“A prisão se enfrenta com coragem – É um posto de honra para o militante revolucionário” (Carlos Mariguella)
Reproduzimos, abaixo, o trecho de uma espécie de manual comunista para enfrentar as prisões, editado em 1951. Intitulado “Se fores preso, camarada”, sua autoria é atribuída ao destacado revolucionário Carlos Mariguella, que na época respondia tanto pela imprensa do PCB quanto possuía enorme experiência e autoridade sobre o tema, uma vez que também ele fora preso e barbaramente torturado sob o Estado Novo. Trata-se de um documento de enorme valor histórico e também político, num momento em que a ascensão do novo fascismo em todo o mundo e a intensificação da repressão política adquirem relevos dramáticos.
(Os editores).
PRECEITOS GERAIS EM QUE SE BASEIA A ATITUDE DO MILITANTE DIANTE DA POLÍCIA
Antes de tudo, é indispensável compreender que a reação, na sua luta por quebrar o movimento operário e revolucionário, visa fundamentalmente o nosso Partido, porque tem a compreensão e avalia a importância decisiva do seu papel dirigente de vanguarda combativa do proletariado e cabeça da Revolução. O objetivo fundamental da reação é liquidar a organização e, para tanto, emprega todos os recursos e se utiliza de todos os processos. Estes processos vão da violência à provocação política, que assume as mais variadas formas, das mais rudimentares até as mais refinadas e sutis, por meio das quais a burguesia trata de infiltrar seus agentes no Partido para tentar desagrega-lo, liquidá-lo por dentro. É com idêntico objetivo que a reação não deixa jamais de utilizar-se da prisão de cada militante do Partido para prová-lo em sua firmeza, em suas convicções e em seu espírito de sacrifício. A reação tudo faz para desmoralizar cada militante, para liquidar moralmente cada quadro do Partido, porque sabe que é dessa maneira que mais seriamente e de maneira prática pode golpear a organização e penetrar em seu seio.
Não persistir até o fim não é, em geral, um combatente; vê na prisão uma questão pessoal, acabará derrotado e humilhando-se diante do inimigo.
O militante comunista, ao ser preso, mantém-se por isso sereno, digno e firme. Particularmente, o quadro dirigente, conhecido como tal, jamais tenta inventar histórias ou justificativas para suas atitudes anteriores. O que não quer dizer, no entanto, que isto não possa ser feito pelo militante de base, quando as circunstâncias o permitam e desde que o álibi ou justificativa não possa de forma alguma comprometer a organização, nem a dignidade do militante. É método que pode às vezes dar resultados quando o militante é desconhecido da polícia ou, mesmo, pouco conhecido, como militante revolucionário.
Atitude de protesto – A prisão deve ser sempre encarada pelo militante revolucionário como um arbitrário e viciante das classes dominantes contra o qual é seu dever lutar e, na medida do possível, desmascarar diante das massas. Não é admissível que um comunista aceite conformada e passivamente, sem protesto claro e veemente, a arbitrariedade do tira que pretende arrastá-lo para a prisão ou jogá-lo violentamente numa viatura policial. A atitude de protesto no momento da prisão serve para despertar as massas contra a política e, no mínimo, dificulta sua ação repressora, obrigando-a a uma dispersão de forças cada vez maior.
A atitude de protesto sempre é possível e permite muitas vezes ao comunista dirigir-se ao povo em comício provocado pela própria polícia. Em 1946, uma companheira presa em plena via pública conseguiu, com seus gritos de protesto, que se reunissem mais de duzentas pessoas, das quais se dirigiram, desmascarando a brutalidade policial com expressões simples, mas incisivas: “Não ajudem a essa polícia de bandidos!”, “Hoje sou eu, amanhã são vocês!”, etc.
Cenas dessa natureza, à medida que se repetem e que a situação econômica e política se agrava no país, acabam sempre por determinar ações de massa contra a polícia e tornam cada vez mais difícil sua ação repressora.
Essa atitude de protesto deve prosseguir dentro da polícia, na sala de detidos e na prisão. Preso, o militante comunista deve continuar lutando pelos seus direitos, contra as arbitrariedades policiais e saber sempre colocar-se como combatente de vanguarda na primeira linha de todas as ações de massas e movimentos de solidariedade. No início, porém, essas ações não podem, em geral, deixar de ser individuais, porque a polícia sempre procura infiltrar seus agentes entre os presos para colher informações. Cabe, no entanto, a cada militante, especialmente aos mais responsáveis ou aos mais esclarecidos e experientes, tomar a iniciativa no sentido de procurar orientar seus demais, ensinando a todos, na medida do possível, a como proceder para manter uma posição firme e digna.
