Topo

Como a psicologia moderna está transformando um exército genocida em um exército “moralmente ferido” (Rami Rmeileh)

Soldados israelenses caminham em direção a veículos militares na Faixa de Gaza, 10 de Março de 2024
(Photo: © Abir Sultan/EFE via ZUMA Press APA Images)

 

A tradução desse texto compõe o projeto editorial construído em uma parceria entre o coletivo desorientalismos, a n-1 edições e o Núcleo Psicanálise e Laço Social no Contemporâneo (Psilacs) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Uma seleção de textos que aborda a Questão Palestina em um diálogo com a Psicanálise e outras áreas do conhecimento, como a História, Filosofia, Sociologia e Saúde Mental.


 

 

Um mês antes do início do genocídio em Gaza, em 7 de outubro, já havia uma crescente crise de saúde mental entre os soldados israelenses e taxas crescentes de suicídio nas forças armadas. Mesmo naquela época, o Estado buscava soluções tecnológicas e clínicas – experimentando intervenções como bloqueios do gânglio estrelado, injetados no pescoço para desativar a resposta de “luta ou fuga” no sistema nervoso, treinamento de combate voltado para a resiliência e guerra orientada por IA, projetada para afastar os soldados do confronto direto. No entanto, a guerra mais recente, enquadrada por alguns como uma “Guerra Existencial contra a Incerteza Moral”, tornou impossível evitar o combate direto. Seja no Líbano ou em Gaza, as Forças de Ocupação Israelenses ainda enviaram suas tropas ao terreno – invadindo, matando e estuprando, e, às vezes, documentando seus próprios crimes. Agora que muitos voltaram para casa e a adrenalina dos assassinos diminuiu, a névoa de sua destruição se dissipou e o céu clareou para que todos pudessem ver a destruição e a aniquilação que eles causaram; agora que não ouvem mais as risadas e os vivas de seus comparsas criminosos comemorando o bombardeio de casas, e agora que os corpos daqueles que mataram se transformaram em um cheiro que os assombra, sua psique está gritando, atormentada.

Números e testemunhos revelam que Israel está se afogando nas consequências de sua própria violência, e a mídia vem chamando isso de crise de saúde mental. O suicídio entre soldados das Forças de Defesa de Israel (IOF) está em constante aumento, o Transtorno de Estresse Pós-Traumático tornou-se um diagnóstico rotineiro e as linhas de atendimento de emergência estão sobrecarregadas. A mídia hebraica fala de “trauma de guerra” e “primeiros socorros emocionais”. Psiquiatras israelenses e membros do Knesset alertam para uma “epidemia”. Mas, em vez de questionar que tipo de ordem política-colonialista pervertida produz esse nível de colapso psíquico, o país e instituições psiquiátricas como a Associação Americana de Psicologia (APA) correm para medicalizar, a fim de conter e gerenciar as consequências morais de suas próprias ações. A Associação Americana de Psiquiatria reconheceu agora a “lesão moral” como um foco legítimo de atenção clínica. Clínicos, jornalistas e estudiosos israelenses começaram a adotar o termo para soldados que retornam de Gaza. Um novo recipiente diagnóstico está sendo preparado para conter, neutralizar e, em última instância, absolver a culpa dos perpetradores no exato momento em que a palavra “genocídio” está entrando no debate jurídico e moral dominante.

 

O exército genocida que se tornou suicida

Durante anos, as Forças de Defesa de Israel (IOF) orgulhosamente se apresentaram como um caso de sucesso na prevenção do suicídio, apontando para uma média de treze suicídios de soldados por ano, baseando-se em uma baixa taxa anual e em comparações seletivas com outros exércitos. Essa narrativa implodiu com o genocídio em curso em Gaza. Os números oficiais das IOF registraram 17 suspeitas de suicídio em 2023 e 21 em 2024, o maior número em mais de uma década. Um relatório do Centro de Pesquisa e Informação do Knesset, divulgado em outubro de 2025 a pedido do deputado Ofer Cassif, constatou que, entre janeiro de 2024 e julho de 2025, 279 soldados tentaram o suicídio e 36 morreram. Quase quatro em cada cinco eram soldados de combate, uma mudança notável em relação aos anos anteriores, quando os combatentes representavam menos da metade dos suicídios. E apenas 17% dos que morreram haviam sido atendidos por um oficial de saúde mental nos dois meses anteriores à morte.

