“Passei na beirada de um abismo conversando com a morte e a convenci de que o momento ainda não era aquele” (Maurício Monteiro)
Apresentação – Um convite ao silêncio
Por Murilo Gaulês
Estar diante de Maurício Monteiro é como estar diante da história viva da resistência antiprisional paulista. Embora ele seja reconhecido por ser testemunha ocular e sobrevivente do maior massacre prisional da história da América Latina — o Massacre do Carandiru —, reduzi-lo a isso seria simplório e desonesto. Isso porque estamos diante de uma pessoa que escolheu como objetivo transformar sua experiência com a violência prisional em uma luta coletiva e comunitária. Sua voz tem agregado centenas de pessoas no Parque da Juventude, território que antes sediava a Casa de Detenção de São Paulo, para corpo-documentar os apagamentos sistematicamente produzidos e repetidos.
Nessa trajetória, Maurício Monteiro se afirma como educador popular, articulador político, pesquisador e ativista, convertendo a memória em ferramenta de formação crítica e mobilização social. A voz de Maurício nos lembra que o episódio do Carandiru vai muito além dos 111. Seja pelas omissões do Estado e suas subnotificações, seja pelo apagamento das 104 vítimas não fatais de lesão corporal, traumatizadas pelo fascismo carcerário (Tavolari; Machado; Nisida, 2022).
Sua atuação produz fissuras nas narrativas oficiais que insistem em reduzir a população encarcerada à condição de números, estatísticas ou casos encerrados. Ao reivindicar a presença dos corpos, das experiências e das lembranças daqueles que viveram a violência do cárcere, seu trabalho dialoga com o conceito de corpo-documento formulado por Beatriz Nascimento, para quem os corpos negros constituem arquivos vivos de experiências históricas, portadores de memórias que sobrevivem às tentativas de apagamento promovidas pelas instituições e pela narrativa dominante (Nascimento, 2021).
Ao mesmo tempo, sua prática de rememoração pública e coletiva facilita um exercício ético e político de reconstrução da memória daqueles que foram silenciados pelos arquivos oficiais, não para substituir a história por ficção, mas para gerar fabulações críticas que tensionam os limites do que foi registrado e ampliam as possibilidades de existência daqueles que o poder procurou tornar invisíveis (Hartman, 2020). Nesse sentido, Maurício não apenas preserva memórias; ele contribui para a produção de novos horizontes de compreensão sobre a violência de Estado, a prisão e seus efeitos duradouros sobre indivíduos, famílias e comunidades.
Sua contribuição para a perspectiva antiprisional reside justamente nessa capacidade incrível de transformar sobrevivência em elaboração política, testemunho em formação coletiva e memória em prática de resistência. Ao ocupar o Parque da Juventude, construir diálogos intergeracionais e insistir na humanidade daqueles que o sistema prisional busca desumanizar, Maurício Monteiro ajuda a sustentar uma tradição de luta que compreende o desencarceramento não apenas como uma pauta jurídica ou institucional, mas como um projeto ético de reconstrução da vida social. Talvez esse seja o ápice do abolicionismo em sua síntese prática.
A vista do ponto
Por Maurício Monteiro
Entender o motivo pelo qual me fez adentrar ao crime, um mundo que, para muitos, a única saída é a morte, era pensar que queria provar algo. Hoje, sabendo para quem e o porquê, isso se tornou meu roteiro em um retorno a um caminho deixado para trás.
Todos que entram para o mundo do crime têm seus motivos. Para a sociedade, eles podem não ser justificáveis. Para quem os viveu, quase sempre são.
Passei na beirada de um abismo conversando com a morte e a convenci de que o momento ainda não era aquele. Ou Ela foi quem me convenceu de que não seria, pois, quando realmente chegar essa hora, não há o que conversar. Mas, seja o que for, a realidade é que ainda aqui estou. Durante os 16 anos que permaneci preso, vi vários homens dialogarem com a morte, cujos argumentos não foram aceitos (ou era o momento em que Ela queria poucas ideias), e percebi que, enquanto há vida, existe esperança. Coisa simples, mas era o que sempre quis provar desde quando tiraram meu irmão de mim.