Mais tarde, já na prisão, cabe a cada militante tomar a iniciativa de organizar os demais camaradas presos em coletivo que discutam os problemas práticos e orientem a todos no sentido de sustentarem uma posição firme, de manterem um procedimento uniforme frente à polícia, ajudarem os camaradas menos experientes, subsidiarem moralmente os mais fracos, corrigirem fraternalmente os que tenham errado ou vacilado, desmascararem os traidores e provocadores.
Não conversar com a polícia – Digno e firme, sem esquecer por um só momento que está diante do inimigo de classe, o militante comunista não pode admitir nenhuma proximidade nem aceitar favores dos tiras, delegados ou comissários. Qualquer atitude conciliatória será sempre um erro que pode constituir o primeiro passo no caminho perigoso das concessões ao inimigo, que levará inevitavelmente à capitulação e à traição.
Por isso mesmo, o militante comunista não conversa com a polícia, jamais discute política ou aceita debate sobre qualquer problema. Sua atitude é sempre a de um cidadão que protesta contra a violência de que é vítima e que, por isso, responde apenas, de maneira seca e lacônica, às perguntas que lhe foram feitas. Mas, mesmo isto, só deve ser feito no momento da inquirição oficial e à autoridade encarregada do inquérito – delegado ou juiz –, e nunca a qualquer policial no tira que pretende arrancar-lhe confissões.
Não dizer nada sobre a organização – É preceito básico nada dizer sobre a organização. A atividade de cada militante no Partido, célula ou organização a qual pertence ou pertenceu, tudo que sabe sobre o Partido constitui segredo inviolável que seria um crime revelar. Não cabe de forma alguma a cada militante saber o que pode ou não pode ser conhecido por terceiros da organização partidária. Neste terreno, qualquer informação à polícia é sempre prejudicial ao Partido e constitui a pior das traições. Qualquer concessão, por menor que seja, e por mais justificáveis que possam parecer no momento os motivos para serem feitas.
A polícia procura arrancar de cada militante uma informação sobre a organização, porque é desta maneira, pela apreciação crítica das diversas informações obtidas, que seus técnicos podem chegar às conclusões que lhes permitam melhor orientar seus golpes contra o Partido. Ainda disto, visa também a polícia, como já dissemos acima e convém sempre repetir, dobrar a vontade de cada militante, desmoralizar e desagregar toda a organização por meio da desmoralização sistemática de seus quadros, que a polícia tudo faz para reduzir a farrapos humanos e delatores de seus próprios camaradas, a traidores da revolução e renegados do proletariado.
Não acreditar em promessas nem se deixar enganar. Para tanto, a polícia não emprega somente a violência e o terror; não se limita jamais às torturas físicas, que sabe muito bem que, por piores que sejam, não são capazes de dobrar a vontade de um militante digno. A polícia explora todas as fraquezas humanas, excita todos os sentimentos, inclusive os mais vis, recorre a todas as mentiras, a todos os meios, enfim.
É indispensável compreender que toda promessa da polícia é uma armadilha. Não se salva o parente ou o amigo dizendo à polícia o que se sabe. Ao contrário, quem assim proceder, acreditando na promessa da polícia, fornece a esta as provas que ajudarão a condená-lo mais severamente ainda. O militante que entrega à polícia documentos do Partido, ou uma máquina de escrever, um anemógrafo ou qualquer outra coisa que tenha escondido, na esperança de conseguir assim salvar o seu parente ou amigo, engana-se redondamente, porque, na verdade, simplesmente fornece à polícia as provas para condená-lo.
O militante que vacila ou se deixa enganar pela polícia acaba sempre reduzido a um ser vil, a um delator e traidor da classe operária. E muitas vezes, o preso que assim procede agrava mesmo sua própria situação, porque a polícia promete a liberdade em troca de uma indicação útil e, obtida esta, nela baseia o processo contra o “ingênuo” que se deixou lograr.