A resposta das Forças de Defesa de Israel (IOF) tem sido – até agora – a negação. Um psicólogo que comanda a Unidade de Resposta de Combate disse à imprensa que “a taxa de suicídio no exército está mais ou menos estável nos últimos cinco ou seis anos” e chegou a afirmar que ela havia diminuído na última década. Refletindo uma negação gritante de que Israel pode cometer um genocídio e permanecer psicologicamente intacto.

Mesmo essas estatísticas são parciais. Elas contabilizam apenas aqueles que estavam fardados no momento da morte. De acordo com o Ministério da Saúde, conforme noticiado inicialmente pela CNN citando um relatório que agora foi removido: mais de 500 pessoas morrem por suicídio anualmente em Israel e mais de 6.000 tentam, com uma subnotificação estimada em 23%. O relatório removido foi agora substituído por uma tentativa de “desmentir rumores de aumento nas taxas de suicídio”.  

Esses números não incluem reservistas que participaram da campanha de genocídio em Gaza, voltaram para casa e mais tarde se suicidaram como civis. O Haaretz rastreou pelo menos uma dúzia desses casos, muitas vezes envolvendo homens com sintomas claros de TEPT ou sofrimento grave. Uma vez dispensados, suas mortes desaparecem nas estatísticas civis, desconectadas de Gaza tanto nos registros das Forças de Defesa de Israel (IOF) quanto da memória pública israelense.

 

As famílias descobrem que os filhos que Israel aclamou como “heróis” têm negado até mesmo o reconhecimento simbólico quando morrem por suas próprias mãos após o fim da guerra para todos os perpetradores israelenses de crimes de guerra, exceto para eles. O caso do médico reservista Roi Wasserstein atraiu muita atenção da mídia. Ele morreu por suicídio meses após sua última mobilização em Gaza. Como não estava na ativa naquele dia, as Forças de Defesa de Israel (IOF) inicialmente se recusaram a reconhecê-lo como soldado falecido; ele deveria ser enterrado como civil. Somente após protestos públicos o Chefe do Estado-Maior prometeu reformas legislativas restritas para “casos excepcionais”. No entanto, essa promessa permanece apenas nas palavras, e os soldados continuam a sofrer colapsos mentais.

Enquanto isso, o departamento de reabilitação do Ministério da Defesa admite que quase 11.000 soldados entraram em seus programas psicológicos desde 7 de outubro e que mais de um terço de todos os casos de transtornos de saúde mental na história militar de Israel foram registrados nesse período. Até 2028, o ministério espera estar tratando cerca de 100.000 “veteranos” com deficiência, dos quais pelo menos metade com problemas psicológicos. O genocídio cometido por Israel deixa “um rastro de soldados traumatizados, com o número de suicídios também em ascensão”.

 

A lesão moral chega para salvar o perpetrador

Desde a década de 1990, psicólogos descrevem a lesão moral como o sofrimento que surge quando as ações de uma pessoa – ou a falta de ação – violam suas crenças morais mais profundas. O objetivo é captar algo diferente do TEPT clássico, e não se trata necessariamente de terror diante de uma ameaça, mas de vergonha, ódio de si mesmo, traição, perda de sentido.

