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Lacan pela mão de James Joyce: uma subversão que nos serve (Christiane Matozinho)

Entonces, podríamos decir que los irlandeses viven dentro de la cultura inglesa. Manejan – a veces espléndidamente – la lengua inglesa. Y sin embargo se saben no-ingleses, es decir, no deben una lealtad especial a la tradición – o a las tradiciones inglesas. Entonces, pueden encarar lo que hacen desde un punto de vista revolucionario. Y si ustedes me permiten un paréntesis, tal es, o tal podría ser, o ya ha sido, en algunos casos, nuestra actitud de latino americanos.¹

 

Como a psicanálise hoje se coloca a serviço da subjetividade e da política de sua época? Essa pergunta abre a possibilidade de discussão a que esse trabalho se propõe interrogando a psicanálise como parceira dos movimentos sociais frente às injunções do discurso capitalista. Essa parceria só se faz na consideração da particularidade sócio-histórica que trança os fios da subjetividade dentro da qual o sujeito apresenta seu sintoma. Neste sentido, pensando que a política se imiscui à própria dimensão clínica, é tarefa importante do analista entender qual a particularidade do laço social no qual se forjam os fenômenos clínicos e políticos sob os quais ele se debruça.

Na tarefa de compreender a injunção da história e da estrutura que forjam os sujeitos, a psicanálise certamente construiu conceitos e instrumentos que podem hoje servir em grande medida aos próprios movimentos sociais e políticos na América Latina. Sabemos que os movimentos pós-coloniais e decoloniais ganham força junto aos movimentos políticos e sociais na América do Sul, na medida em que investigam a possibilidade efetiva de separação frente à alienação determinada pelo poder colonial e perpetuada para além de uma mera forma de administração imperial. Acreditamos que a psicanálise possa ser grande aliada nessa necessária separação e é neste sentido que me proponho a atravessar na discussão, pós-colonial e decolonial, a influência de James Joyce sob a psicanálise lacaniana, em especial sob as últimas produções de Lacan.

Pretendo apresentar Joyce através de uma marca em comum conosco, latinos. Trata-se de apresentar esse autor sobre uma outra perspectiva, que talvez nos ajude a fazer um bom uso, a partir da nossa latinidade, da psicanálise como parceira dos movimentos e lutas políticas empreendidas pela subjetividade de nossa época, na geopolítica de nossos desejos. Mas em que medida a literatura desse autor, um europeu do início do século XX, conversa com a nossa latinidade marcada pela colonialidade, e posteriormente pelos golpes e ditaduras, herança de um passado colonial? O que temos nós, latino-americanos, em comum com James Joyce?

O elemento comum é justamente a determinação colonial que em certo momento da história faz marca na subjetividade, no sujeito e no seu sintoma. Assim, pretendo apresentar aqui a marca colonial da produção de James Joyce – produção aqui não apenas restrita à sua obra literária, mas também expandida a sua forma particular de nomear-se como artista – bem como o que Lacan faz disto e que pode hoje nos servir.

A Irlanda era, até menos de um século atrás, uma colônia da Inglaterra que, tal como Parker² nos diz, é a colônia mais antiga da Inglaterra, sujeita a mais de oito séculos de ocupação. O processo de colonização na Irlanda foi inteiramente violento, na medida em que durante oito séculos a Inglaterra espoliou as terras, a riqueza, a língua, a religião, a cultura e até mesmo a identidade dos irlandeses, deixando marcas determinantes para a história desse povo. É Joyce mesmo que nos diz que “da época da invasão inglesa até os nossos dias, passaram-se quase oito séculos. […] Durante toda essa época, a Irlanda deixou de ser uma potência intelectual na Europa”.³

Kiberd⁴ nos diz que, ao longo do século XIX, a Irlanda funcionou como uma espécie de laboratório político e social no qual os ingleses podiam testar suas ideias mais inovadoras: sobre a relação adequada entre religião e Estado, sobre a mudança do papel da aristocracia, acima de tudo sobre a posse e uso da terra. A Inglaterra espoliou a Irlanda impondo a ela a racialização, nomeando os irlandeses de “chimpanzés brancos”, argumentando que os irlandeses eram, como os africanos, filogeneticamente mais próximos dos primatas do que de outros europeus. O que se evidencia é que, sob a égide do império inglês, a Irlanda, nesta época, não será poupada da arbitragem colonial, por ser uma colônia européia e fenotipicamente branca.

