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Uma sobrevivente das ruas, do crack e do cárcere — Entre Grades e Ausências (Helen Baum)

Eu não lembro exatamente qual foi o pior dia da prisão. Muita gente imagina que tenha sido o dia em que fui presa, ou alguma situação violenta dentro da cadeia. Mas a verdade é que o pior dia da minha vida aconteceu antes de eu passar por qualquer portão de ferro.

O pior dia foi quando perdi meu filho.

Naquela época, eu cursava Direito, trabalhava e acreditava que ainda tinha algum controle sobre a minha vida. Eu usava cocaína de forma esporádica havia anos e achava que sabia até onde podia ir. Mas as perdas foram se acumulando silenciosamente. Quando conheci o crack, a queda foi rápida.

Minha mãe descobriu meu uso de drogas, conseguiu a guarda do meu filho e me expulsou de casa. Eu tinha quase quarenta anos e, de um dia para o outro, deixei de ser mãe em tempo integral, deixei de ter um lar e perdi qualquer perspectiva de futuro. Durante muito tempo achei que a dor maior tinha sido a dependência química. Hoje sei que não. A maior dor foi a separação do meu filho.

Quando uma mulher perde o direito de conviver com seu filho, perde também uma parte importante de si mesma. Eu não sabia explicar isso na época. Só sentia um vazio enorme. Nada mais fazia sentido. Foi assim que fui parar nas ruas do centro de São Paulo.

As pessoas costumam falar da Cracolândia como se fosse um lugar habitado apenas por criminosos ou pessoas sem caráter. Eu encontrei outra realidade. Encontrei gente profundamente machucada, carregando histórias de violência, pobreza, racismo e abandono muito antes de conhecer qualquer droga. Pela primeira vez em muito tempo, eu estava entre pessoas que não me perguntavam o que tinha dado errado na minha vida. Com o tempo, aprendi a sobreviver naquele território e também aprendi que, para uma mulher sozinha na rua, a sensação de perigo nunca desaparece completamente.

Ainda assim, eu tinha uma coisa que perderia depois: o direito de ir e vir.

Em outubro de 2013, a polícia invadiu a pensão onde eu estava. Eu me lembro exatamente do que fazia naquele momento: raspava um cachimbo para fumar a borra que havia sobrado. Não tinha dinheiro para comprar uma pedra. Estava no fundo do poço.

Quando os policiais entraram, o pânico tomou conta de todo mundo. Depois encontraram uma quantidade de drogas escondida no telhado. Eu sabia que aquela droga não era minha, mas também sabia que ninguém estava interessado em descobrir de quem era. Naquele dia, deixei de ser apenas uma mulher em situação de rua e dependente de crack. Passei a ser mais um número do sistema prisional.

Hoje, olhando para trás, percebo que aquela prisão diz muito sobre a forma como o sistema penal funciona. Os grandes traficantes não frequentavam aquele lugar. Quem estava ali eram pessoas em situação de extrema vulnerabilidade, muitas delas consumidas pela dependência química, pela pobreza e pelo abandono. O Estado precisava apresentar resultados, e nós éramos os corpos disponíveis para serem transformados em estatística.

Passei alguns dias na delegacia e depois fui enviada para o Centro de Detenção Provisória Feminino de Franco da Rocha. Eu nunca tinha ouvido falar daquele lugar. Durante o trajeto, lembro de tentar olhar pelas pequenas frestas do bonde para decorar caminhos, placas e referências. Hoje percebo que era uma tentativa desesperada de manter algum controle sobre a situação. Eu não sabia para onde estava indo e muito menos quem eu seria quando chegasse lá.

Quando os portões da prisão apareceram, senti um medo diferente de tudo que já havia experimentado. Nas ruas, eu tinha passado fome, frio, violência e dependência química. Mas ainda podia escolher para onde ir. Naquele momento, compreendi que perderia até isso.

O mais assustador não era a grade. Era perceber que minha vida tinha deixado de me pertencer. Outras pessoas decidiriam quando eu acordaria, quando eu comeria, quando poderia sair para o banho de sol e até quando teria notícias do mundo. Minha existência passava a ser administrada por uma instituição construída para controlar corpos.