O psiquiatra Jonathan Shay, em seu trabalho com veteranos do Vietnã no Departamento de Assuntos dos Veteranos dos EUA, definiu a lesão moral como o resultado de uma “traição ao que é certo” por parte de uma autoridade legítima em uma situação de alto risco, apontando explicitamente para a responsabilidade da liderança e da estrutura, bem como para a auto traição. Mais tarde, Brett Litz e seus colegas deram ao conceito uma formulação mais sistemática, descrevendo a lesão moral como a consequência psicológica, social e espiritual de cometer atos que violam crenças morais profundamente arraigadas, de não conseguir impedi-los ou de testemunhá-los. Nessas formulações iniciais, a dimensão estrutural permaneceu presente. A lesão moral estava ligada à cultura militar, às regras de combate e às decisões políticas que colocavam os soldados em ambientes moralmente corrosivos. Com o tempo, porém, o conceito migrou para além do campo de batalha. Começou a aparecer em contextos civis, desde escândalos de abuso dentro de instituições religiosas até violência sexual em várias instituições, onde a traição da autoridade produz uma profunda ruptura moral. À medida que o termo se difundiu, sua linguagem crítica de responsabilidade estrutural foi se transformando cada vez mais em uma categoria clínica que poderia ser gerenciada.

Recentemente, o conceito voltou a ganhar força. A literatura clínica elogiou o reconhecimento, por parte da Associação Psiquiátrica Americana, dos “problemas morais, religiosos ou espirituais” como um foco legítimo de tratamento, apresentando essa iniciativa como algo que abre novos caminhos para a avaliação e a intervenção. Pesquisadores ligados a programas acadêmicos que buscam integrar as ciências sociais a questões de virtude e significado desempenharam um papel na consolidação desse reconhecimento dentro do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, conferindo ao termo legitimidade formal na classificação psiquiátrica dominante. Não há vínculo institucional entre essas iniciativas e Israel, mas a rapidez com que o termo foi adotado na mídia israelense, nos comentários clínicos e até mesmo no debate parlamentar revela algo além do movimento comum de um conceito acadêmico. No contexto da Faixa de Gaza, o termo está sendo usado para descrever o trauma enfrentado pelos soldados como resultado de atos dos quais participaram ou testemunharam: assassinatos em massa, ataques contra civis, destruição sistemática e a culpa que se segue, juntamente com a destruição da imagem que lhes foi dada de si mesmos e da “legitimidade” do que estavam fazendo. Ele também designa a erosão da confiança na instituição militar e na ideologia que justificou essa violência, sobretudo o sionismo, que lhes foi apresentado como a base da legitimidade que os levou a isso. Um termo que por anos permaneceu amplamente confinado aos cuidados com veteranos, ou a discussões sobre abandono e traição por parte de comandantes e instituições militares, às vezes dentro de marcos morais e religiosos mais amplos, tornou-se repentinamente o principal marco para compreender as consequências do genocídio na Faixa de Gaza para os soldados israelenses.

“Lesão moral” não apaga a dimensão da agência da mesma maneira que o TEPT às vezes o faz. Ela reconhece a violação moral. No contexto de um Estado colonialista como Israel, construído sobre a ideologia sionista e a militarização permanente, sua incorporação em estruturas institucionais e sua transformação em uma categoria diagnóstica tratável a transformam em uma ferramenta para regular a consciência, em vez de abrir a porta para a responsabilização. Uma vez que é incorporado aos manuais de diagnóstico, absorvido pelos protocolos de tratamento e condensado nas manchetes da mídia, a violência que expõe é contida novamente. A culpa ligada ao genocídio e à violência colonial torna-se uma questão psicológica individual. A consciência do perpetrador torna-se o foco urgente de preocupação, enquanto a estrutura do colonialismo de colonização e a doutrina sionista que produziram essa violência recuam para segundo plano. Isso não significa que o sofrimento psicológico seja inventado. Significa que a forma como ele é enquadrado nunca é inocente, e que o quadro escolhido tem consequências. O TEPT suscita simpatia por aqueles expostos ao perigo. O “trauma moral” suscita simpatia por aqueles que violaram seus próprios valores. Sem verdade, responsabilização e mudança estrutural, ambos podem se tornar linguagens por meio das quais o poder absorve sua própria crise e sobrevive.