Dentro do cárcere, eu era mais um preso, que buscava sobreviver e conquistar a liberdade, mesmo compreendendo que ela não dependia apenas do meu querer, mas também de um Estado que se beneficia da minha prisão, pois isso justifica seus gastos e atos, satisfazendo, assim, a sede de ódio e vingança de uma sociedade decrépita, corrompida e decadente, a qual é manipulada e iludida com benefícios que satisfaçam essa sua sede insaciável, segregando, assim, aqueles que não fazem parte de sua realeza.
“Violência gera violência”, mas o violento também usa essa frase como vítima. Frequentemente, quem pratica violência se apresenta trazendo o momento e não a raiz, sabendo o caminho percorrido, mas apagando suas pegadas e fazendo-se de vítima, e não de algoz.
Ser um sobrevivente e lembrar dos mais de 111 mortos na chacina do Pavilhão 9 da Casa de Detenção de São Paulo, no dia 2 de outubro de 1992, é mais que um ato de resistência; é também um convite para que a sociedade reflita e repense sobre seus valores, e que honestamente se pergunte o que aquele trágico episódio trouxe de bom para a história.
É interessante pensar e ver que muitos acreditam que fazemos ou deixamos de fazer algo por termos opções a seguir, principalmente os egressos do sistema prisional. Mas até que ponto isso é verdade? Pois basta olharmos com mais atenção para perceber a influência constante e a manipulação de massas, através dos meios de comunicação (algoritmos, redes sociais, mídia de massa tradicional, entretenimento, cultura e sistema educacional), mecanismos psicológicos (medo e raiva, criação de inimigo em comum, repetição exaustiva, símbolos, slogans e efeito manada), conjunto de técnicas utilizadas por detentores do poder não só para se manterem nele, como também para segregar outros.
“O grau de civilização de uma sociedade pode ser medido ao se visitar as suas prisões.”
(Fiódor Dostoiévski)
Dia 2 de outubro de 1992
No meio dos corpos, não fiquei!
No meio dos corpos passei,
pisei,
olhei,
mas não parei,
pois bem sei…
Que, no meio daqueles corpos,
seria a minha vez.
Maurício Monteiro
Prisioneiro 84.901
Referências
DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Recordações da Casa dos Mortos. São Paulo: Editora 34, 2015.
HARTMAN, Saidiya. Vidas rebeldes, belos experimentos: histórias íntimas de meninas negras desordeiras, mulheres encrenqueiras e queers radicais. São Paulo: Fósforo, 2020.
NASCIMENTO, Beatriz. Uma história feita por mãos negras: relações raciais, quilombos e movimentos. Organização de Alex Ratts. Rio de Janeiro: Zahar, 2021.
TAVOLARI; Bianca, MACHADO, Maíra Rocha; NISIDA, Victor. Cemitério dos direitos – desativar, demolir, cimentar, transformar em parque: os trinta anos do Massacre do Carandiru. São Paulo: Quatro Cinco Um, 2022. Disponível em: https://quatrocincoum.com.br/artigos/as-cidades-e-as-coisas/cemiterio-dos-direitos. Acesso em 08 jun. 2026.
Maurício Monteiro é educador social, ativista de direitos humanos e sobrevivente do Massacre do Carandiru, ocorrido em 1992 na antiga Casa de Detenção de São Paulo. Ex-detento do sistema prisional paulista, onde permaneceu preso por cerca de 16 anos, transformou sua trajetória em trabalho de conscientização e memória histórica. Atua em projetos de educação, pesquisa e preservação da memória do cárcere, realizando mediações e visitas no Espaço Memória Carandiru, além de participar de debates, palestras e iniciativas voltadas aos direitos humanos e à questão prisional. Também é integrante do Instituto Resgata Cidadão (IREC), instrutor de boxe e criador do canal “Prisioneiro 84.901”, onde compartilha reflexões sobre sua experiência no sistema prisional brasileiro.
Murilo Moraes Gaulês é pesquisador, educador, multiartista e fundador da CiA dXs TeRrOrIsTaS. Pós-Doutorando FAPESP/USP e Doutor em Artes Cênicas pela Universidade de São Paulo, desenvolve pesquisas e projetos nas áreas de teatro, educação popular, artivismo, gênero, sexualidade e abolicionismo penal. Também coordena iniciativas voltadas à reflexão sobre prisão, memória e direitos humanos, articulando produção artística, pesquisa acadêmica e atuação comunitária.