Para fazer falar os militantes presos, trata a polícia de impressioná-los com o pouco que sabe a fim de tentar convencê-los da futilidade de sua recusa em responder. Ela se faz de muito bem informada, joga com suposições, lança verde para colher maduro, e, desta maneira, consegue muitas vezes confissões que lhe são úteis ou a confirmação daquilo que constituía suposição apenas. Procura impressionar também o preso inexperiente, citando nomes de militantes conhecidos e responsáveis que diz já estarem presos, informa que “fulano já falou tudo, contou tudo, etc.” E pretende dessa maneira abalar a confiança e a firmeza de quem se recusa a falar. Os processos variam, mas o objetivo é sempre o mesmo: enganar para conseguir a capitulação e a traição ao Partido.
Só a recusa total de dizer, seja o que for, pode salvar o militante comunista de cair em armadilhas dessa espécie.
Não falar – Outra arma da polícia é a insistência, a persistência com que procura desencorajar o preso a vencer sua resistência. “Você falará — diz a polícia —, você falará, não há nada a fazer; nós somos como a Igreja, sabemos esperar; se for preciso, você ficará quatro, cinco dias sem comer, e nesse momento você falará”. Outras vezes a polícia tenta jogar o militante contra a direção do Partido, experimenta verificar se há dúvidas ou ressentimentos que possa explorar entre o militante de base e seus dirigentes, diz ao preso comunista que está sendo explorado, que lhe mandam fazer ligações ou distribuir volantes ou pregar cartazes, enquanto os “chefes” não se deixam prender, vivem em segurança e a tripa forra, etc. “É preciso que você seja besta – diz o policial – para se deixar prender, enquanto seus chefes ficam escondidos e não se expõem a nenhum perigo. Diante disso, o militante consciente deve intimamente se sentir orgulhoso de se expor para servir ao seu Partido. O comunista sabe melhor do que ninguém que os dirigentes do seu Partido estão sempre na primeira linha da luta e que a segurança deles é determinada pelo próprio Partido. Que não mereceria este nome senão fosse capaz de poupá-los da sanha do inimigo.
Para fazer falar o preso, a polícia sabe sempre combinar e alternar a violência mais brutal com favores e cuidados de toda espécie. Deixa o acusado por dois ou três dias sem comer para depois adula-lo, oferecer-lhe um almoço, cigarros, para elogiá-lo pela sua coragem e resistência, etc. Faz, por vezes, verdadeiras encenações, isola os presos uns dos outros e utiliza cada palavra dita por um para fazer falar os outros. Para frustrar esses meios, a regra é sempre a mesma: não falar. Ou, senão, quando a situação se torna perigosa devido à fraqueza ou vacilação de algum camarada, o militante revolucionário saberá sempre aproveitar o ensejo para gritar bem alto para ser ouvido pelos demais presos: “Eu não lhe digo nada e não lhe respondo nada!”.
Equivocam-se por completo aqueles camaradas que, para se livrarem das violências a que estão sendo submetidos, se dispõem a adiantar pequenas informações, pensando assim evitar o prosseguimento das violências. Nada conseguirão com essas pequenas concessões, no entanto. Se um militante de um nome, um endereço, uma indicação qualquer porque a polícia lhe bate ou o ameaça com a morte ou de inutilizá-lo com uma pneumonia, por exemplo (por meio do processo do ventilador e luz, ou jogando-o a um cubículo molhado), é quase certo de que daí por diante apanhará mais ainda. Os policiais jamais acreditarão que a confissão é completa e multiplicarão os golpes para conseguir indicações cada vez maiores e mais precisas.
Esta é ainda a regra, a maneira mais acertada de proceder frente a documentos apreendidos pela polícia e sobre os quais se exigem explicações, quer saber a origem ou a precedência. Já constitui um erro deixar o comunista prender-se com documentos comprometedores. Mas, se isto nem sempre é possível evitar, falar sobre tais documentos já pode constituir um crime contra o Partido porque, por mais que diga, a polícia se utiliza, como sempre, de tais confissões para tentar desmoralizar a organização, criando a desconfiança em suas fileiras e liquidando praticamente o militante que falou. O comunista que, ao ser preso, tiver em seu poder documentos ou quaisquer papéis comprometedores, jamais dirá à polícia na sua principal tarefa de desmoralizar e desprestigiar o Partido diante das grandes massas. Como confiar em quem informa o inimigo, seja por que motivo for, da atividade da organização?
De qualquer maneira, é inadmissível que um militante revolucionário fale, cometa um crime contra o seu Partido e a classe operária, sob o pretexto de não resistir aos golpes da polícia. O caminho mais fácil e melhor para defendermos o Partido é o de nada dizer à polícia.
