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Lendo os mortos de Gaza: Musha’ como mentalidade (Philip Rizk)

Mohammad Kuhail e sua irmã gêmea, Yosra, brincam sobre túmulos no cemitério Sheikh Shaban. As crianças, que ganham pequenas quantias levando água para cerimônias fúnebres, vivem perguntando aos pais quando poderão sair do cemitério. [Mohammed Salem/Reuters]

 

A tradução desse texto compõe o projeto editorial construído em uma parceria entre o coletivo desorientalismos, a n-1 edições e o Núcleo Psicanálise e Laço Social no Contemporâneo (Psilacs) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Uma seleção de textos que aborda a Questão Palestina em um diálogo com a Psicanálise e outras áreas do conhecimento, como a História, Filosofia, Sociologia e Saúde Mental.


 

Estou tentando ler os Mortos durante a aniquilação da vida, planejada e em curso, na chamada Faixa de Gaza, na Palestina. Me acompanha o ensaio de Denise Ferreira da Silva, “Lendo os mortos: Uma leitura poética feminista negra do capital global”¹. Ali escreve a filósofa: “a carne ferida expõe a violência total como um meio que assegura o lucro e sua acumulação por meio da apropriação do valor total, isto é, que o capital global não consiste em nada mais do que a capacidade produtiva expropriada dos corpos escravizados e das terras indígenas” (2020, p. 43). Tenho sempre em mente que não existem dois contextos iguais — o genocídio em curso na Palestina, que se desenrola há mais de dois séculos, não é o mesmo do longo passado das comunidades indígenas das Américas, com mais de 500 anos de genocídio e escravidão. Na Palestina, meu foco é nas terras indígenas, onde a recuperação vital da terra só pode ser libertadora se a relação que os humanos outrora tiveram com essa terra for criticamente reivindicada. Enquanto busco dar lugar às consequências materiais e psicológicas da tentativa de Israel de aniquilar a vida na Palestina, especialmente em Gaza, quero também identificar o potencial radical da Vida por meio do ato de escutar os Mortos que jazem em suas terras.

Em seu ensaio, Silva se baseia em categorias teóricas críticas introduzidas pela crítica literária Hortense Spillers em seu ensaio “Mama’s Baby, Papa’s Maybe”, escrito no verão de 1987, meses antes da Intifada Palestina abalar o projeto de colonização sionista em seus alicerces:

Mas, nesse caso, eu faria uma distinção entre “corpo” e “carne” e imporia essa distinção como a central entre as posições de sujeito cativo e sujeito libertado. Nesse sentido, antes do “corpo” existe a “carne”, esse grau zero de conceitualização social que não escapa ao ocultamento sob o pincel do discurso ou dos reflexos da iconografia (…) Se pensarmos na “carne” como uma narrativa primária, então nos referimos à sua carne queimada, dividida, dilacerada, presa ao buraco do navio, caída ou “escapada” ao mar (Spillers, 1987, p. 67).

Spillers criou a categoria da “carne” porque se viu incapaz de teorizar o horror das vidas negras vividas sob colonização, escravização e assassinato — um momento em que, como ela escreve, “a linguagem sucumbiu” (Spillers, 2007).

Hoje, mais uma vez, a linguagem sucumbe.

