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Depois de Bangu, Gericinó (Igor Mendes)

Após a saída do presídio, em 25 de junho de 2015, sete meses depois da minha detenção, algumas vezes eu senti vontade de voltar ao lugar em que passei um período tão crítico da minha vida. Talvez pela mesma curiosidade que me levou a registrar em folhas de papel higiênico os companheiros de infortúnio com quem convivia nas galerias (quando a administração me mantinha em isolamento, sem acesso nem sequer a livros ou a papel e caneta), eu queria saber como é a vida no entorno daquele porão desolado de nossa sociedade. Preso, escoltado, cabeça-baixa-mão-para-trás, não se pode dizer que formei uma visão nítida de Gericinó. Em um domingo, precisando reunir material para minha monografia, acordei cedo e fiz a viagem para o submundo, desta vez sem algemas e com a cabeça bem erguida.   

 

Da Central para o submundo

A essa altura, o movimento mais numeroso em direção ao presídio já passou. Suponho que o fluxo principal das visitações não parta da Central, mas de lugares mais remotos da Baixada Fluminense ou da zona oeste. Além disso, no coração da metrópole, o público de visitantes da prisão é engolido pela massa heterogênea que se desloca para o trabalho ou o almoço em família. Mas, pelo dia e horário, é certo que eles estão aqui. Avisto uma mulher jovem com sacolas de mercado pesadas e chinelos, entrando no vagão. Será?  

Uma hora depois, desço na velha estação do bairro proletário de Bangu. De um lado, o shopping no terreno do que outrora foi uma fábrica; de outro lado, imponente, o maciço Gericinó-Mendanha, que vigia a cidade como um guarda vigia os presos do alto dos muros. Para minha sorte, no instante em que saio da estação, o ônibus 812, que faz a linha Bangu-Carobinha (via presídio), estaciona na calçada. É um dos dois ônibus que passam no presídio – o outro é o 811, Bangu-presídio, mas ouço dizer que ele não circula aos domingos. Há muitas vans também, sobretudo nos primeiros horários da manhã, e, entre três e cinco da tarde, os ônibus não dão conta do fluxo intenso. Nestes dias, o Complexo chega a dobrar de tamanho, abrigando uma população de cerca de cinquenta mil pessoas. Subo os degraus do ônibus e, logo atrás de mim, vem, esbaforida, a mulher jovem com sacolas de mercado pesadas e chinelos. 

Dentro do ônibus, a lógica se inverte, e os invisíveis de há pouco constituem toda a paisagem. Estranhos são aqueles que parecem não se deslocar à prisão. As mulheres são a esmagadora maioria, e elas carregam a vida dos seus na ponta dos dedos. 

 

Impressões do entorno dos muros

O ônibus contorna a praça desolada da Vila Kennedy, comunidade muito pobre situada às margens da Avenida Brasil, e entra na Estrada Guandu do Sena. Meu coração palpita: estamos em Gericinó. Dois mundos estranhos, e mesmo hostis, se encaram: de um lado da rua, casinhas baixas, típicas da zona oeste do Rio. Um subúrbio antigo, com reminiscências de vida rural, o asfalto virando lama em alguns pontos. De outro lado, muros espessos, muito altos: Educandário Santo Expedito, Sanatório Penal, Hospital Penal, 14.º Batalhão da PM. Mais discreta, porque ao final de um recuo na rua, a Penitenciária Feminina Talavera Bruce, onde não há filas para visitação. Por detrás dos prédios, e dos terrenos baldios depois deles, uma vegetação abundante, cuja liberdade parece tornar ainda mais sem esperança o confinamento que a observa.

Embora a imprensa e o senso comum ainda se refiram ao complexo prisional como “Bangu”, não se trata de um único presídio, mas de cerca de vinte e cinco unidades prisionais, tanto de regime aberto como semiaberto. Além disso, desde 2004, este pedaço de Bangu foi desmembrado e passou a constituir um bairro específico, chamado Gericinó. Segundo depoimento de um morador do novo bairro:

“Moro aqui há mais de 30 anos, e sabemos que os moradores de Bangu não aceitavam conviver no mesmo bairro da localização de presídios, aterro sanitário e campo de instrução. Me sinto com os moradores da África do Sul na época de Líder Mandela; isso significa que vivemos um verdadeiro APARTHEID pelos moradores, sem contar que hoje nada que venha melhorar nossa vida acontece aqui no bairro, ou seja, o Gericinó para ele é lugar daquilo que não presta.”¹

Em 2005, inclusive, a Assembleia Legislativa do Estado do Rio aprovou a alteração do nome dos presídios para “Gericinó 1”, “Gericinó 2”, etc., mas a lei parece não ter pegado… Mas essa discussão dá conta do estigma brutal que se abate sobre os desgraçados que cruzam os portões de ferro, ao ponto de se estender sobre os familiares e mesmo sobre o ar dos lugares onde se instalam. 