Quando entrei no convívio, percebi rapidamente que nada do que eu conhecia me preparava para aquele lugar. A prisão tem seu próprio idioma, suas próprias regras e suas próprias hierarquias. Quem não aprende essas regras corre riscos.

Cheguei a fazer um pequeno dicionário com palavras e expressões que nunca tinha ouvido antes. Era uma forma de tentar compreender aquele universo. Mas a adaptação não acontecia apenas por meio da linguagem. Existia uma disciplina construída pelas próprias mulheres presas: uma ética de convivência, formas de respeito e regras não escritas.

Eu vinha da universidade e dos livros de Direito. De repente, me vi diante de outro sistema normativo, criado por mulheres que precisavam encontrar maneiras de sobreviver em um ambiente marcado pela superlotação, pela escassez e pela violência institucional. Foi uma das maiores lições que a prisão me deu. Aprendi que pessoas submetidas às piores condições ainda encontram formas de criar solidariedade.

A abstinência do crack tornou meus primeiros meses quase insuportáveis. Muitas pessoas acreditam que a prisão afasta alguém das drogas. Eu vivi outra realidade. O corpo continua dependente mesmo quando a substância desaparece. Eu sentia dores constantes, ansiedade, irritação e desespero. Havia dias em que eu não conseguia organizar os pensamentos. Em outros, tinha vontade de gritar sem motivo.

Foi nesse período que me envolvi em diversas confusões. Hoje consigo entender que estava adoecida. Na época, porém, eu era vista apenas como uma pessoa problemática. A prisão não foi feita para compreender sofrimento. Foi feita para punir.

Ao mesmo tempo, encontrei mulheres que me ajudaram a continuar de pé. Mulheres que me ensinaram a esperar a crise passar. Mulheres que dividiam palavras de incentivo quando eu acreditava que não conseguiria suportar mais um dia. Na prisão encontrei muita violência, mas também encontrei humanidade onde menos esperava encontrá-la.

Foi também naquele período que comecei a perceber algo que me incomodava profundamente. Por causa das crises de abstinência e das confusões em que me envolvia, passei a ser levada periodicamente ao Hospital Penitenciário, em Santana, para atendimento relacionado à dependência química. Na época, eu não tinha clareza sobre o que aquilo significava. Estava preocupada demais em sobreviver um dia de cada vez.

Com o passar do tempo, comecei a observar as mulheres ao meu redor. Muitas enfrentavam problemas semelhantes aos meus. Também sofriam com a dependência química, apresentavam sinais de sofrimento emocional e precisavam de atendimento. Mas nem todas recebiam o mesmo encaminhamento.

Foi dentro da prisão que compreendi, de forma concreta, aquilo que muitas vezes aparece apenas como estatística: o racismo estrutura o sistema prisional. Mesmo atravessada pela mesma violência institucional, eu percebia que existiam diferenças de tratamento. A maioria das mulheres ao meu redor era negra. Muitas eram mais jovens do que eu. Outras haviam sido presas pela primeira vez. Quase todas carregavam histórias marcadas pela pobreza, pela exclusão e pela falta de oportunidades.

A prisão não criava essas desigualdades. Ela aprofundava desigualdades que já existiam muito antes dos muros.

Enquanto isso, os dias continuavam passando. Na prisão, o tempo não corre. O tempo pesa. Cada dia parece maior do que realmente é. As horas se arrastam, os meses se confundem e, às vezes, eu tinha dificuldade para lembrar se determinado acontecimento havia ocorrido na semana anterior ou meses antes.

Tudo parecia suspenso, menos a vida do lado de fora. Essa continuava avançando. E era justamente isso que mais doía.

Eu pensava constantemente no meu filho. Tentava imaginar como ele estava, se tinha crescido, se ainda gostava das mesmas coisas, se falava de mim, se sentia raiva ou saudade. A

prisão tem muitas formas de tortura. Uma delas é a imaginação. Você tenta preencher vazios que ninguém consegue responder. Cria histórias inteiras dentro da cabeça, reconstrói cenas, inventa diálogos e aprende a conviver com a ausência de respostas.

Meu filho crescia e eu permanecia presa. Ele se aproximava da vida adulta enquanto eu seguia suportando grades, portões e cadeados.