Ao contrário, permanecerá fortemente racializada, junto com os nativos americanos e tribos africanas, todos marcados pela estereotipia racial construída pelos britânicos para validar sua empresa imperial no século XIX e no início do século XX. A Coroa proibiu a prática religiosa diversa ao anglicanismo – isso em uma ilha de maioria católica-, retirou deles os direitos civis, impôs as plantations, retirando dos irlandeses o lugar de proprietários da terra e obrigando-os ao regime de servidão para sua própria sobrevivência. A desapropriação das terras dos irlandeses implicou no aumento da pobreza e consequentemente em episódios históricos dramáticos de fome. Milhões de irlandeses morreram de fome sob o jugo da Inglaterra e outros milhões partiram em diáspora. Como Joyce aponta:

 

A cada ano, embora já bastante despovoada, a Irlanda perdeu 60 mil de seus filhos. De 1850 até os nossos dias, mais de 5 milhões de emigrantes partiram para a América, de onde enviam todos os dias cartas a amigos e parentes que ficaram na Irlanda, convidando-os a se juntarem a elas. Só os velhos, os corruptos, as crianças e os pobres ficam em casa, onde o duplo jugo faz outra marca no pescoço domesticado; e ao redor do leito de morte, onde o corpo miserável e anêmico jaz quase sem vida, os soberanos dão suas ordens e os sacerdotes ministram a extrema-unção.⁵

 

A saída ou a morte do irlândes implicou no desaparecimento da língua gaélica, que se antes proibida, depois das plantations foi exterminada. A Irlanda foi assim um laboratório para o colonialismo contemporâneo.

Ora, se é no final do século XIX e início do século XX, que Joyce inicia sua obra literária, contemporânea do apogeu do império britânico, essa marca colonial não será sem efeito em sua produção. Neste sentido, James Joyce, nasce, cresce, escreve e morre como um sujeito colonial, já que a independência definitiva da Irlanda em relação à Inglaterra se consolidou apenas em 1949. E a marca da colonialidade de Joyce não é sem efeitos na sua produção literária. Joyce escreve o tempo todo sobre a Irlanda. O que parece pano de fundo histórico, trança e determina a história de Joyce com sua obra, afinal, como veremos, ele só escreve sobre a Irlanda, marcando assim não somente os efeitos do colonialismo, mas também sobre o que insiste deste modelo nas formas diversos de capitalismo que se ensejavam à época. Joyce escreve sobre as marcas da história, qualificada por ele de “pesadelo” que o aprisiona e que impõe aos irlandeses servir a três senhores: a Igreja, a Inglaterra e a própria Irlanda.

O projeto de libertação de Joyce, que se materializa na sua obra literária, exige que ele não sirva mais nem à religião, nem aos interesses britânicos e nem mesmo à própria Irlanda, dominada por uma apatia que ele denunciará em suas obras. A posição de negar as determinações impostas pelos senhores que o oprimiam lhe confere a condição de herege, anunciada por ele com seu Non serviam:

 

Eu não vou servir! (...) Eu não vou servir àquilo em que não acredito mais, possa essa coisa se dizer minha casa, minha pátria ou minha igreja: e eu vou tentar me expressar em algum modo de vida ou de arte com a liberdade que eu conseguir e com a plenitude que eu conseguir, usando em minha defesa as armas que eu me permito usar - silêncio, exílio e astúcia.⁶

 