No entanto, engana-se quem pensa que tudo por aqui é deserto cinza-azul-desbotado. O fluxo do presídio alimenta o comércio, anima a bucólica vida dos moradores não-compulsórios do lugar. Apesar da segregação, entre o dentro e o fora há infinitudes daquilo que Rafael Godoi chamou tão perspicazmente de “vasos comunicantes”². Além das vendinhas, há pensões, dormitórios, guarda-volumes e aluguel de roupas para visitas. Um letreiro luminoso se destaca: “Artigos de Moda”, porque às mulheres não basta a sina de acompanhar seus namorados e maridos, fazer comida, levantar cedo, encarar as revistas; elas ainda mantêm a obrigação de chegarem bonitas ao seu destino. Algumas levam edredons e roupas de cama para a visita íntima, porque, mesmo aqui, a humanidade reclama algo mais do que apenas as necessidades básicas. A prisão forma um verdadeiro ecossistema, impessoal e implacável, cujos limites, no entanto, são forçados pela criatividade e persistência dos que devem habitá-lo.

Nas paredes de uma escola pública, vejo um grafite em que um garoto em cima de um skate questiona: “Racismo – Opressão – Violência. Até quando?” Os muros da escola estão sujos e desgastados em alguns pontos, ao contrário dos altos muros conscienciosamente pintados em tom hostil do lado de lá.

Cancela

Sento-me em um restaurante vazio, em frente à cancela do complexo prisional. Jamais estive aqui depois daquele tempo, e as impressões me bombardeiam com violência. Até o meio-dia, as pessoas ainda entram para a visitação, mas o grosso delas chega de manhã bem cedo. Por enquanto, e até às quatro da tarde, quando o formigueiro humano sair das masmorras, o tempo parece parado por aqui. 

Bebo meu café com a Rádio Melodia ao fundo, uma estação antiga que, na minha infância, reproduzia os sucessos do momento e atualmente é dedicada a músicas gospel. “O mundo pode até fazer você chorar, mas Deus te quer sorrindo”. O refrão gruda como chiclete em nossas cabeças. Do lado de lá, neste exato momento, nos pátios de visitação lotados, é possível que esta mesma música esteja sendo cantada à capela, durante a oração que sempre ocorre nestas ocasiões. Também é provável que algum infeliz, sem ninguém que o visite, cantarole o hino para si mesmo em cima da sua comarca, para suportar este dia tão difícil. 

Daqui, vejo a guarida encimada pelo símbolo desbotado da Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (SEAP). Em letras garrafais, lê-se a palavra “RESSOCIALIZAÇÃO”. Uma piada sem graça, uma vez que é a própria sociedade que precisa ser ressocializada. A cadeia é apenas castigo, suplício sem sangue, embora com frequência corra sangue também. Três guardas vestidos de preto batem papo. Há pouco, dois veículos passaram pela cancela, após uma rápida inspeção dos agentes: um furgão, onde havia pacotes de pães, e uma pequena caminhonete carregando sacos de gelo. Agora mesmo, passou um carro blindado usado no traslado de presos. Parece um carro-forte, sem nenhuma abertura, com um sistema de ventilação interno que, com grande frequência, é mantido desligado para “massacrar” a carga humana que carrega, como se fossem bichos. Como o Fórum não funciona dia de domingo, trata-se de uma transferência: alguém chegará ou sairá de Bangu, não para a liberdade, mas para prosseguir o seu calvário. Este veículo não precisa ser inspecionado, mas, na entrada da cancela, existem cones e barras de ferro, de modo que ele diminui sua velocidade. Lembro-me das tantas vezes em que, sendo apenas mais um desgraçado na escuridão do lado de dentro, meu coração palpitava quando percebia esta manobra: assaltava-me uma estranha sensação de voltar ao túmulo, em plena vida.

     Do lado esquerdo da cancela, há uma área coberta para as visitantes – “as” é aqui o mais adequado mesmo, visto que elas são a imensa maioria. Agora, esta área também está vazia, mas o chão cheio de papéis e lama denuncia intenso movimento das primeiras horas da manhã, quando são quilométricas as filas para entrar nas cadeias.

