CARTA 06 DO LATÃO (Jorge Augusto Xavier de Almeida)
CARTA 06 DO LATÃO
ESCRITA EM 30 DE NOVEMBRO DE 2020
Carta presente no livro Cartas do Latão, de Jorge Augusto Xavier de Almeida.
Querida Angela,
Parei por 48 horas o que estava a escrever sobre o latão, em razão da caneta e o papel terem acabado. Fui ao banho de sol nessa sexta-feira, dia 27/11, com objetivo de comprar de algum detento esses materiais tão necessários. O sistema só permite a entrada mensal de uma caneta e um caderno de 60 folhas. Para mim, que estou a escrever “Heranças de um vintém”, o relato do latão e as cartas aos amigos e familiares, essa cota é totalmente irrisória. Aqui dentro do pavilhão até se arruma para comprar, porém, como não circula dinheiro, o pagamento é feito com parte da alimentação diária que recebemos. Uma caneta aqui custa quatro “marrocos” e o caderno, oito. Quem tem e pode vender, prefere itens de alimentos. Se a “moeda” de transação fosse sabonetes, sabão em pó ou outro tipo de materiais de limpeza e higiene pessoal, para mim seria mais fácil, eu os tenho no “barraco”. No mercado carcerário esses produtos tem baixa liquidez. Portanto, ficarei uns dias sem tomar o lanche da tarde completo por falta de pão, mas resolvi o problema. Recordo-me que há dois ou três meses, passei por dificuldade igual, e me vi obrigado, por força da necessidade, a dar em troca de uma caneta, que custa aí fora 75 centavos, um par de sandálias havaianas novinhas que havia chegado pra mim via “cobal”. (Ah, desculpe pela propaganda da marca da sandália). Elas devem custar em média 16 reais. Até hoje, nunca me arrependi desse negócio que realizei, e sempre penso que saí em vantagem nessa barganha. É claro que o companheiro ficou sorrindo de orelha à orelha, mas pensei na possibilidade de onde aquela caneta poderia me levar. Fui muito longe com ela, fiz várias viagens de longa distância, coisa que aquele par de sandálias, não me possibilitaria estando eu preso. O preço, a valoração e a importância dos bens materiais, há de ser sempre relativizados.
Querida,
Daqui para frente, passarei a enviar as demais cartas do “latão” escritas na letra do “irmão” Jandeson, que é um companheiro e colaborador voluntário do meu trabalho. Como o mesmo faz sempre uma cópia de tudo que lhe escrevo para deixar arquivadas comigo, quero apenas inverter essa lógica. O que eu ganho com isso? Explico: nas três folhas escritas por ele, cabe mais conteúdo, portanto, gastarei menos envelopes e menos selos para enviá-las e, nesses dias de falta de materiais, toda economia é bem-vinda. Peço a sua compreensão e sei que eu a terei. Pois bem, querida, estou pronto e a convido para voltarmos ao latão.
Na terça-feira, dia 03/11, fui mudado da cela quatro para a três, sob o pretexto de que os presos seriam realocados de acordo com os pavilhões de origem. Na cela três havia dois colegas vindos do pavilhão ‘C’. Sem mais demora a mudança foi efetivada. Ali na cela três estavam Alisson e Silton, esse último conhecido como “Véião”.
Véião, não sei se você lembra, eu já falei dele para você por carta. É um senhor de 63 anos que foi torturado no mês de agosto e ficou com o rosto desfigurado de tantos hematomas provenientes das pancadas que recebeu, e por ter tido seu rosto comprimido e batido ao solo por várias vezes.
Inicio assim a apresentação dessa figura lendária dentro do sistema carcerário.
Bem, no pavilhão, eu e o Véião somos próximos, porém nunca havíamos estado juntos na mesma cela. Logo no primeiro dia, percebi algo diferente de todos os presos com quem convivi até então.
Véião tem mania de limpeza, e de tudo, isso não é ruim, mas se irritar com os farelos de pão que caem no piso da cela me chamou muito a atenção inicialmente. Inquieto, lavava o “boi” cinco vezes ao dia. Reclamava se o registro do cano que sai a água do banho estivesse sido apertado para além do que ele imaginava ser o necessário. Irritava-se muito facilmente e oscilava o humor com certa facilidade. O processo de desgaste na relação dele com o Alisson eram notórios. O Alisson muito resiliente suportava ser chamado à atenção com frequência. Não sei como os dois haviam levado até ali sem um conflito mais forte, pois já fazia vinte dias que pagavam juntos o castigo.
Comigo, talvez por sermos contemporâneos, ele, o Véião, pegava mais leve. Só tive um desconforto direto com ele mesmo. Numa cela como as do latão, quando se acomoda três colchões, fica um espaço de 30 centímetros entre eles. O meu ficava no meio entre Véião e Alisson. Numa tarde, o meu colchão havia afastado dois centímetros rumo ao Véião e eu não tinha percebido. Véião me chamou à atenção por esse meu “descuido”. Aí eu fui obrigado a testá-lo para ver até que ponto ele seria capaz de chegar com suas reclamações. Olhei para o mesmo, antes de corrigir meu “erro” e pedi-lhe que olhasse para mim e falei:
— Véião, você acha mesmo que eu tenho alguma satisfação em dormir colado a qualquer barbado? Talvez você esteja me confundindo. É isso mesmo?