A obra de Joyce, longe de ser uma obra de um intelectual europeu elitista distante das questões de sua época, uma obra para iniciados, denota em toda a sua extensão a marca política de sua época. E é justamente esse autor colonial, que guiará Lacan no reordenamento da sua clínica. Miller nos diz⁷ que Lacan solta a mão de Freud e toma a de Joyce, rumo a uma psicanálise pós-joyceana. Ora, toda essa subversão que se opera a partir de Joyce na psicanálise, certamente traz consigo as marcas políticas desnudas por Joyce. Esse movimento lacaniano de reviramento epistemológico, para Miller, teve o papel histórico de atualizar Freud e de preparar a psicanálise para a nova ordem que Negri⁸ chama de Império. Portanto, é pela mão de Joyce que Lacan parece alinhar a psicanálise à subjetividade de sua época, apontando a emergência sintomática diante das lógicas de poder, mas também a amarração sinthomática singular como resposta do sujeito a este discurso. E é pela mão de Joyce que Lacan desloca a clínica da órbita do Nome-do-Pai edípico, na medida em que o significante da falta do Outro se apresenta. Mas seremos nós, psicanalistas latinoamericanas, a extrair suas consequências, dificilmente nomeadas desde o centro imperial como uma psicanálise decolonizada.

Foi com Joyce que Lacan forjou um além do Édipo, capaz de ler os efeitos contemporâneos da transmissão, sendo Joyce o próprio mito lacaniano. Trata-se de uma transmissão que não faz lastro na solidariedade estrutural entre o Édipo familiar e a organização familiarista do Estado, determinada nas sociedades ocidentais. Safatle⁹ nos diz que esta equivalência entre família e Estado é, ela mesma, a base da estrutura sócio-política ocidental, que impacta diretamente na constituição subjetiva e na estruturação dos sujeitos. No entanto, tal estrutura não se replica nas sociedades de dominação colonial. Esta ressalva apontada por Safatle é corroborada por Fanon, quando nos diz que em sociedades coloniais, “a família homogênea e quase monolítica se partiu”.¹⁰ Assim, a estrutura do colonizado escancara uma ruptura no interior dos sistemas normativos que compõem a vida social na colônia. Neste sentido, o que é questionado por Fanon é justamente a universalidade e normatividade edípica extensiva às sociedades coloniais, já que modelos familiares, sociais e políticos disjuntos exigem relações de antagonismo e conflito particulares que afetam a constituição do sujeito também de modo particular.

James Joyce parece atestar essa dissocialibilidade entre a ordem familiar e a colônia, fazendo mesmo que Lacan nos diga que o sinthoma de Joyce se constitui apesar do pai, um pai colonial. O rebaixamento do Nome-do-Pai edípico, como só mais um nome dentre tantos, abre a possibilidade para repensarmos a família em sua multiplicidade radical, para além de sua encarnação, e agora, para além de sua função edípica. Ora, não há necessariamente aqui a marca de um déficit na constituição subjetiva do colono, mas uma limitabilidade da conformação subjetiva edípica, um além do Édipo, na medida em que o que faz sinthoma para Joyce é sua obra, o nome do escritor. A arte de Joyce surge como uma resposta ao desmantelamento simbólico da estrutura familiar na colônia? Estaria aqui uma relativização da universalização do Édipo? Não é um dado irrelevante, que o Édipo saia de cartaz, ou ao menos encorpe apenas um filme do catálogo no Seminário 23¹¹, que tem Joyce como protagonista. A dimensão colonial de Joyce parece objetar a sua própria relação com o Édipo.

É em Joyce que Lacan parece encontrar a solução que faz objeção e barra ao discurso do capitalista, esse que atualiza em seus dispositivos a velha colonialidade. É o sinthoma, a marca singular do sujeito irredutível ao trabalho de significação da linguagem, que se apresenta como resto inapropriável à engrenagem capitalista, com o qual o sujeito se apresenta irredutível às determinações da história. Diante das marcas traumáticas da colonização, que escancararam o real da história e da estrutura, Joyce inventou um saber-fazer que lhe outorgava seu próprio sintHome Rule – homofonia lacaniana para Home Rule, a tomada da regra da casa, da independência irlandesa. Joyce forja a partir da sua escrita, da sua obra, com seu sinthoma, um nome que escapa às determinações do discurso do Império, um nome que escapa ao nome do pior instrumentalizado para justificar o fardo civilizatório europeu.