Antes de vir até o restaurante, eu fiquei sentado ali. Pequenas cotidianices me chamaram a atenção: uma mulher passava um bolo de chocolate para uma embalagem de saco plástico transparente, com cuidado meticuloso para que ele não se desmanchasse; algumas desafortunadas voltam lá de dentro com as sacolas de compras cheias e o olhar desanimado: foram barradas na entrada do presídio para onde se dirigiram. Isso pode se dar por vários motivos, desde o mau humor de um guarda (razões para implicar com qualquer detalhe das roupas não faltam, pois há quase uma regra para cada presídio, ou mesmo para cada plantão de guardas) até a transferência ou castigo do preso. Uma jovem, com belos cabelos crespos, veste uma camiseta preta da cor da sua pele, onde está escrito com letras brancas: “A vida é um boleto depois do outro”. Uma idosa com sulcos profundos fincados no rosto me entrega um panfleto com a imagem de Jesus Cristo. Além dos guardas, esta é a única instituição presente aqui, o que explica muitas coisas do Brasil contemporâneo.

Ao lado da entrada do complexo prisional, fica o “Mercadinho da Cancela”. Na entrada do estabelecimento, vê-se, numa prateleira, muitas camisetas brancas e o anúncio: “Roupas para custódia”. Imagine que você, que lê estas linhas, entrasse num mercado em outra área da cidade e visse isso. Provavelmente, não entenderia nada, ou perguntaria para um funcionário ou cliente: ‘O que é isso?’. Lá, não é necessária nenhuma explicação: entende-se que “custódia” é como agentes ou presos designam tudo de fora que entra na cadeia, como roupas, kits de higiene pessoal, limpeza etc. A maior parte destes itens, aliás, não entram com a visita, havendo um dia específico para serem despachados (mais uma despesa nos orçamentos magros). No dia da visita, entra apenas “sucata”, ou seja, comida e itens de consumo rápido. Também carece de explicação a abundância de sacos e recipientes de plástico transparentes, ou de chinelos brancos, ou de envelopes para cartas. São os códigos do lugar, as suas regras, sua cultura, considerados tão estáveis quanto o maciço lá atrás, embora resultem de um processo histórico muito específico, que remonta a outros cativos e cativeiros originais.

 

Para além da estação

O ônibus 812, agora no sentido Bangu, parou em frente ao bar. “O próximo vai demorar, e já é quase meio-dia”, minha mente gritou. Dei um pulo da cadeira, com o caderno e a caneta ainda na mão, onde tomava notas por uma necessidade quase física, e corri para pegar o ônibus. Só depois, quando já estava sentado, me dei conta de que, num certo sentido, eu fugi dali. No shopping suburbano – onde me sento para aliviar a fome e as ideias –, as lojas, a praça de alimentação e o ambiente impecavelmente limpo me causam estranheza. Experimento uma sensação parecida com a que sinto quando saio de uma manifestação ou da visita a alguma favela: é como se eu visse um mundo que as pessoas ao meu redor parecem não enxergar. A cada vez, é uma ingenuidade mais que se perde. Quantas destas pessoas, vestidas em roupas de domingo, passeando em casais ou com seus filhos, conhecem a realidade daquele estranho mundo para além da estação? Quais aqui foram presos, visitaram algum preso, sofreram por algum preso? Não há como saber, exceto que, pela hipertrofia do sistema carcerário e dos múltiplos tentáculos do punitivismo, estas pessoas estão em quase todos os lugares, embora, decerto, mais raramente nas zonas ricas da cidade. Questão de espaço, esta é também uma questão de tempo: quantos meninos (e, cada vez mais, meninas) que hoje soltam pipas cheios de esperança, pensando em ser médicos ou jogadores de futebol, acabarão encerrados nos calabouços modernos? Em que momento eles e elas se dão conta de que a vida separa os que podem sonhar e os que devem se contentar com a apatia ou então o pesadelo? Se nada acontecer, este ciclo atroz seguirá moendo gente. 

A condenação não acaba quando se atravessam os muros: ela se prolonga no preconceito, que alimenta os elevados índices de reincidência; nos traumas; nos laços desfeitos. A questão não é reformar o sistema penitenciário, pois ele é irreformável. O que devemos fazer com urgência é abolir uma ordem que precisa de mais e mais presídios.


 

¹ http://jornaltribunario.blogspot.com/2011/11/bairro-gericino-uma-triste-realidade.html, acessado em 23/07/2026, às 11h25.

² Rafael Godoi. “Fluxos em cadeia – as prisões em São Paulo na virada dos tempos”, ed. Boitempo, 2017.