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O conjunto de leituras Almas livres, corpos encarcerados reunirá uma série de relatos sobre diferentes prisões nas próximas semanas. O único critério comum a todos os relatos é o fato de terem sido escritos pelos próprios presos. A exceção fica por conta do texto “O Estado terrorista do Brasil”, escrito pelo desembargador aposentado Siro Darlan, mas ele se justifica: Siro é um dos idealizadores e o principal promotor da Academia Brasileira de Letras do Cárcere, uma iniciativa original da cultura de nosso país, que reúne escritores-egressos com diferentes trajetórias e visões políticas.

Há de tudo um pouco neste pequeno mosaico: pessoas que amargaram meses de detenção até condenados a prisões perpétuas; ativistas que se lançaram à luta contra a opressão política e pessoas simples que se viram sem qualquer alternativa para sobreviver. Assim também, como os efeitos desumanizadores da superlotação e do isolamento absoluto, sendo esta talvez a forma mais cruel de tortura institucionalizada que exista, em qualquer latitude.

Por falar em latitude, leremos as notícias da experiência do cárcere tanto nos centros do capitalismo quanto na sua periferia, num inventário de cicatrizes que talvez revele aos leitores toda a universalidade das dores, e das resistências, encerradas atrás dos muros espessos.

O depoimento que abre está página pertence ao escritor palestino Nasser Abu Srour, que foi mantido prisioneiro durante trinta e dois anos pelas forças de ocupação sionistas. Ele diz: “Minha sobrevivência irritou os muros da prisão, desafiando-os com minha ousadia”. Talvez isto igualmente nos ensine algo para travar e vencer as lutas do lado de cá dos muros.

Igor Mendes

Rio de Janeiro, março de 2026.