É por isso que Joyce nos fornece as coordenadas para ler a subjetividade de sua época na sua injunção entre estrutura e história. É em Joyce com seu sinthoma, que comprovamos que a psicanálise aposta com seu discurso na marca estrutural do sujeito, onde o real faz objeção ao que impõe o governo, marcando que a dominação e a submissão não podem ser integrais. Esta objeção, frente ao poder e à dominação, marca a permanência indissociável de uma insubmissão do real, ainda que silenciado e manipulado pelas lógicas de poder, ao invés de mobilizado rumo ao sinthoma. O sujeito da psicanálise é, assim, um sujeito marcado, mas não redutível às determinações históricas, que através da sua singularidade, de sua diferença absoluta, incapturável às malhas da produção homogênea do Capital, pode fazer frente aos dispositivos de produção de subjetividade neoliberal.

Com seu sinthoma, Joyce parecia dar um tratamento aos efeitos mesmo da mutação discursiva que imprimia sua marca na própria estruturação dos sujeitos. O sinthoma de Joyce, uma nomeação que se faz apesar do pai colonial, conflitado com o familiarismo político da metrópole, aparece, assim, como um saber fazer de Joyce, a partir da lalíngua, que lhe faz as vezes de uma amarração dos seus três registros psíquicos. O sinthoma de Joyce era o seu próprio governo interno, sua declaração de independência, uma saída ao domínio britânico. Joyce forja seu sinthoma, sua obra, através de um uso particular da língua, do inglês, a língua do colonizador.

Certamente o uso que Joyce faz da linguagem impressiona Lacan. Este uso joyceano, longe de ser um recurso estilístico apenas, ou a marca de sua psicose, como se apressam em diagnosticar alguns, é uma marca política importante. Sabemos que a questão da língua é decisiva no processo colonial, já que uma das consequências da conquista imperial é o controle gradual da ordem simbólica pela linguagem imperial hegemônica, o império do sentido. Na Irlanda com a colonização inglesa, para fins de dominação, o gaélico foi suplantado pelo inglês, que se tornou a língua oficial. Joyce tinha a exata dimensão da expropriação linguística operada pelo uso do inglês.

 

A linguagem que estamos falando é dele antes de ser minha. Quão diferentes são as palavras lar, Cristo, cerveja, mestre, nos seus lábios e nos meus! Não posso escrever nem pronunciar tais palavras sem perturbação de espírito. A sua linguagem, tão familiar e tão estrangeira, será sempre para mim uma língua adquirida. Nem fiz nem aceitei as suas palavras. Minha voz segura-as entre talas. A minha alma gasta-se na sombra da sua linguagem.¹²

 

Joyce então resolve fazer um bom uso da imposição linguística, transformando-a em munição, em sua artilharia contra o império, fazendo, segundo O´Brien¹³, da linguagem do império para o império da linguagem. E ele faz isso, subvertendo a linguagem até atingir o ponto “quando o cérebro usa as raízes dos vocábulos para fazer outros deles, que será capaz de nomear seus fantasmas, suas alegorias, suas alusões”.¹⁴ No trabalho de nomear fantasmas, no seu livro Finnegans Wake, Joyce¹⁵ precisa conjurar cerca de oitenta e seis línguas, misturadas e trituradas ao inglês, sem nenhum aviso prévio ou legenda composicional. Muitas das línguas, que emergem das rachaduras do inglês são línguas mortas no processo mesmo de sobreposição linguística operada pela colonização.