Michel Foucault nos ensina que o poder moderno se protege produzindo os próprios diagnósticos por meio dos quais a sociedade compreende o sofrimento. As instituições de assistência nunca são neutras – elas geram categorias que mantêm intactas as estruturas políticas. A rápida adoção da “lesão moral” se encaixa exatamente nesse padrão. A culpa que, de outra forma, poderia ser direcionada para fora – para os palestinos, para a violência estatal, para a brutalidade da ocupação – é reformulada como um problema interno e clínico. E, uma vez medicalizada, torna-se menos ameaçadora para a ordem política. Passa a estar ligada ao indivíduo, portanto tratável, e dissociada da política. Dessa forma, a lesão moral corre o risco de se tornar menos uma linguagem de responsabilização e mais uma nova biotecnologia que contém os crimes que Israel perpetra.

Em Israel, médicos e jornalistas descrevem cada vez mais soldados que retornam de Gaza e que “percebem o que fizeram” somente depois que a adrenalina passa. O Haaretz traçou o perfil de psicólogos como Yossi Levi-Belz, que tratam homens que voltam para casa e descobrem que a narrativa oficial não se encaixa mais nas imagens em suas cabeças. Alguns trabalhos acadêmicos começaram a explorar como o dano moral leva certos veteranos ao ativismo político como forma de reparação moral, enquanto outros desmoronam interiormente, incapazes de articular seu sofrimento sem se acusarem a si mesmos.

Esse foco dá continuidade a uma longa história em que a psiquiatria, por meio do TEPT e de estruturas relacionadas, transformou perpetradores de crimes no Vietnã, no Iraque e no Afeganistão em objetos de simpatia. Mas, no contexto de uma ocupação em curso, onde não há uma condição de “pós-guerra”, o que está sendo exposto é mais difícil de conter. Se a culpa foi marginalizada na era do TEPT, hoje ela está sendo absorvida. Esse padrão não é nada novo. Grupos dominantes há muito traduzem a responsabilidade política em vocabulário psicológico. Os debates sobre a “culpa branca” em contextos pós-coloniais redefiniu o racismo estrutural como um fardo emocional suportado pelos brancos, desviando a atenção da justiça reparadora para o manejo do desconforto. O aumento das discussões sobre a “depressão masculina” em alguns contextos também, por vezes, reformulou a crítica feminista como uma fonte de angústia para os homens, transformando a questão do poder de gênero em uma história de masculinidade ferida. A cada vez, o confronto político é suavizado dentro da linguagem terapêutica.

 

De “Trauma” a “Lesão Moral”

Antes de “trauma” se tornar a linguagem dominante da psiquiatria contemporânea, outros conceitos já haviam sido usados para descrever o colapso psicológico dos soldados causado pela guerra. Durante a Primeira Guerra Mundial, termos como “choque de bombardeio” e “neurose de guerra” surgiram para descrever soldados que tremiam, perdiam a fala, sofriam paralisia, pesadelos e incapacidade de continuar lutando. Desde o início, a questão nunca foi simplesmente médica e a preocupação nunca foi com aqueles que estavam na linha de frente, recebendo a violência perpetrada pelos soldados, nem com os próprios soldados. Médicos e autoridades militares frequentemente discutiam se essas condições eram lesões neurológicas causadas por explosões ou sinais de covardia, fraqueza e falha moral. A liderança militar frequentemente temia que reconhecer o colapso psicológico como uma lesão também admitisse que a própria guerra poderia destruir os homens enviados para combatê-la, e que tal reconhecimento pudesse enfraquecer a disciplina, a obediência e a autoridade do comando entre as fileiras. Foi exatamente nesse momento que o trauma surgiu como a ferramenta política mágica capaz de reconhecer o sofrimento e, ao mesmo tempo, gerenciá-lo.