Foram, aproximadamente, três anos de prisão. Primeiro em Franco da Rocha. Depois no Centro de Progressão Penitenciária Feminino do Butantã. A transferência foi um choque. Muitas pessoas imaginam que mudar de unidade é um alívio. Para mim, foi como começar tudo novamente.

Cada prisão tem suas próprias regras, suas próprias lideranças e sua própria dinâmica. Quando finalmente aprendíamos a sobreviver em um lugar, éramos obrigadas a recomeçar em outro.

Cheguei ao Butantã sem saber onde dormir. As celas estavam lotadas. Faltavam camas, espaço e privacidade. Na prisão, a superlotação faz com que até as necessidades mais simples se transformem em desafios diários. Tomar banho, dormir, guardar pertences ou ter alguns minutos de silêncio: tudo se torna disputado, tudo se torna escasso.

A prisão não retira apenas a liberdade. Ela retira também o espaço, a individualidade e, muitas vezes, a dignidade.

Foi no semiaberto que comecei a ter saídas temporárias. Junto com elas, nasceu uma esperança que eu já acreditava ter perdido. Eu precisava reencontrar meu filho. Não para justificar meus erros, nem para pedir que ele esquecesse o passado, mas para dizer que eu continuava viva. E que continuava sendo sua mãe.

Durante muito tempo tive medo desse encontro. Medo de que ele não quisesse me ver. Medo de encontrar um estranho. Medo de descobrir que eu já não ocupava lugar algum na vida dele. Passei anos me preparando para uma conversa que nem sabia se aconteceria.

Quando finalmente nos reencontramos, percebi que algumas coisas conseguem sobreviver até mesmo à prisão. O amor era uma delas.

Meu filho me acolheu. Não porque tudo estivesse resolvido, nem porque as feridas tivessem desaparecido, mas porque ainda existia amor entre nós. E foi esse amor que começou a reconstruir aquilo que a prisão havia destruído.

Com o passar do tempo, compreendi que a prisão não havia encarcerado apenas a mim. Meu filho também cumpriu uma pena que nunca apareceu em nenhum processo, que nenhum juiz determinou e que não tinha prazo para terminar.

Enquanto eu contava os dias para sair, ele aprendia a viver sem a mãe. Eu perdi os aniversários, as conversas, as descobertas e os momentos importantes da sua adolescência.

Não acompanhei de perto as transformações daquela fase da vida nem estive presente quando ele precisou de mim.

Mas a prisão também deixou marcas nele. Meu filho precisou lidar com a ausência da mãe, com perguntas que eu não estava presente para responder e com julgamentos que, embora não fossem dirigidos a ele, inevitavelmente o alcançavam. Carregou o peso de uma história que não escolheu viver e conviveu com o estigma do encarceramento sem ter cometido crime algum.

Foi só anos depois que compreendi que a prisão não afeta apenas quem está atrás das grades. Ela atravessa famílias inteiras. Quando uma mulher é presa, raramente é apenas ela que atravessa os muros da prisão.

Quando finalmente conquistei a liberdade, imaginei que a parte mais difícil da minha vida havia terminado. Eu estava enganada.

As pessoas costumam imaginar que o dia da soltura é um momento de felicidade absoluta. Claro que existe alegria, alívio e a emoção de atravessar o portão pela última vez. Mas existe também medo. Muito medo. Depois de anos vivendo em um ambiente onde tudo é controlado, eu já não sabia exatamente como ocupar o mundo lá fora.

Saí da prisão carregando poucos pertences, mas carregava também marcas que não cabiam em nenhuma bolsa. Saí sem trabalho, sem estabilidade financeira, tentando reconstruir vínculos familiares, reaprender a viver, permanecer longe das drogas e descobrir quem eu era depois de tudo aquilo.

Pouco tempo depois da minha saída, minha mãe faleceu. A mulher que havia conseguido a guarda do meu filho. A mesma mulher que, mais tarde, passou a me visitar na prisão. A mesma mulher com quem eu tinha uma relação atravessada por dores, conflitos e afetos difíceis de explicar.

Sua morte me deixou sem a possibilidade de resolver muitas coisas. Há perguntas que nunca mais poderão ser feitas. Há respostas que nunca mais virão. Foi mais um luto que precisei aprender a carregar.