Com Joyce, o inglês já não existe mais, apontando que esta destruição é calculada e tem um propósito, já que depois de sair da grande noite, “quando a manhã chegar, é claro que tudo ficará claro de novo. Vou devolver a língua inglesa. Não o estou destruindo para sempre”.¹⁶ Joyce implode os elementos da língua inglesa enxertando neles destroços de outras línguas. Esse recurso abre uma fenda na significação arbitrada pelo Outro, gerando assim o equívoco. Assim, o que fica claro é que Joyce escreve na “língua inglesa e também contra a língua inglesa”,¹⁷ para fazer aparecer o real suplantado pela significação imposta. Trata-se, como Lacan disse, não de um distúrbio, mas de um saber-fazer orientado com lalíngua – esse resto que antecede a linguagem e persiste apesar dela, como um avesso a conservar o que de real não se submete ao imperativo do significado e conserva o que não tem equivalência no sentido, mas como gozo que afeta o corpo. Lalíngua arqueologiza os destroços de real insubmissos ao simbólico, conservando na língua os fantasmas que assombram a imposição do sentido, arbitrado pela lógica de poder.

E Joyce nos mostra em toda a sua obra a necessidade ética e política de desmontagem da significação dada pelo outro, já que “a consciência incriada da sua raça”, objetivo de Joyce¹⁸ com sua obra, se dá no deslocamento de sentido, a ser operado na estrutura de dominação. É preciso mover-se, afastar-se daqueles significantes impostos pelo Outro dominador, que faz com que seu discurso desenhe uma história que triunfe sobre a etnografia. Sem operar este deslocamento significante, que Joyce parece chamar de “a consciência incriada de sua raça”, os sujeitos permanecem assujeitados. Trata-se de uma operação de separação em relação aos significantes-mestres do império colonial.

É com Joyce que Lacan dará profundidade ao conceito de lalíngua, na medida que é dela que Joyce faz a matéria prima para forjar o sinthoma: sua obra. A insistência de lalíngua, os restos que subsistem e ancoram a própria dimensão da linguagem, questionam inclusive o sucesso do projeto capitalista: instaurar a língua do Umpério. E é a recusa à dicotomia colonial, gaélico ou inglês, irlandês ou inglês, norte ou sul, que faz com que Joyce, forje o seu nome, a sua Irlanda e até mesmo a sua língua. O seu último livro, primeiro nomeado de “Work in progress” e depois “Finnegans Wake”, seria assim por sua vocação translinguística, uma arca de Noé de muitas línguas, possível de ser traduzível, ao contrário do que pensam muitos, porém, mais que isso, uma obra aberta, que continua a se escrever a cada tradução, estilhaçando em línguas de bases diferentes a significação oficial e abrindo as brechas por onde conjurar as línguas fantasmagóricas, recalcadas pela história dos historiadores.

Para além disso, Joyce parece nos dizer que desalojados da língua somos todos nós, o que nos dá estruturalmente a condição de exilados. O que Joyce nos aponta é que a condição do exílio é estrutural, apesar de se atualizar de formas diferentes ao longo da história. Joyce mesmo, ele, um exilado que deixou a Irlanda para nunca mais voltar. Ele que de formas diferentes nos diz que o exílio é uma condição irlandesa na medida em que, através dos episódios de fome impostos pelo brutalismo colonial, a Irlanda perdeu seus filhos ou para a morte ou pelos caminhos além da ilha. A diáspora determinou a existência de mais irlandeses fora da ilha do que dentro dela. Neste sentido, a questão do exílio é importantíssima na obra de Joyce, do sonho de deixar a ilha ou da vontade de retornar a ela, Joyce, Dédalus, Ulysses. Essa marca não passa despercebida a Lacan, que nos aponta que é o exílio que traz a dimensão da movimentação dos corpos, da circulação da pulsão, da construção da história. Para Lacan,

 

Joyce recusa-se a deixar que aconteça alguma coisa naquilo que a história dos historiadores supostamente toma por objeto. Tem razão, posto que a história nada mais é que uma fuga da qual só se narram os êxodos. Somente deportados participam da história: já que o homem tem um corpo, é pelo corpo que se o tem.¹⁹

 

A história dos historiadores é feita de fatos e de sentido. E o historiador é quem busca interpretar o fato em busca de sentido. Para ele, “a História é precisamente feita para nos dar a ideia de que ela tem um sentido qualquer”.²⁰ E é por isso, segundo Soler²¹, que a história se conta, se marca, na medida em que os fatos só existem por serem ditos, extraídos entre o simbólico e imaginário. É esse o ponto que tanto Joyce, quanto Lacan atestam, na medida em que para o ser falante, “todas as histórias mentem sobre o real do que é separada pelo imaginário e o simbólico”.²²