São inúmeros os exemplos de heroísmo nas fileiras do nosso Partido, e não é pequeno o número daqueles que, como os camaradas José Maria e Luiz Bispo, acabaram morrendo nas mãos da polícia sem que esta, apesar de todas as torturas a que os submeteram, conseguisse lhes arrancar uma só palavra sobre a organização partidária em Pernambuco, onde eram dirigentes. Outro exemplo de heroísmo que devemos aqui citar foi o comportamento que tiveram nas mãos da polícia o jovem comunista norte-americano Victor Allan Baron e o jovem argentino-polonês Marcos Yugmann, que em 1936 morreram sob os golpes assassinos da polícia de Vargas-Flinto, porque se negaram a informar onde residia o camarada Prestes, a quem estavam ligados, conforme já sabia a polícia ao prendê-los.
Atitude modelar frente à polícia foi igualmente a assumida pelo camarada Harry Berger (Arthur Ewert), que, submetido às mais terríveis torturas, obrigado inclusive a assistir aos brutais sofrimentos infligidos à sua dedicada companheira, negou-se terminantemente a fazer quaisquer declarações e a assinar qualquer documento da polícia. Sua posição constitui um exemplo de dignidade e firmeza revolucionária altamente educativo, que os comunistas brasileiros seguem e valorizam com vigorosa lição de internacionalismo proletário, de dedicação ao Partido e de confiança inabalável na vitória da classe operária.
Mas citamos ainda como exemplo de comportamento de um militante comunista diante das torturas e da brutalidade policial o depoimento de um companheiro que caiu nas garras da polícia em maio de 1936 e que bem nos mostra o quanto pode resistir um revolucionário fiel ao seu Partido e ao seu povo:
Fui levado imediatamente à Polícia Central e espancado pelos tiras. Recebi alguns murros no peito, nas costas, no rosto e, em seguida, apresentaram-me ao ser. Serafim Braga, delegado da Ordem Social.
O Sr. Serafim Braga mandou-me preceder de imediato a um espancamento inicial, sem mais preâmbulos.
O que se encontrou no meu bolso no momento foram documentos que revelavam para o estrangeiro as atrocidades que se cometiam no Brasil. Nos envelopes não haviam sido inscritos os verdadeiros nomes dos destinatários, porque sabíamos a situação em que se achava reduzido o país, naquelas condições.
O que desejavam saber, em primeiro lugar, era a quem se destinavam as comunicações. Eu não revelava os destinatários, mesmo porque ignorava seus nomes. Devia entregar a correspondência ao cidadão que ia procurar na manhã em que fora preso.
O fato é que fui submetido a esse espancamento inicial, feito por uma turma de investigadores da qual participava um de nome Matos, o único que pude gravar, porque, nesses espancamentos, eles têm o cuidado de não revelar os nomes uns dos outros. Esse investigador é muito conhecido pelos que passaram pela Polícia Central naquela época. De borracha em punho, juntamente com os demais tiras, também colaborou no espancamento.
Fui agarrado pelas pernas e braços e Sr. Serafim mandou que iniciasse pela sola dos pés. Foi-me tirado o calçado. Como, porém, não dei grandes demonstrações de me achar abalado, passaram a espancar-me nos rins. Depois de certo tempo, o próprio Serafim Braga teve seus receios e mandou que suspendessem aquele tratamento. Queria que eu confessasse minhas atividades e dissesse com quem mantinha contato, enfim, o que fazia como militante do Partido Comunista.
Fizeram-me várias perguntas, levando-me, para efeito de intimidação, para uma saleta especial, destinada a espancamentos.
Mais tarde, depois de ter ficado sem comer durante toda a manhã, fui entregue ao Sr. Emilio Romano, delegado da Ordem Política e Social, que havia chegado e assumido o cargo. Fui interrogado com o objetivo de fazer, de qualquer maneira, uma confissão. Queriam que confessasse que estava conspirando, que exercia atividades subversivas, e que o Partido Comunista se destinava a fazer uma revolução e que prosseguiu, portanto, nas suas atividades subversivas, conforme eles informavam.
Sob as ordens de Emilio Romano, passou-se então a uma nova forma de espancamento: eram murros mais ou menos nesta altura da cabeça (indica a região), até que comecei a lançar sangue pelo nariz.
