“A prisão já era um lugar difícil para presas comuns, mas para uma mulher grávida era um inferno”: a história de Andrea Rosal
Texto de World Women’s Conference. “Entrevista com Andrea Rosal (Philippines)” 22 May 2014. O entrevistador(a) não foi identificado, o texto faz parte de um arquivo sobre a campanha “Liberdade para Andrea Rosal”.
Esta é a história de Andrea Rosal, presa em 27 de março, quando estava grávida de sete meses. Em 17 de maio, ela deu à luz uma menina, Diona, que tragicamente faleceu um dia depois devido a problemas respiratórios. Tive a oportunidade de entrevistá-la menos de 24 horas depois, e este artigo é o resultado dessa entrevista. Também incluí uma pequena entrevista com a Dra. Beng Rivera-Reyes, uma das médicas que a acompanharam durante seu encarceramento.
Acho importante dar um pouco de contexto aos leitores não filipinos sobre quem é Andrea Rosal, de 31 anos. Ela é conhecida por ser filha de Gregorio “Ka Roger” Rosal, falecido porta-voz do Novo Exército do Povo (NPA, da sigla em inglês), que evitou ser capturado pelo governo até sua morte. Quando criança, aos cinco anos de idade, foi sequestrada por forças governamentais para pressionar seu pai a abandonar a luta armada. Apesar disso, jamais foi comprovado que ela própria fosse integrante do NPA ou do Partido Comunista das Filipinas (CPP, da sigla em inglês).[1]
Isso não impediu o Escritório Nacional de Investigações (NBI) e o serviço de inteligência das Forças Armadas (ISAF) de efetuarem sua prisão em 27 de março, sob acusações de homicídio e sequestro.
Durante a prisão, às sete da manhã, ela estava acompanhada por uma amiga e pelo proprietário da casa onde se encontrava temporariamente hospedada. Ambos também foram presos, embora apenas Andrea estivesse mencionada no mandado de prisão.
Os agentes, cerca de vinte integrantes do NBI e do ISAF, estavam equipados com armamento e equipamentos de combate. As entradas da residência foram bloqueadas por veículos, e os agentes invadiram a casa. Mesmo estando grávida de sete meses e diante de uma força esmagadoramente superior, Andrea recebeu a ordem de “não resistir”.
Ela descreve a experiência como semelhante a um sequestro: foi completamente dominada e levada para uma cela de detenção temporária. Uma vez presa, jamais passou por um interrogatório formal. Nem sequer teve permissão para ler integralmente o mandado de prisão antes que ele lhe fosse retirado das mãos.
Inicialmente, os agentes foram gentis com ela. Segundo Andrea, essa era uma tática para convencê-la a “passar para o lado deles”. Pediam que fornecesse informações sobre supostos líderes do NPA e do CPP, apesar da inexistência de provas de que pertencesse a essas organizações.
Quando suas tentativas fracassaram, o tratamento mudou. Os agentes mostraram fotografias de vigilância, algumas tiradas meses antes, demonstrando que poderiam tê-la preso muito antes se quisessem. Segundo eles, haviam esperado porque acreditavam que Andrea os levaria a membros de alto escalão da insurgência armada.
Quando questionou o motivo de sua prisão, recebeu uma resposta direta: tratava-se de razões políticas.
“É porque você se parece com seu pai.”
As acusações originais de homicídio e sequestro eram vagas e, muito provavelmente, falsas.
Andrea realizou os exames obrigatórios para gestantes, incluindo exames de sangue e ultrassom, no Manila Medical Center. Em seguida, foi colocada numa cela coletiva do NBI, compartilhada com trinta outras detentas.
Com a ajuda de organizações de direitos humanos como a Karapatan e a Health Action for Human Rights, solicitou ao tribunal sua transferência imediata para o Philippine General Hospital. O pedido foi negado por razões pouco claras.
Após uma semana de detenção, foi informada de que seria transferida. Embora lhe tenham dado a entender que iria para um hospital, foi levada para o complexo prisional de Camp Bagong Diwa, em Taguig.
Ali começaram os verdadeiros problemas.
A prisão já era um lugar difícil para presas comuns, mas para uma mulher grávida era um inferno. Trinta e uma mulheres compartilhavam uma cela projetada para vinte e quatro. As camas de metal de três andares eram tão deformadas que Andrea não conseguia acomodar a barriga. Dormir no chão era, muitas vezes, mais confortável.
A alimentação também era um problema. Embora houvesse comida suficiente, a qualidade era péssima. A dieta consistia basicamente de peixe com arroz. Frequentemente o peixe estava mal cozido ou em estado tão ruim que provocava doenças entre as detentas. Temendo pela saúde do bebê, Andrea muitas vezes passava o dia alimentando-se apenas de arroz.
A água também era inadequada. As presas a chamavam de “água dos criminosos”. Era imprópria para consumo e muito contaminada. Mesmo fervendo-a, a diarreia era inevitável.