Em sua obra seminal “Burnout”, Hannah Proctor nos ensina que o trauma se torna político antes de se tornar clínico, porque a psiquiatria, as instituições humanitárias e os Estados desempenham um papel na decisão de quais formas de sofrimento são nomeadas, financiadas, tratadas e até mesmo lembradas. Desde que o TEPT entrou no DSM em 1980, o trauma tornou-se uma das principais linguagens por meio das quais a violência é explicada em hospitais, desastres, ocupações e outras crises humanitárias provocadas pelo homem. Embora, como linguagem, possa oferecer reconhecimento às pessoas que sofrem, é importante reconhecer que ela também molda a forma como essa dor é compreendida e, muitas vezes, despolitizada ao centrar a atenção em: quem tem permissão para aparecer como vítima e quais histórias e narrativas são varridas para debaixo do tapete do imperialismo e do colonialismo.

Os veteranos do Vietnã, por exemplo, forçaram o Estado americano a admitir que a guerra os havia seguido até casa e permanecido alojada nos corpos dos soldados, nas famílias e nas sociedades. Manifestando-se como vícios, famílias desestruturadas, violência doméstica, medo, raiva, culpa e suicídio. Esses soldados se mobilizaram e exigiram, na década de 1970, que seu “sofrimento” fosse tratado e indenizado, e que sua miséria pós-guerra fosse reconhecida. Grupos como os Veteranos do Vietnã contra a Guerra fizeram lobby na cidade de Nova York e tentaram falar abertamente sobre sua culpa e redirecioná-la para o governo. Como diz um veterano: “Descobrimos que compreender a guerra transferiu a culpa e o sentimento de culpa que o veterano frequentemente acumulava sobre si mesmo e direcionou essa culpa para o governo e agências governamentais como as forças armadas ou o Departamento de Assuntos dos Veteranos (VA), onde a culpa devidamente pertencia (e pertence hoje).”

Por meio de pressão política em prol do que costuma ser chamado de “síndrome pós-Vietnã”, ela entrou oficialmente na classificação psiquiátrica e no reconhecimento na década de 1980, e mais tarde se tornou base para tratamento, pedidos de invalidez e indenização. Mas esse reconhecimento também produziu uma mudança perigosa e um reajuste moral na forma como os americanos se lembravam da guerra. Em filmes, romances e na memória pública, o soldado americano traumatizado frequentemente se tornou a principal vítima do Vietnã. Até mesmo massacres como o de My Lai foram recontados através da dor dos soldados que os testemunharam, executaram ou mais tarde se arrependeram deles. Os civis vietnamitas que foram assassinados pelas tropas americanas, incluindo mulheres, crianças e idosos, foram forçados a ser esquecidos e apagados. Suas mortes se tornaram o pano de fundo de uma história americana sobre culpa, dor e redenção.

Para entender isso, precisamos reconhecer o fato de que a culpa foi excluída das discussões sobre o TEPT e até mesmo dos diagnósticos oficiais. As primeiras discussões sobre a “síndrome pós-Vietnã” reconheciam que alguns soldados estavam sofrendo porque haviam matado, seguido ordens criminosas, testemunhado atrocidades ou participado de atos que mais tarde consideraram moralmente insuportáveis. A culpa do sobrevivente estava presente nos critérios de TEPT do DSM-III, mas foi removida dos critérios centrais no DSM-III-R. Quando o DSM-IV foi publicado em 1994, a culpa foi marginalizada, e o TEPT passou a ser definido principalmente em torno do medo, da impotência e da exposição à ameaça. O sofrimento do soldado – e seus sintomas – permaneceu visível, enquanto a questão do que o soldado havia feito tornou-se mais fácil de evitar.