Depois de ter desfalecido, fui ameaçado, no meio das tropelias, gritos e urros dos investigadores, de ser levado para a Polícia Especial, onde teria de sofrer ainda mais, caso não confessasse. Com efeito, cumpriram a ameaça. À noite, fui levado para a Polícia Especial, onde se reuniram no pátio todos os investigadores – os que tinham vindo da Polícia Central e os que já se encontravam no quartel da Polícia Especial, naquele momento sob o comando de Tte. Euzebio de Queiroz, se não me engano, então chefe daquela corporação. Fui colocado numa roda em que pude distinguir o investigador Galvão, conhecido espancador que trabalhava na Polícia Central e na Polícia Especial. No meio deles também se encontrava o investigador ou polícia especial Julien, que, como aliás o próprio Galvão, também era da Polícia Especial, mas trabalhava em permanente contato com a Polícia Central.
As torturas a que fui submetido foram as seguintes: depois de murros, pontapés e outros golpes que me aplicaram, fui queimado por todo o corpo com pontas de cigarros que os próprios investigadores estavam fumando. Além disso, o investigador Galvão tirou seu alfinete de gravata, que enfiou debaixo de minhas unhas, deixando-as em sangue. Reuniram-se todos e, por meio de golpes chamados “chave de braço”, fui levado ao chão várias vezes, o que me produziu um ferimento na testa, como se pode verificar pela cicatriz que apresento.
Na Polícia Especial, o espancamento durou até a madrugada. Cheguei lá mais ou menos às 7 ou 8 horas da noite e só de madrugada suspenderam o que chamavam de “sessão espírita”. Em virtude de ter desfalecido, fui levado para curativos na própria enfermaria da Polícia Especial. Depois desse curativo, com ameaças de ser sarrado e outras mais, fui posto de castigo na chamada Sala Santa Fé, da Polícia Especial. Apesar de estar todo machucado em consequência das surras e torturas, não podia deitar-me nem me sentar. Tinha de ficar passeando no interior da saleta, que, aliás, é pequena. Assim fiquei com as roupas completamente estraçalhadas e ensopadas de sangue; mesmo nessas condições, era obrigado a permanecer de pé. O policial especial de nome Gaúcho, que montava guarda de mosquete em punho, obrigava-me a levantar e marchar, até o momento em que caí exausto.
Depois disso, fui novamente removido para a Polícia Central, onde recomeçaram os espancamentos. O Sr. Emilio Romano deu ordem, diante do fato de que eu procurava reagir aos espancamentos, para que eu fosse algemado. E, assim, com as mãos para trás e deitado de bruços na cama, fui espancado com cano de borracha, que me atingiram nas costas, nádegas e solas dos pés. Em seguida, fui submetido a novo tipo de torturas. Levado à noite para uma sala em completa escuridão, sem saber o que poderia suceder ali e agarrado por mãos invisíveis, fui obrigado a sentar-me numa cadeira. Lançaram então sobre o meu rosto uma lâmpada de grande poder, projetada diretamente sobre os meus olhos, e um investigador que se encontrava do outro lado e que eu não podia ver fazia-me perguntas, a fim de que eu indicasse onde se encontrava a oficina do Partido, a imprensa da “classe operária”, e outras perguntas no sentido de levar avante a provocação que o governo tinha em vista.
Esses espancamentos se deram no dia 1 de maio e, depois de alguns dias para curativos e de novas ameaças, se prolongaram até o dia 23 de maio.”
É a convicção revolucionária, é a consciência do dever cumprido, que podem dar ao militante comunista essa capacidade de resistência às brutalidades policiais.
Não discutir política – As discussões políticas também são comumente provocadas pela polícia que tenta assim ganhar a confiança do preso, levá-lo pela vaidade ou pelo caminho da loquacidade e afirmações e confissões que lhe possam dar novos pontos de partida, para exigir em seguida, pela violência, confissões mais extensas e importantes.
As autoridades policiais procuram arrastar especialmente os quadros mais responsáveis e aqueles companheiros de maior prestígio junto às massas, e tais discussões não só na esperança de que na palestra se revelem novas pistas, como também para fotografá-lo de surpresa, o militante preso em “colóquio amistoso” com a autoridade e tenta criar no meio da massa um natural sentimento de desconfiança. O militante responsável não deve, por isso, aceitar de forma alguma essas “palestras amistosas”, fazendo questão de cortá-las secamente e dispondo-se somente a responder com laconismo às perguntas que lhe forem feitas.