A cela ficava no quarto andar, era extremamente quente e mal ventilada. Andrea não recebeu autorização para comprar um ventilador adicional. As 31 mulheres compartilhavam apenas dois banheiros.
O maior problema, porém, foi a falta de assistência médica.
Embora estivesse prevista para dar à luz na terceira ou quarta semana de maio, os exames do médico da prisão limitavam-se a medir sua pressão arterial e perguntar:
“Como você está se sentindo?”
A única ajuda médica efetiva veio da organização Health Action for Human Rights. A Dra. Rivera-Reyes acompanhava seu estado geral de saúde, enquanto a Dra. Cruz prestava assistência obstétrica e ginecológica.
Mesmo assim, o trabalho delas era limitado pela falta de equipamentos. Não havia instrumentos adequados para acompanhar a gravidez. Em algumas visitas, elas se consideravam sortudas apenas por conseguirem entrar com um estetoscópio.
Andrea sofria de problemas estomacais e erupções cutâneas. Embora medicamentos tenham sido prescritos, enfermeiras da prisão recusavam-se a administrá-los, alegando que ela estava mentindo ou que os sintomas desapareceriam sozinhos.
Em 15 de maio, após seis semanas presa, um juiz finalmente aprovou seu pedido de hospitalização, pois ela já apresentava contrações.
Naquela noite foi levada ao Philippine General Hospital. Lá, informaram que ela não possuía registro no hospital e, portanto, não poderia ser internada imediatamente. Foram realizados exames laboratoriais e um ultrassom. Depois disso, ela foi devolvida à prisão.
No dia seguinte foi levada novamente ao hospital.
Às 23 horas, entrou em trabalho de parto.
O parto foi difícil e durou oito horas.
Às sete da manhã de 17 de maio nasceu Diona.
Segundo a Dra. Rivera-Reyes, o bebê nasceu sem respirar e sem movimentos, embora ainda apresentasse batimentos cardíacos. Foi reanimado, conectado a um respirador e encaminhado à unidade de terapia intensiva.
Contudo, a falta de oxigênio já havia provocado danos graves. Na manhã do dia 18, a hipóxia havia desencadeado convulsões, indicando possível lesão cerebral. No início da tarde, o coração da criança parou de bater. Após tentativas de reanimação, Diona foi declarada morta pouco depois das quatro da tarde.
Questionada sobre a relação entre as condições de detenção e o estado do bebê ao nascer, a Dra. Rivera-Reyes respondeu que não podia afirmar com certeza que elas causaram a morte da criança. Porém declarou:
“Mesmo que o bebê tivesse nascido saudável, as condições em que Andrea Rosal foi obrigada a viver foram vergonhosas. Ela não estava em um ambiente adequado para uma mulher grávida. Não recebeu a nutrição necessária. E, sem dúvida, o atraso injustificável em sua hospitalização e as exigências inaceitáveis impostas para que ela fosse levada ao hospital não contribuíram em nada para melhorar sua situação.”
Durante a entrevista, Andrea permaneceu sob vigilância constante. Oito guardas se revezavam em sua custódia, dois deles armados com submetralhadoras.
Após o nascimento de Diona, Andrea precisou pedir autorização para visitar a filha na UTI. Depois da morte da criança, precisou solicitar novamente permissão para vê-la antes que o corpo fosse levado ao necrotério.
Ela pediu que tirassem uma fotografia ao lado da filha — a primeira e última foto das duas juntas.
Nas duas ocasiões, foi algemada para percorrer a curta distância até o local e acompanhada pelos oito guardas.
Sempre havia pelo menos um guarda dentro do quarto, muitas vezes mais. Como o quarto possuía ar-condicionado, os agentes costumavam utilizá-lo para descansar.
Na noite seguinte à morte da filha, os oito guardas permaneceram no quarto conversando em voz alta e usando seus celulares, interrompendo seu sono e impedindo que ela sofresse o luto em privacidade.
O velório de Diona seria realizado na Iglesia Filipina Independiente, em frente ao Philippine General Hospital. Por meio de seus advogados da National Union of People’s Lawyers, Andrea solicitou ao tribunal autorização para comparecer ao velório e ao enterro da filha.
Ao mesmo tempo, o Movimento Free Andrea Rosal continuava pressionando por sua libertação, classificando sua situação como uma afronta aos direitos humanos.
Quando perguntei a Andrea como via o futuro, ela pareceu recuperar parte da energia. Sentou-se ereta e respondeu:
“Continuarei a luta. E farei isso pela filha que perdi, até ter feito tudo o que puder em sua memória.”
Traduzido por Viviane Carvalho
[1] O Partido Comunista das Filipinas e o Novo Exército do Povo empreendem uma luta armada revolucionária desde 1969, sendo uma das insurreições armadas mais antigas do mundo. O PCF e o NEP tem forte influência da própria Revolução Chinesa e reivindicam o conceito maoísta da Guerra Popular Prolongada desde uma insurreição em Tarlac, contra o então presidente Ferdinand Marcos. A sua luta armada persiste até hoje.