Após passar semanas na Faixa de Gaza como voluntário, o cirurgião Ghassan Abu Sitta pergunta: “onde se enterra a perna de um menino?”. Ele descreve o funcionamento de uma das armas ilegais de Israel: “as queimaduras de fósforo penetram profundamente no corpo, pois, como substância química, continuam queimando até que não haja mais contato com o oxigênio”. Em janeiro de 2024, alguém na Cidade de Gaza disse: “Eles nos seguem até o túmulo, mesmo depois de estarmos mortos”. Relatos detalham soldados invasores abrindo sepulturas para roubar corpos ainda quentes; em outros locais, tratores militares israelenses destroem sepulturas, deixando rastros identificáveis ​​em imagens aéreas. “Nos últimos 435 dias, vi um cadáver todos os dias. Tenho ouvido os gritos dos pais todos os dias. Vejo a carne de crianças todos os dias” — escreveu o jornalista Hossam Shabat². “Os cães retiraram um corpo de uma das sepulturas e comeram”, conta Rehab Abu Daqqa, que vive com seus filhos em uma tenda perto de um cemitério em Rafah. Enquanto o roubo flagrante de terras palestinas na Cisjordânia por parte de Israel aumentou exponencialmente desde 7 de outubro de 2023, seu colaborador, a Autoridade Nacional Palestina, envia suas forças de segurança para esmagar a resistência palestina, matando tanto combatentes quanto civis³. “Eles roubam um pouco da nossa própria carne”, diz um morador de Jenin, referindo-se às autoridades locais. Mohamed el-Kurd inicia uma palestra com um disclaimer: “Não haverá debate enquanto houver carne em chamas”.

 

“Identidade desconhecida” inscrita em uma sepultura na Faixa de Gaza, 2025. Foto: Fotógrafo desconhecido

 

Como falar — como escrever — sobre a dor, a agonia, o medo, o desespero, a solidão, o choque, a fome, a dor, a dor, a dor, o desprezo dos centros de poder mundiais em sua plena aprovação de tudo isso? O que fazer diante da postura deles de desculpar, defender, encobrir, financiar e armar o perpetrador?

Pois se a carne carrega, como marca/sinal, a violência colonial, a carne em decomposição dos mortos devolve essa marca ao solo, e os mortos permanecem então na própria composição de tudo, sim, como matéria, matéria-prima, que nutre os instrumentos de produção, a força de trabalho e o próprio capital. É assim que o escravizado/nativo morto vive no/como capital (Silva, 2020, p. 43).

A carne dos palestinos marca a ferida aberta da aniquilação contínua e intencional da vida na Palestina — que persiste mesmo durante um cessar-fogo — o que se vincula não apenas a um colonialismo de povoamento, mas também ao capital global. Esses processos de assassinato indiscriminado, mutilação e roubo de carne — de sequestro e tortura de corpos — são permitidos porque servem ao capital global. A erradicação da vida na Palestina beneficia a indústria global de armamentos e, simultaneamente, serve como um campo de testes descarado para suas tecnologias mais recentes⁴. Quase uma reflexão tardia são os campos de gás ainda inexplorados na costa de Gaza, que as multinacionais estão prontas para devorar — provavelmente já drenados há anos pelas perfurações israelenses nas proximidades — para continuar sustentando as indústrias vorazes do capital nos centros de poder cúmplices da aniquilação.

 

دون أن يودّع أحداً
ولا حتى لحمه

e não se despediu de ninguém
nem mesmo de sua carne

 

Assim escreve Refaat Alareer⁵. O exército israelense assassinou o poeta e educador em sua casa, junto com sua família, provavelmente porque, dias antes, em um programa de televisão ao vivo, ele havia comparado a revolta do Gueto de Varsóvia com o operação Dilúvio de Al-Aqsa, a qual alguns chamam de “a Grande Intifada”⁶ — rompendo com uma fronteira colonial imposta e abrindo o imaginário para a possibilidade de Retorno⁷. Alareer ecoa o argumento do psiquiatra militante Frantz Fanon sobre a legitimidade da violência revolucionária em resposta à brutalidade colonial implacável. Esse argumento, já um clichê, só continua relevante nas câmaras de eco da autossuficiência neocolonial⁸. No entanto, o ato de resistência e, em última instância, de libertação não se limita à quebra inicial da barreira colonial e à travessia dos palestinos de volta às suas terras roubadas, mas, desde a devastação absoluta que se abateu sobre os habitantes de Gaza, representa a vontade radical e contínua do povo de viver, respirar, buscar alimento, cozinhar, estudar, cavar em busca de vivos e mortos sob os escombros, de mães amamentando os bebês de outras mães assassinadas, de médicos operando os feridos sem suprimentos vitais, cuidando dos doentes; cada ato heroico, e os heróis, protagonistas de uma narrativa de libertação em toda a Palestina e ao longo das fronteiras ainda em expansão de Israel⁹.