Para Lacan, a história da qual Joyce se ocupa é feita apenas de deportados, de corpos deslocados. Faz-nos crer²³ que as grandes deportações impostas aos negros, aos indígenas americanos e aos judeus, ou mesmo as grandes migrações voluntárias ou pseudovoluntárias, como a dos irlandeses na Grande Fome e as migrações contemporâneas em nome da guerra civil que assola tantas nações, não são o real da história, mas sim o que há de mais verdadeiro, já que o êxodo implica o corpo afetado por lalíngua, pelo acontecimento que escapa ao sentido. É isso que Joyce aponta em “Ulysses”, por exemplo, costurando seus personagens pela geografia de Dublin, falando sobre o exílio, a diáspora, as guerras, a dimensão da história como a cartografia de gozo. Assim, a história dos historiadores não é suficiente, já que também precisamos da versão dos deportados, que encarnam no corpo deslocado a impossibilidade de dizer.

Joyce enxerta o corpo na história e nos fatos, indicando que a verdade está em outro lugar, que há uma outra história, verdadeira, escrita com o corpo, com o exílio, com o êxodo dos corpos. Na verdade, é o corpo falante, vivo, aquele que faz a laço a partir da sua singularidade sintomática, do seu modo de gozo, sendo esse mesmo corpo falante a própria substância da história. E é esse corpo, afetado pelo gozo enquanto ua acontecimento insubmisso ao sentido e ao significante que Lacan chamará de falasser. É com o falasser, recuperando o real deixado de lado pela articulação significante, ressoando no corpo a marca de lalíngua, que a História pode ser reescrita, apontando aqui um instrumento potente para as discussões pós-coloniais e decoloniais. A lógica de poder que determina a narrativa histórica encontra objeção no falasser que porta o inapropriável, marca de gozo deixada pelo encontro com lalíngua que será manejado por Joyce enquanto sinthome.

Lacan, ao se debruçar sobre a Joyce, dá corpo à muitos conceitos psicanalíticos, marcados pela colonialidade de Joyce:

 

  • a relativização da universalização do Édipo, através de Joyce que, em sua dimensão colonial, parece objetar a sua própria relação com o Édipo;
  • a lalíngua, que conserva no avesso da língua aquilo que a História insiste em recalcar;
  • o falasser que restitui ao conceito de sujeito a dimensão do corpo, atravessado pelo gozo insubmisso à significação, extraído do exílio, da diáspora, das guerras, que desenham na dimensão da História uma cartografia de gozo;
  • o sinthome que se apresenta como possibilidade de nomeação, edípica ou não, que faça frente às injunções do discurso capitalista que prescrevem nomeações genéricas que sustentam o sujeito na posição alienada e submetida à demanda do Outro, determinando concretamente o destino do sujeito, instaurando uma “ordem de ferro” com efeitos catastróficos.

 

Assim, a psicanálise tomada pela mão de Joyce, nos ensina sobre a possibilidade herética de fazer frente às determinações significantes de um Outro e da História, mobilizando para isso as marcas de real da língua que afetam o corpo em um gozo sem sentido, a despeito da gramática de significação do Império. É através deste encontro da lalíngua que conjura no corpo os fantasmas recalcados pela História e pela determinação significante das lógicas de poder, que o sujeito, enquanto falasser, pode fazer disso seu nome singular, seu sinthome, herdado edipicamente ou não, como uma objeção aos nomes genéricos do pior dados pelo discurso do capitalista. É curioso então que seja sob um contexto de exposição colonial, em relação à língua e ao corpo, determinada por um outro – igreja, família ou estado -, que Lacan nos apresenta a dimensão herética e política do sinthome, através da lalíngua e do falasser. Articulada pela mão de Joyce, Lacan subverte a psicanálise.