Esse dispositivo psiquiátrico revelou-se eficaz e tornou-se tanto um sedativo quanto uma linguagem que acalmava a consciência pública quando crises imperiais imorais começavam a surgir em enfermarias de hospitais ou tribunais militares. Ele também oferecia uma forma portátil de traduzir a violência política em sofrimento individual. Um modelo que logo ficou conhecido, como o psicoterapeuta alemão David Becker certa vez o chamou de “a Coca-Cola da psiquiatria”, no qual o trauma se tornou um produto global pronto para uso e exportado como parte de um projeto mais amplo de imperialismo cultural, dissociado das condições políticas que produzem o sofrimento.

O trauma, como nos ensina Hannah Proctor, tornou-se então parte da ascensão de uma “indústria do trauma” entrelaçada com a psiquiatria humanitária. O trauma – e o TEPT – como diagnósticos e intervenções tornaram-se portáteis, exportáveis, padronizados e distribuídos sob a autoridade do cuidado e da expertise. O financiamento começou a chegar em grande quantidade, e as ONGs rapidamente se adaptaram e passaram a exportar programas de TEPT para diversos contextos políticos, muitas vezes tratando o sofrimento como problemas individuais de saúde mental, dissociados da violência que o produziu.

Nesse processo, os vocabulários e a linguagem das lutas anticoloniais e anti-imperialistas foram gradualmente sendo corroídos e substituídos. Se os vocabulários revolucionários anteriores nomeavam violência, repressão, opressão, colonialismo, imperialismo e, mais importante, resistência, a linguagem que passou a dominar fala, em vez disso, de vítimas, trauma, resiliência, recuperação, tratamento, extremistas e terroristas. Nessa mudança, o colonialismo se transforma em trauma individual, depressão e ansiedade. A ocupação se torna angústia. O terrorismo patrocinado pelo Estado se torna uma crise de saúde mental. O problema não é mais a ordem que produz danos psíquicos e físicos, mas o sujeito ferido que se torna um objeto a ser tratado e reabilitado dentro dela, e às vezes culpado por não ser “resiliente” o suficiente.

Essa é uma das muitas maneiras pelas quais a psiquiatria se cruza com a política, muitas vezes reconhecendo a dor enquanto permanece neutra em relação à violência que a criou. Muitos estudiosos e pensadores escreveram extensivamente sobre essa relação.

O momento atual, no entanto, revela outra mutação da mesma violência psiquiátrica. Mais uma vez, a psiquiatria se volta para os perpetradores para resgatá-los, oferecendo aos seus atos desumanizantes um antídoto e uma linguagem que os ajuda a fugir da verdade: que são genocidas, que merecem responsabilização e que suas próprias psiques os estão punindo pelo que fizeram. Mais uma vez, os crimes são traduzidos em lesão, a responsabilização é substituída por tratamento, reconhecimento e mais pesquisa e análise, e o trauma do soldado é renomeado como lesão moral.

 

Transformando um exército genocida em uma população de pacientes

É precisamente aqui que a lesão moral surge como um novo discurso sedutor tanto para a mídia israelense quanto para os psiquiatras. Ela parece reintroduzir a culpa na linguagem clínica, mas de uma forma cuidadosamente controlada que não se transforma em confissão. A culpa se torna um sintoma. O soldado não é mais simplesmente culpado de cometer crimes atrozes; ele está “moralmente ferido”. Sua angústia é uma condição a ser reconhecida pela mídia, estudada por pesquisadores e universidades e tratada por psiquiatras. Enquanto os atos genocidas que produziram essa lesão — a destruição de bairros inteiros, o uso de escudos humanos e o fogo indiscriminado — desaparecem em segundo plano. O diagnóstico recentra o sofrimento dos israelenses e empurra o sofrimento dos palestinos ainda mais para fora do quadro.