Não temer as ameaças à família – Outro ponto fraco que a polícia não deixa jamais de explorar está numa falsa compreensão do amor à família, muito comum ainda em nosso meio entre os camaradas ideologicamente mais fracos. Já em 1935, quando da onda de terror que se seguiu à derrota da revolução, conseguiu a polícia quebrar a vontade de muitos militantes, fazendo ameaças de perseguições a pessoas de sua família, especialmente a companheiras e filhos.
Sabemos muito bem o que isto significa, mas é claro que um revolucionário deve estar sempre preparado para tais provações. A ternura normal que sente um comunista pela sua mulher e seus filhos não pode, de forma alguma, justificar a traição à classe operária e ao seu Partido. Não nos esqueçamos de como a burguesia zomba da família e mata chefes de família, como William Gomes e Lambari, por exemplo, pelo único crime de serem comunistas e dirigentes queridos do proletariado, deixando ao desamparo, cada um deles, companheira e filhos pequenos.
Os comunistas salvam a família, mas acabam por colocar os interesses da humanidade e do Partido acima de seus próprios interesses.
Eis o que escreve um comunista condenado à morte a seu pai:
“… Para este estado maldito do capitalismo não vejo outra saída senão a apontada pelo meu Partido, e essa saída conduz à libertação econômica e política completa do proletariado e dos trabalhadores. Minha vida foi uma luta, uma luta para impor essa saída. E se a burguesia búlgara entende de condenar-me à morte, isso quer dizer que permaneci filho fiel da minha classe, filho fiel do meu Partido. E isso bastará para vós, para Ilyich (um filho que não chegou a conhecer) e para Mara (sua mulher). Sim, morte; mas Ilyich saberá por que seu pai lutou e caiu nessa luta; saberá que preferiu cair na luta a cobrir-se de vergonha a vos enxovalhar a vós e a esse filho que nunca vi…” (De uma carta do jovem operário búlgaro Jordan Lativodeski, de 8 de maio de 1935, poucos antes de ser executado na prisão de Varna)
Não nos esqueçamos também do grande exemplo de Marx. Poucos homens terão demonstrado tão nobres sentimentos e tão entranhado amor pela família. No entanto, ninguém jamais sacrificou tão conscientemente a própria família a fim de cumprir o seu dever de revolucionário à classe operária, a grande arma teórica que só seu gentio poderia criar. Especialmente no seu exílio de Londres, onde escreveu “O capital”, passou Marx pelas piores privações e chegou a perder três filhos em consequência da miséria em que vivia com a família. Eis o que escreve o próprio Marx, numa de suas cartas a Engels:
“Minha mulher está doente. Jenny está doente. Helena tem uma espécie de febre nervosa. Não pude e não posso chamar o médico porque não tenho dinheiro para comprar os remédios. Há oito dias que minha família só se alimenta de pão e de batatas, e mesmo isso não sei se poderei comprar hoje.”
E noutra carta, em que comunicava a Engels a morte de um filho, confessando ao grande amigo sua dor intensa e dizendo-lhe que só então conheceria a verdadeira infelicidade, escrevia também estas nobres palavras que bem demonstram a alta consciência que possui do seu dever revolucionário:
“No meio dos horríveis sofrimentos por que passei nestes dias, o que sempre me sustentou foi pensar em ti e na tua amizade e dizer a mim mesmo que temos, nós dois, de realizar ainda uma obra inteligente sobre esta terra.”
A “obra inteligente” era a grande arma teórica do proletariado, a arma que, manejada por Lênin e Stálin, já permitiu à classe operária enterrar o capitalismo numa boa parte do mundo e construir a grande sociedade socialista, em marcha vitoriosa para o comunismo.
O militante comunista utiliza seu amor e dedicação à família para prepará-la para todas as provações, a fim de que seja sempre uma família digna de seu chefe, que participe unida da luta contra o inimigo de classe e que o oponha com firmeza em quaisquer circunstâncias, sentindo-se todos os pais, mulher e filhos – orgulhosos das perseguições e torturas que lhe sejam infligidas pelos cães da reação capitalista.
De qualquer maneira, o militante comunista jamais se surpreenderá com as ameaças que os bandidos policiais possam fazer às pessoas de sua família, nem modificará frente a elas, num milímetro sequer, a sua linha de conduta já previamente traçada de combatente consciente da grande causa do proletariado.