Véião não me respondeu, e eu afastei o meu colchão cinco centímetros em direção ao Alisson.
Analisando o comportamento do companheiro, percebi que ele carregava consigo transtorno bipolar. Mais clareza disso tive quando nossas conversas começaram a fluir. Puxei muito a língua dele, para que me contasse a sua história de vida e de crimes, e os dias que ficamos juntos só serviram para fortalecer uma amizade que já havia se iniciado no pavilhão “C”. Foi muito importante para mim as prosas que tivemos. Conversamos tanto que hoje eu me atreveria biografá-lo. Não é o caso, pelo menos por enquanto, entretanto, acho importante minha amiga, dizer a você parte da conversa que tivemos. Véião é seu conterrâneo.
Silton Fernandes Borges, nascido em 31 de janeiro de 1958, em Águas da Prata – SP. É o quarto filho de uma família de doze irmãos, sendo seis homens e seis mulheres. Filho de Onofre Jacinto Borges e Zulmira Fernandes Borges.
De forma intercalada, Véião já totalizava 35 anos de cadeia cumprida por tráfico de drogas e outros crimes. Desde a última vez que deu entrada no sistema carcerário já se vão 16 anos sem ver a rua.
Foi preso essa última vez, na cidade de Campestre – MG, em 18 de maio de 2004, em um sítio à beira da estrada, onde havia junto com seus pares montado um pequeno laboratório para refino de cocaína. De lá para cá, passou por várias cadeias e penitenciárias até chegar aqui na PAOJ. Começa essa nova fase da sua longa jornada carcerária no presídio de Poços de Caldas – MG e é transferido para diversas unidades prisionais, percorrendo todo estado mineiro.
Sua primeira transferência nessa fase se dá para a penitenciária de Três Corações, daí para a penitenciária de Formiga e de lá para a penitenciária de Francisco Sá, e cumpre parte de sua sentença no RDD (Regime Disciplinar Diferenciado) desta unidade. E segue sendo transferido: penitenciária Dutra Ladeira é a sua próxima parada, daí à penitenciária Agrícola de Ribeirão das Neves, voltando à Três Corações e Poços de Caldas, e de lá vem transferido direto para PAOJ, onde chega em 09 de março de 2014.
Na sua adolescência, fora internado no Sanatório Antônio Luiz Sayão em Araras – SP por duas vezes, aos quinze e aos dezessete anos, por suspeitas de doenças mentais, porém, fugiu nessas duas oportunidades que ali esteve. Perguntei-lhe sobre o diagnóstico que os psiquiatras haviam chegado, e ele me respondeu que nada foi detectado de anormal em sua mente. Penso que nesse ponto da nossa conversa houve uma omissão por parte dele.
Eu mesmo já havia notado algo muito diferente em seu comportamento.
Foi preso a primeira vez ainda adolescente e, após ficar adulto, percorreu quase todas as unidades prisionais de seu estado de origem, São Paulo.
Véião me contou sobre as sessões de tortura na época do regime militar, em que nas cadeias públicas, presídios e penitenciárias ainda usava-se como forma de tortura o “pau de arara”, levando choques elétricos em suas partes íntimas e nos ouvidos e boca. Contou que os torturadores optavam, preferencialmente, por colocar um fio condutor de eletricidade dentro do buraco de algum dente que estivesse cariado. Isso, segundo Véião, potencializa em muito a agonia de quem recebe esse tipo de choque. E ele já experimentou tudo isso.
Bem, a sua vida de crimes, vivendo em uma numerosa família, na qual apenas ele pegou esse caminho, o afastou da maioria dos seus irmãos.
Como a ideia aqui não é fazer a biografia do Véião, mas quero falar um pouco das relações dele com parte de sua família.
Sua mãe, Dona Zulmira, lutou por toda a sua vida para tirar seu filho Silton do mundo do crime, mas todos os seus esforços foram em vão. E ela, convicta de que havia falhado na educação do filho, ao adoecer, já aos 83 anos, e acamada em um leito de hospital, pede para um advogado, amigo da família, fazer gestão junto ao sistema prisional para que permitisse que Véião a visitasse. Nessa parte da nossa conversa percebi que ele estava bastante emocionado. Dei um tempo na investigação, e assim que vi que o mesmo tinha se recomposto, retornei.
Ele me disse que foi escoltado até o hospital, e que os policiais que o levaram permitiram que a conversa fosse reservada. Sua mãe se emociona ao vê-lo, e pede ao mesmo que a perdoasse por ter falhado com ele. Véião toma um susto com essa fala e consegue responder, disse à mãe que ele não tinha nada a desculpá-la, nada a perdoá-la. Que se tinha alguém ali que deveria pedir perdão era ele a ela, por ter lhe causado tanto desgosto. Que tudo que ela fez para seus irmãos, ela também tinha proporcionado para ele um tratamento igual.
Querida, continuo na sétima carta.
Um forte abraço a você. Fique bem.