Nos próximos anos, quando mais tribunais internacionais e a opinião pública se inclinarem para classificar a campanha de Israel em Gaza como genocídio, as bases já estarão sendo lançadas para uma contra-narrativa: “Os soldados das Forças de Defesa de Israel não são criminosos; são vítimas de fardos morais impossíveis”. Eles não escolheram isso; as ações do Hamas em 7 de outubro os obrigaram a fazê-lo, ou foram traídos por seus chefes e solicitados a cometer atos imorais em momentos de desespero. Eles estão traumatizados. O “exército mais moral do mundo” merece tratamento, não julgamento. Essa é a função política do dano moral. Ele não desafia o sistema, mas sim o aprimora, antecipando-se para conter a crítica. Ao agrupar perpetradores, espectadores e vítimas em uma única categoria de “feridos moralmente”, o novo discurso confunde distinções que importam para a justiça. Permite que um Estado colonizador reconheça que algo deu terrivelmente errado no nível da consciência, sem nunca questionar se o erro reside no próprio projeto. Transforma a consciência em um problema técnico/médico para terapeutas resolverem, sedarem ou tranquilizarem.

Ao rotular os soldados como “moralmente feridos”, Israel pode enquadrar seu sofrimento sem abordar diretamente o que o causou. E quando as causas são mencionadas, elas provavelmente serão associadas ao dia 7 de outubro – ou apresentadas como respostas a ele –, muito como observa um artigo recente da Forbes.

Enquanto isso, muitos desses soldados “moralmente feridos” que participaram de atos genocidas recorrem a animais resgatados como seres vivos que silenciosamente os julgam pelo que fizeram e os ajudam a “se curar”. Como observa um artigo, “a fazenda se tornou um oásis para dezenas de veteranos que participaram de suas sessões — que, além do aconselhamento tradicional, incluem terapia com cães e outros animais — tendo como pano de fundo o assobio dos pássaros e o canto das galinhas.

Essa tendência em direção ao diagnóstico também reorganiza o sofrimento daqueles acusados de crimes de guerra dentro da maquinaria de seguros, assistência social e governança neoliberal. Sob a linguagem do dano moral, os perpetradores são readmitidos como pacientes. Uma vez que o “dano” é nomeado, os psiquiatras podem ancorá-lo a uma categoria clínica reconhecida, na qual as seguradoras se baseiam para reembolsar os pacientes e, em última instância, sedá-los. Uma estratégia que não é exclusiva dos Estados coloniais, mas comum em regimes neoliberais, onde o sofrimento — seja ele produzido por crimes de guerra ou por violência estrutural — é redefinido como um transtorno a ser gerenciado, tratado e, muitas vezes, sedado, enquanto as condições políticas que o produziram permanecem firmemente em vigor.

 

A mente diz a verdade que o Estado não pode admitir

Qualquer discussão sobre moralidade deve começar – e terminar – com a própria crise moral da psiquiatria. Frantz Fanon compreendeu e há muito nos alertou que a disciplina nunca foi moralmente neutra. Trabalhando como psiquiatra na Argélia colonial, ele observou a linguagem clínica traduzir a violência política em patologia individual. Torturadores e torturados entravam nas mesmas enfermarias, seu sofrimento descrito como sintomas, em vez de como produto de um sistema colonial construído sobre dominação e ocupação. A psiquiatria muitas vezes parecia humana e imparcial, mas silenciosamente devolvia as pessoas à mesma ordem que as violava constantemente. Para Fanon, esse era um problema irreparável do próprio campo. A psiquiatria não se situava fora do poder, fora do colonialismo; ela organizava como o poder era sentido – cognitiva, física e psicologicamente – e depois o continha dentro de uma linguagem que servia ao sistema. Ele chamou isso de sociogênese: sofrimento mental moldado pelo mundo político. O colonialismo, escreveu ele, era um “fornecedor fértil para hospitais psiquiátricos” porque produzia contradições que a psique não conseguia absorver. O que aparecia na clínica como ansiedade ou colapso era inseparável da ordem social que o produzia.