 

Marcas de escavadeira visíveis em túmulos no Cemitério de Falouja, Jabalya, Norte de Gaza, 1 de outubro de 2024. Foto: Maxar

 

Nadera Shaloub-Kevorkian identifica a carne ferida como reveladora de algo mais, uma tendência libertadora no ato de buscar ashlaa’ — a carne do corpo dilacerado — de estranhos e entes queridos. Para a criminologista palestina, ashlaa’ é “tanto um sinal de extrema violência e terror, quanto uma recusa a essa desumanização genocida”, enquanto aqueles que buscam e falam de ashlaa’ estão poderosamente “usando sua própria linguagem e sintaxe árabe, produzindo sua própria morfologia”¹⁰. Esses atos de resistência encenam “a arquitetura do corpo dilacerado como uma fonte de poder contra a violência do racismo antipalestino e da supremacia sionista”, por meio dos quais, escreve ela, “os habitantes de Gaza recusam o desmembramento físico e social, escolhendo, em vez disso, o caminho da reunificação real e epistêmica através da coleta e unificação do ashlaa’… [e, assim,] conectam o passado e o presente, os vivos e os mortos”.

Essa leitura desafia e rompe com certas normas do senso comum. Diante da brutalidade indizível do genocídio, uma leitura dos Mortos deve implicar uma “recusa em se envolver, em manter o pensamento dentro dos limites (…) do pensamento moderno” (Silva, 2020, p. 42)¹¹.

 

Na luta revolucionária, a morte não é derrota¹²

Musha’ como mentalidade

 

Só quando nos desvencilharmos dos nossos próprios compromissos com o paradigma liberal — só quando deixarmos de nos deixar levar pelas suas afirmações absurdas — é que poderemos perguntar: o que significam os mortos de Gaza, a ashlaa’ dos palestinos, para a libertação vindoura — a libertação de todos nós?¹³ Para venerar os mortos é preciso romper radicalmente com o presente da modernidade, buscando sinceramente “a destruição das instituições preexistentes” — a razão de ser da guerra de guerrilha, uma busca pelo “fim do mundo como o conhecemos, o que implica ouvir os mortos” (Dedijer, 1968; Silva, 2022, p. 48). Aqueles que se solidarizam com os palestinos, mesmo vivendo fora da Palestina, devem aproveitar o privilégio de não serem consumidos pelo olho do furacão e agir de acordo com a premonição de que “o inimigo jamais se retira sinceramente” (Silva, 2022, p. 42)¹⁴.

O que os mortos de Gaza vêm dizendo?

O ato de recusa diante da máquina de matar genocida, o ato de persistência, o fluxo de habitantes de Gaza de volta para seus lares quase totalmente destruídos no Norte — é um ato de desafio e devoção à terra. Os vivos e os mortos de Gaza personificam a cosmologia do sumud, uma ligação à terra. A prioridade dos colonizadores, por outro lado, sempre foi a apropriação de terras, o que, necessariamente, implicou a transformação violenta das relações comunitárias dos povos com a terra em uma relação de propriedade¹⁵. O jurista e nazista Carl Schmitt (2006, p. 46) escreveu sobre esse ato colonial: em todos os casos, a apropriação de terras, tanto interna quanto externa, é o título jurídico primário que fundamenta toda a legislação subsequente. Tal como em outros locais, aplica-se também na Palestina, onde a “transformação da ‘Palestina’ na ‘Terra de Israel’ por omissão colonial implicou a expropriação de terras”, uma vez que os sionistas acreditavam que “depois da transferência dos árabes, o país estará totalmente aberto para nós (…) Não se deve deixar uma única aldeia ou tribo sobrar” (Jabotinsky, 1923)¹⁶. Se o princípio fundamental do empreendimento colonial é a expropriação de terras — como Schmitt expôs —, uma prática que ainda ocorre hoje na expansão de Israel por todo o país, seja no norte de Gaza, na Cisjordânia, no sul do Líbano ou no sudoeste da Síria, então a descolonização deve certamente incluir o desmantelamento dessa expropriação e, crucialmente, implicar o desmantelamento da mentalidade que essa expropriação impõe.