Neste sentido, a psicanálise, descentrada pela própria colonialidade de Joyce, pode servir às discussões decoloniais e pós-coloniais, apresentando as estratégias e táticas de resistência ao discurso do capitalista através da mobilização do resto, dos fantasmas, do inapropriável. Para se decolonizar é preciso a heresia de recusa à nomeação determinada pela lógica colonial e capitalista. E é exatamente isso que a psicanálise pode ofertar na tarefa em parceria com os movimentos sociais e políticos. Assim, é pela mão de Joyce, um sujeito colonial, que Lacan atualiza Freud e prepara a psicanálise para a nova ordem chamada Império.²⁴


 

Christiane Matozinho é psicanalista, mestre em Fundamentos Teóricos e Filosóficos da Psicologia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), doutoranda em Estudos Psicanalíticos pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), membro do @PSILACS/UFMG.

 

 

¹Jorge Luis Borges, “Conferencia sobre James Joyce. Universidad Nacional de La Plata, 1960”, Variaciones Borges, n. 45, 2018, pp. 207-220.

²Ian Parker, “English identity, Ireland and violence”, in Psychoanalytic Mythologies. Londres: Anthem, 2009.

³Sérgio Medeiros e Dirce Waltrick do Amarante (Orgs.), James Joyce, De santos e sábios: escritos estéticos e políticos. São Paulo: Iluminuras, 2012, p 11.

⁴Declan Kiberd, Inventing Ireland. Londres: Jonathan Cape, 1995.

⁵Sérgio Medeiros e Dirce Waltrick do Amarante (Orgs.), James Joyce, De santos e sábios: escritos estéticos e políticos. São Paulo: Iluminuras, 2012, p. 184.

⁶James Joyce, Um retrato do artista quando jovem. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 291.

⁷Jacques-Alain Miller, “Intuições Milanesas I”, Opção Lacaniana online nova série, ano 2, nº 5, jul. 2011, pp. 01-15.

⁸Antonio Negri, Multidão: guerra e democracia na era do Império. Rio de Janeiro: Record, 2005.

⁹Vladimir Safatle, “Sofrimento psíquico e transformação social”, Epistemologia das Ciências Humanas, 2020. Disponível em <https://www.academia.edu/43568085/Sofrimento_psi_quico_e_transformac_a_o_social_curso_integral_ 2020_.>

¹⁰Franz Fanon, “A família argelina”, África, São Paulo. v. 33-34, 2013/2014, pp. 121-139. Disponível em <https://www.revistas.usp.br/africa/article/view/115366/113019>.

¹¹Jacques Lacan, O Seminário, livro 23: O sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.

¹²James Joyce, Retrato do Artista quando Jovem. Rio de Janeiro: Ediouro. 1987, p. 252.

¹³Edna O’Brien, “Recharging the Canon: Towards a Literary Redefinition of Irishness”, in Helen Thompson (Ed.), Having our own Field Day: Essays on the Irish Canon. New York: Edwin Mellen Press, 2005.

¹⁴Richard Ellmann, James Joyce. New York: Oxford University Press, 1982/1965, p. 559 (tradução nossa).

¹⁵James Joyce, Finnegans Wake por um fio. Tradução, organização e notas por Dirce Waltrick do Amarante. São Paulo: Iluminuras, 2018.

¹⁶Derek Attridge e Daniel Ferrer, Post-structuralist Joyce: Essays from the French. Cambridge: University Press, 1984, p. 559.

¹⁷Seamus Deane, Finnegans Wake. London: Penguin classics, 2000, p. 08.

¹⁸James Joyce, Retrato do Artista quando Jovem. Rio de Janeiro: Ediouro, 1987.

¹⁹Jacques Lacan, “Joyce, o Sintoma”, in Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p. 565.

²⁰Jacques Lacan, O Seminário, livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985, p. 63.

²¹Colette Soler, Lacan, leitor de Joyce. São Paulo: Aller, 2018a.

²²Ibid, p. 26.

²³Colette Soler, Rumo à identidade. São Paulo: Aller, 2018b.

²⁴Antonio Negri, Multidão: guerra e democracia na era do Império. Rio de Janeiro: Record, 2005.