Outros, em outros lugares, também há muito nos alertam de que a psicologia e a psiquiatria nunca foram ciências neutras; pois nasceram dentro das formações políticas e econômicas que criaram o mundo moderno – império, hierarquia racial, capitalismo – e ajudaram a reforçar essas formações.

Mesmo quando a Associação Americana de Psicologia finalmente pediu desculpas em 2021 por reforçar a supremacia branca nos Estados Unidos, o pedido de desculpas foi restrito, não oferecendo qualquer reflexão sobre o envolvimento global da psicologia com o domínio colonial, a ocupação militarizada ou a produção de conhecimento racializado. A psicologia nunca tomou o poder como sua área de investigação e, portanto, há muito tempo tem servido como um estabilizador do poder e não como sua crítica.

A partir do século XIX, as administrações coloniais utilizaram categorias psicológicas e psiquiátricas para classificar e controlar as populações subjugadas. Os africanos escravizados que fugiam do cativeiro eram rotulados como mentalmente doentes, sofrendo de drapetomania; as revoltas anticoloniais eram descritas como evidência de irracionalidade tribal, “mania religiosa” e defeito biológico, conforme documentado em estudos sobre o Quênia colonial e outros locais; Cosmologias e sistemas de cura indígenas foram reinterpretados como evidência de “consciência primitiva” ou crença patológica, parte de um projeto mais amplo de etno-psiquiatria que situava culturas inteiras em uma escada evolutiva de desenvolvimento mental. A psiquiatria inicial estava profundamente entrelaçada com a eugenia, oferecendo legitimidade científica para a esterilização e institucionalização de povos racializados, bem como para a remoção forçada de crianças indígenas para instituições “civilizadoras”. Em todos os contextos, o campo traduziu lutas de libertação e reivindicações políticas em sintomas clínicos, transformando resistência em patologia. E nas raras ocasiões em que a disciplina voltou seu olhar para a psique do colonizador, foi tipicamente para exonerar, não para interrogar – para apresentar os perpetradores da violência como vítimas de seu próprio sofrimento.

Sessenta anos depois, o alerta de Fanon e os alertas de muitos povos indígenas que foram submetidos à violência da psiquiatria voltam a parecer urgentes. Enquanto psiquiatras e formuladores de políticas israelenses lidam com o aumento dos suicídios, a expansão dos diagnósticos de TEPT e o crescente discurso sobre o dano moral, a psiquiatria se depara com os limites de sua própria neutralidade. A questão não é mais apenas como os soldados sofrem, mas por que esse sofrimento deve ser medicalizado. Aqui, o surgimento do dano moral nada mais é do que uma estratégia de sobrevivência para que a própria disciplina absorva sua crise moral.

Se o conceito tem alguma utilidade política, seu valor reside nos fatos que ele deixa claros: que a epidemia psíquica que surge entre os soldados israelenses aponta para uma realidade que o Estado se recusa a admitir; que Israel está cometendo genocídio em Gaza. E que um Estado colonizador que trava uma guerra genocida devastará o povo que tem como alvo, mas também prejudicará muitos dos que foram recrutados para executá-la. E por isso, em vez de abandonar os danos psíquicos da desumanização produzidos pelo sionismo, as chamadas guerras existenciais de Israel estão se voltando para um futuro em que um exército de robôs está sendo preparado para sustentar suas próximas campanhas genocidas.


 

Rami Rmeileh é psicólogo palestino e atua nas áreas da psicologia crítica e da psicologia da libertação, com foco na política da saúde mental, violência colonial e Palestina.

 

Texto originalmente publicado em 6 de maio de 2026 pelo site do Mondoweiss: https://mondoweiss.net/2026/05/how-modern-psychology-is-turning-a-genocidal-army-into-a-morally-injured-one/ 

Tradução e revisão: coletivo desorientalismos