Se alguém ouvir com atenção suficiente, poderá distinguir ancestrais em todo o mundo falando da necessidade de desfazer a relação com a terra que os colonizadores impuseram para tornar possível a expropriação: a propriedade privada, que causa a separação entre os humanos e a terra através da destruição dos bens comuns da terra, na Palestina e arredores.

O termo ard musha’ é usado de forma diferente em cada região do antigo Império Otomano, referindo-se a diversos sistemas de distribuição de terras; é ao entendimento dominante que irei me referir aqui¹⁷. Para muitas pessoas na região, ard musha’ antes identificava “a comunidade (…) como guardiã do direito de produzir (ou seja, de subsistir) ao qual cada membro tem direito em virtude de parentesco ou residência”. Trata-se de um sistema de gestão coletiva fora do regime de direitos liberais¹⁸. A terra Musha demarcava uma relação social dentro da comunidade e com a própria terra, reverberando por toda a Terra, “Para todos, tudo”. Al-ard al-musha’ é fundamentalmente anticapitalista, como devem ser as nossas lutas, ao mesmo tempo que realinha as relações humanas com a Terra, contrariando o impulso do capital para a expansão infinita, sendo certamente um defensor da almejada aniquilação da Vida na Palestina¹⁹. Al-ard al-musha’ foi um obstáculo crucial para a missão de colonização e à sua pretensão de progresso. O fim do colonialismo deve implicar a devolução das terras roubadas, mas extinguir completamente a chama do colonialismo exige o desmantelamento da ideologia imposta de propriedade privada (Quiquivix, 2013, p. 11).

 

Parte do mapa cadastral (escala 1:30 000) da aldeia musha’ de Maallaqa (Biqa’), retirado de James Long Whitaker, A União de Deméter com Zeus: Agricultura e Política na Síria Moderna, tese de doutorado não publicada, Universidade de Durham, 1996.

 

Em 1º de janeiro de 1994, o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) irrompeu no cenário político mexicano em resposta à tentativa final de desmembrar suas terras comunais (ejidos), uma luta contínua que começou com a chegada dos conquistadores espanhóis em 1519, mas só atingiu seu ápice com a privatização dos ejidos restantes pelo governo neocolonial mexicano, como pré-requisito para a adesão do país ao Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta, na sigla em inglês), que entraria em vigor naquele dia de Ano Novo (Reyes, 2015, p. 413; Kelly apud Quiquivix, 2024, p. 41). Assim, em 1º de janeiro de 1994, o EZLN ocupou cidades no sul do México e queimou documentos do registro de terras do Estado. O primeiro ato político do EZLN foi devolver o ejido à gestão comunitária, recuperando-o do capital que procurava concluir a tarefa de transformar terras comunitárias em propriedade privada. Mais tarde, nesse mesmo ano, o EZLN publicou a “Segunda Declaração da Selva Lacandona”, que incluía as palavras que Silva aborda em seu ensaio:

De frente para a montanha, conversamos com nossos mortos para que eles nos revelem, em suas palavras, o caminho que nossos rostos velados devem seguir. Os tambores ressoaram e, na voz da terra, nossa dor se fez ouvir, e nossa história também.

“Para todos, tudo”, dizem os nossos mortos. “Enquanto isso não acontecer, nada haverá para nós”.

