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Por respeito à memória das vítimas, não ficarei em pé durante a sirene do Dia da Memória do Holocausto (Orly Noy)

Este ano, pela primeira vez desde que imigrei para Israel aos nove anos, não ficarei em pé durante o toque de sirene no Dia da Memória do Holocausto.1  Por respeito à memória das vítimas da mais terrível catástrofe da história do povo judeu, recuso-me a tomar parte nas tradições e cerimônias de memória estatais, dado que o próprio Estado se transformou num reino da morte, cuja essência é a profanação da memória das vítimas. Este ano não participarei mais.

Já faz anos que não fico em pé durante o toque da outra sirene, no Dia da Memória (dos soldados caídos durante as guerras de Israel). Não por desafio nem por exibicionismo; eu me certifico de não estar em espaço público durante o horário da sirene, para não tomar parte num dos infinitos espetáculos do culto à morte e ao luto, e do militarismo doentio do qual este país sofre de forma tão grave. As canções do Dia da Memória não despertam em mim nada além de profunda ansiedade e alienação. A adoração à morte e aos mortos de farda me apavora.

Mas o Dia do Holocausto sempre foi diferente. A própria humanidade, eu sentia, curva a cabeça de vergonha neste dia, e a sirene é o som do seu grito. Este é um dia que carrega o peso, quase tangível, de uma grande e terrível responsabilidade que recai sobre nós. Sobre todos nós.

Por muitos anos, vi como o Estado de Israel acolhe em seu seio, antissemitas e criminosos de guerra, os hospeda no museu Yad Vashem e imediatamente depois fecha com eles lucrativos acordos de armas. E no mesmo fôlego, também branda o Holocausto para silenciar, com brutalidade, qualquer crítica aos seus crimes. Compreendi bem que a memória do Holocausto, para Israel, nada mais é do que uma ferramenta manipuladora que lhe permite exigir imunidade ilimitada.

Apesar disso, na minha consciência, o Dia da Memória do Holocausto estava desconectado de todas essas manipulações. Talvez porque respondesse à necessidade emocional de fazer parte da dor coletiva, nem que fosse por um dia no ano; e talvez porque seja difícil para uma pessoa lidar individualmente com uma atrocidade tão grande, e ela precise de rituais que formulem e lhe
ofereçam ferramentas para fazê-lo.

Após mais de dois anos e meio de genocídio em Gaza, destruição sistemática e calculada de dezenas de milhares de pessoas e fome consciente de bebês até a morte – com descaramento, com alegria não dissimulada, com orgulho – o Estado de Israel profana, pela sua própria essência, a memória do Holocausto, e qualquer cerimônia que realize em seu nome viola a memória das vítimas. Um Dia da Memória do Holocausto, celebrado por um estado que comete genocídio, é um cuspe na memória das vítimas, não uma homenagem a ela.

Uma sirene tocada num Estado onde um daqueles que acenderão as tochas no Dia da Independência é uma pessoa cuja fama lhe veio da destruição incalculável que infligiu a seres humanos sitiados, exaustos, famintos e desprotegidos; num Estado que transformou a supremacia racial em política oficial, tal sirene nada mais é do que um grito de guerra, e não é apropriado que fiquemos em pé diante dela. A sirene do Dia do Holocausto num país sem vergonha e sem moral é um som vazio de conteúdo, um ritual oco e nada mais, ou pior que isso: parte de uma máquina bem lubrificada que transformou o Holocausto numa ferramenta de propaganda destinada a justificar os mais repugnantes dos crimes.


 

 

1 Em Israel celebra-se anualmente a seguinte sequência: Yom HaShoah (Dia da Memória do Holocausto), Yom HaZikaron (Dia da Memória dos Soldados Mortos e Vítimas do Terrorismo) e Yom HaAtzma’ut (Dia da Independência de Israel). Nos dois primeiros o toque de sirenes por um ou dois minutos paralisa o trânsito, as atividades e o movimento das pessoas.

 

Traduzido de Local Call, abril de 2026.