Também precisei enfrentar outro desafio: o preconceito. Muitas pessoas acreditam que a pena termina quando a pessoa deixa a prisão. Não termina. Ela continua nos formulários de emprego, nas entrevistas de trabalho, nos olhares desconfiados e nas portas que se fecham sem explicação.

Existe uma espécie de cárcere invisível reservado às pessoas egressas do sistema prisional. Um cárcere construído pelo estigma. Durante muito tempo senti que a sociedade aceitava mais facilmente uma pessoa presa do que uma pessoa que sobreviveu à prisão. Porque a pessoa presa está distante, escondida atrás dos muros. A pessoa egressa, não. Ela está ali, lembrando que o encarceramento produz consequências que não desaparecem com a liberdade.

Foi nesse período que comecei a compreender que minha sobrevivência precisava ter um sentido maior. Eu poderia passar o resto da vida tentando esquecer. Muitas pessoas fazem isso, e eu entendo perfeitamente. Existem dores que parecem grandes demais para serem revisitadas.

Mas, no meu caso, aconteceu o contrário. Percebi que contar a minha história era uma forma de impedir que outras histórias continuassem invisíveis.

Aproximadamente cinco anos após deixar a prisão, voltei para São Paulo para integrar o Núcleo Memórias Carandiru. Foi uma decisão que transformou minha vida. Durante anos eu havia tentado sobreviver ao passado. Agora eu passava a dialogar com ele.

Passei a trabalhar com memória, educação e direitos humanos. Passei a falar publicamente sobre o encarceramento feminino, sobre maternidade e prisão, sobre dependência química e sobre os impactos do cárcere na vida das mulheres e de suas famílias.

Durante muito tempo senti vergonha da minha trajetória. Hoje não sinto mais. Não porque a dor tenha desaparecido, nem porque as feridas tenham cicatrizado completamente, mas porque compreendi que minha história não me diminui. Ela explica quem eu sou.

Sou sobrevivente das ruas, do crack e do cárcere, mas não quero ser lembrada apenas pela sobrevivência. Quero ser lembrada pela luta, pela capacidade de transformar uma experiência de destruição em ferramenta de denúncia, memória e resistência.

Muitas pessoas me perguntam por que continuo falando da prisão. Por que continuo voltando a esse assunto? Por que não sigo em frente? A resposta é simples: porque a prisão continua acontecendo.

Porque outras mulheres continuam sendo separadas de seus filhos. Porque outras mães continuam entrando em celas, acreditando que suas vidas acabaram. Porque milhares de mulheres continuam vivendo histórias parecidas com a minha.

Eu não conto minha história porque gosto de lembrar. Eu conto porque esquecer também é uma forma de violência.

Durante anos o sistema tentou me transformar em um número. Tentou me convencer de que eu era apenas uma presa, uma ex-presidiária, uma dependente química, uma fracassada. Mas eu sobrevivi. E sobreviver também é uma forma de testemunho.

Hoje sei que não sou apenas aquilo que fizeram comigo. Sou também aquilo que consegui construir depois. Sou mãe, pesquisadora, educadora social, militante e sobrevivente. Continuo falando porque ainda existem muitas mulheres cujas vozes permanecem trancadas atrás das grades.

Escrevo por elas, mas também escrevo por aquela mulher que, um dia, entrou assustada em uma prisão sem imaginar que conseguiria sair viva.

Se hoje posso contar esta história, é porque muitas mulheres me ajudaram a permanecer de pé quando eu acreditava que não conseguiria continuar. Carrego cada uma delas comigo. E, enquanto eu tiver voz, elas também continuarão sendo lembradas.


 

Helen Baum é sobrevivente das ruas, do crack e do cárcere. Mãe solo, bacharela em Direito e mestranda em Ciências Humanas e Sociais pela Universidade Federal do ABC (UFABC), atua na defesa dos direitos de pessoas presas, egressas e familiares. É educadora social do Núcleo Memórias Carandiru, onde desenvolve ações de memória, verdade e justiça sobre o sistema prisional brasileiro, e pesquisadora do programa Justiça sem Muros, do Instituto Terra, Trabalho e Cidadania (ITTC). Sua trajetória de pesquisa e militância é dedicada à denúncia dos impactos do encarceramento feminino e das violações de direitos vivenciadas por mulheres presas e egressas, com especial atenção às maternidades atravessadas pelo cárcere.