenei para eles amigavelmente, mas não houve nenhuma reação. Foi estranho. Na manhã seguinte, minha cela foi aberta novamente, todas as outras celas permaneceram fechadas como sempre, e pude pegar água quente. Vi os nomes escritos nas portas dos três prisioneiros idosos. Kaduk, Erber, Klehr. Os nomes não me eram desconhecidos. Eu os conhecia da literatura sobre o fascismo. Eram três dos poucos condenados da SS que haviam sido condenados no Julgamento de Auschwitz, em Frankfurt. Klehr era o paramédico de Auschwitz que matou milhares de prisioneiros com injeções no coração. Kaduk prestava serviço na rampa, onde assassinava cruelmente crianças que chegavam. Um quarto, Boger, o inventor do balanço de Boger, um instrumento de tortura que já existia durante a escravidão também no Brasil, havia falecido um ano antes.
Então era essa a “igualdade de tratamento” pela qual havíamos lutado com greves de fome, que o governo me oferecia. Eu teria que passar os próximos anos com esses monstros nazistas. Essa experiência me deixou completamente abalado. Senti que era meu dever absoluto matar esses monstros. Tentei afiar uma faca da minha cela para transformá-la em arma, o que, felizmente, não deu certo.
Como não queria me envolver com esses nazistas, a única opção que me restava era ficar sozinho na cela de isolamento. Mas isso não era uma solução. Exigi ser transferido para Celle, outra prisão, para ficar com outros três presos da RAF. Como eu conseguiria isso? Não podia fazer outra greve de fome. Então, de manhã, bati com o pé na porta da cela para tornar pública minha exigência de ser transferido para Celle. Isso durou semanas. Eu era espancado repetidamente pelos guardas e levado para o porão, para uma cela de isolamento. Isso durou semanas. Quando meus ferimentos causados se tornaram evidentes demais, fui finalmente transferido para Celle. A prisão em isolamento deveria ser um método de tortura que não deixasse marcas visíveis. Um governo que ainda vivia à sombra do Holocausto e dos campos de concentração queria evitar isso a todo custo.
Em Celle, éramos três, três presos da RAF, em uma ala de alta segurança hermeticamente isolada. Esses dez anos, a convivência nessa interminável espera, as lutas recorrentes, as depressões, a solidariedade, as incertezas, o renascimento, os momentos de alegria e as brigas – descrever tudo isso seria outra longa história.
Três anos antes de nossa libertação, nos reunimos pela primeira vez com outros presos. Pudemos fazer nosso passeio no pátio com eles. Foi então que conheci os tênis, nos tornamos amigos. O que havia com esses tênis? As celas na ala de alta segurança ficavam no térreo. Mas as janelas das celas eram de vidro blindado e não podiam ser abertas. Diante das janelas havia uma cerca de tábuas, para que não pudéssemos entrar em contato com os outros presos durante o passeio no pátio. Mas lá embaixo havia uma pequena abertura pela qual eu via repetidamente aqueles tênis passando.
Depois de algum tempo, consegui pensar com mais clareza. Fui convidado por uma editora para escrever um artigo para uma coletânea intitulada “A Esquerda – entre os mundos”. Alguns Tupamaros, incluindo uma camarada brasileira, escreveram sobre suas vidas e suas lutas. Consegui mesmo fazer isso. Meu cérebro aparentemente ainda funcionava. Chamei o ensaio de “Pensamentos contra as paredes”. Não apenas contra as paredes da prisão, mas também contra as paredes em nossas cabeças.
A experiência de Ipanema me marcou profundamente. Trabalhei durante dez anos nas favelas da região metropolitana do Rio com as pessoas de lá. Na área de formação profissional, do cooperativismo popular, mas também com o Teatro do Oprimido. Consegui me identificar com elas. Eram pessoas, muitas vezes descendentes de escravos, que, no trabalho coletivo, redescobriram suas habilidades vencidas.
Lutz Taufer, nascido em 1944, cresceu na Alemanha Ocidental pós-fascista; politizou-se e radicalizou-se no movimento de 1968, no Coletivo Socialista de Pacientes da Universidade de Heidelberg e nos Comitês contra a Tortura por Isolamento de Presos Políticos. Em 1975, participou da ocupação armada da Embaixada da Alemanha Ocidental em Estocolmo para libertar 26 presos políticos, mas a ação fracassou, resultando em 20 anos de prisão, a maior parte em regime de isolamento. Em 1995, foi libertado e, a partir de 2000, mudou-se para o Brasil. De 2003 a 2012, foi cooperante do Weltfriedensdienst (Serviço Mundial pela Paz) e do Centro de Assessoria ao Movimento Popular na região metropolitana do Rio de Janeiro. Atualmente, realiza trabalho comunitário com imigrantes em Berlim.
Em 2017, lançou sua Autobiografia Über Grenzen – vom Untergrund in die Favela, publicado em 2018 no Brasil com o título: Atravessando Fronteiras – da guerrilha urbana na Alemanha ao trabalho comunitário nas favelas brasileiras (Autonomia Literária).