“Foi com a intenção de fugir da prisão que eu entrei para as aulas de teatro” (Edson Sodré)
Meu nome é Edson Sodré. Tenho 64 anos. Em 1993, eu fui preso e condenado a 108 anos de prisão por envolvimento em diversos crimes. Em todas as cadeias que eu chegava, o meu objetivo era sempre fugir. Após várias tentativas de fuga, eu fui transferido para a penitenciária Lemos de Brito, no centro do Rio de Janeiro. Lá chegando, eu encontrei o Wilson Camburão, um velho bandido que me deu algumas dicas para possíveis fugas. Ele me falou de uma fuga cinematográfica, no duplo sentido da palavra. Durante a exibição de um filme, um famoso assaltante de bancos, chamado Mimoso, fugiu por uma manilha de esgoto que passava por baixo do palco do teatro e do cinema daquela penitenciária. E foi com a intenção de fugir por aquela manilha que eu entrei para as aulas de teatro do Projeto Teatro na Prisão da UNIRIO.
Por motivos que iriam prolongar muito essa narrativa, eu resolvi fugir por outro lugar, onde a manilha era mais acessível. Como a manilha era estreita, eu tinha que me arrastar de barriga para cima, mantendo apenas o rosto para fora daquela água imunda. Eis que, de repente, eu senti alguma coisa me atrapalhando. Pensei que fosse uma pedra, mas, quando eu peguei, senti que era um crânio humano. Por um momento eu fiquei lá, me sentindo o príncipe da Dinamarca! Ser ou não ser. Eis a questão? Após essa breve reflexão, eu continuei me arrastando pela manilha, até que senti a cordinha que estava amarrada na minha canela sendo puxada com força. Era um sinal de que alguma coisa dera errado. Felizmente, eu consegui sair antes que os guardas chegassem e jogassem bombas de gás dentro da manilha.
Após ser espancado e passar um mês no castigo, voltei para as aulas de teatro e participei de diversas peças, voltei a estudar, adquiri o hábito de leitura e virei um rato de biblioteca daquela penitenciária. Um dia após a apresentação de uma peça, o Wilson Camburão me disse: “Capixaba! Se você continuar nesse caminho, um dia você terá a oportunidade de se apresentar lá fora”. Eu pensei: o Wilson está há muito tempo preso e está ficando maluco! Mas segui caminhando; e toda vez que alguém vinha me chamar para fugir, eu dizia que já estava envolvido num plano com outro preso: afinal, não ficaria bem, eu, um preso condenado a 108 anos de prisão, dizer que não queria mais fugir.
Depois de cumprir vinte e um anos, consegui progressão de pena para o regime semiaberto, passei no Enem e entrei para a Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Atualmente sou um ator e professor, que semanalmente entra nas prisões e unidades socioeducativas do Degase (Departamento Geral de Ações Socioeducativas) para apresentar peças e dar aulas de teatro. E tenho certeza de que, se o velho Wilson camburão estivesse aqui, ele concordaria que minha fuga foi mais cinematográfica do que a do Mimoso, pois ele fugiu por baixo do palco e eu fugi por cima e, conforme ele previu, estou aqui diante de vocês.
Edson Sodré é a primeira pessoa presa a concluir um curso de Artes Cênicas no Brasil. Após cumprir uma pena de 34 anos de prisão (em uma condenação de 108), Sodré conheceu o projeto de Teatro nas Prisões da Unirio e passou de bandido de alta periculosidade a professor de Teatro. Defendeu recentemente seu Trabalho de Conclusão de Curso, no qual lida com suas memórias do cárcere.