 

No 500º aniversário da chegada de Colombo às Américas — que desencadeou séculos de colonização e exploração europeias —, um homem derruba a estátua do inquisidor Diego de Mazariegos em San Cristóbal, México. Foto: Antônio Turok

 

Trinta anos depois, após lutas contínuas com o Estado pela posse da terra, bem como reflexão e consulta com seus anciãos, os zapatistas chegaram à conclusão de que, apesar de sua natureza comunitária, o ejido permanece dentro da lógica do Estado, porque “a propriedade comunitária (…) só existia se fosse registrada e que, com as mesmas leis… [o Estado pode] diminuí-la até que desapareça”²⁰. Consequentemente, o EZLN defendeu a categoria crítica de “não-propriedade”, fora do âmbito do Estado. Embora o Império Otomano, em seus últimos anos, tenha buscado eliminar a propriedade coletiva, era fraco demais para implementar a decisão e, contrariamente aos desejos dos oficiais, as terras musha’ se expandiram, atingindo cerca de 70% do território da Palestina no momento da ocupação britânica²¹. Sob o domínio otomano, as terras que se enquadravam na categoria “musha’” eram consideradas propriedade de Deus, que no Império era representado pelo Sultão, e que por sua vez as conferia às comunidades como seus administradores coletivos. Até a tentativa fracassada do Império Otomano e a chegada dos colonizadores, ard musha’ existia fora do regime liberal de propriedade do moderno Estado-nação. “Devemos ter cuidado para não reificar a noção de al-musha”, escreve a antropóloga Martha Mundy, “a questão não é um sistema uniforme de posse da terra, mas uma forma de os agricultores pensarem as relações dentro da aldeia, com o fisco e com a terra, em termos de partilhas”²². Isso pode enfraquecer a aplicabilidade do termo como um conceito fixo para se opor à lógica do colonialismo, mas isso só ocorre se continuarmos a operar sob o domínio sufocante do funcionamento da modernidade. Al-ard al-musha’ oferece uma relação com a terra e um conjunto de estratégias, não um conceito totalizante, precisamente porque não se submeteu às categorias jurídicas do Estado moderno, fortalecendo assim ainda mais sua aplicabilidade como uma mentalidade para combater a privatização, a separação entre humanos e terra, bem como o próprio Estado, o guardião dessa separação. Quando musha’ se torna uma mentalidade, permite que nossa “imaginação política aprenda a prescindir” das regras do pensamento moderno, um passo crucial rumo à descolonização, defendendo não a implementação de ard musha’ como um sistema fixo em um retorno arcaico ao passado, mas sim a aceitação da espiral do tempo por meio da reavaliação de práticas passadas para o presente²³. Na Palestina, isso implica em preservar materialmente a terra da ocupação sionista, conceitualmente do projeto colonial britânico anterior e, crucialmente, também mantê-la longe das elites/classe dominante de um almejado Estado palestino²⁴ . O que os zapatistas ensinam é que essa coletivização da terra fora do alcance do Estado é “necessária para poder enfrentar a tempestade — a forma da natureza de protestar, cada vez mais alto e cada vez mais terrível” contra a semeadura de “escuridão, morte e destruição” da modernidade. O ataque do ocupante sionista continua aniquilando a Vida, seres de todos os tipos, humanos, animais, plantas, árvores e, por fim, o solo²⁵. Israel atribuiu um novo significado ao ato colonial de “terra arrasada”, incluindo a destruição até mesmo da demarcação colonial de terras privatizadas — nas áreas de suas incursões mais profundas, removendo toda e qualquer vestígio de árvores de alfarroba que servia de fronteira — Gaza, assim, demarca um recomeço (Quiquivix, 2013). Uma destruição com a missão: “Para nós, tudo”.

Em contraposição a isso, o “Para todos, tudo”, defendido por uma mentalidade musha’, representa a impensável transformação da destruição em possibilidade radical. O que fazer com as terras que outrora pertenciam a famílias, e que foram brutalmente devastadas pelo ocupante sionista? Em 21 de janeiro de 2025, o número dessas famílias era estimado em 2092. “Para todos, tudo” — tornar isso comum. A terra destinada à comunidade como musha’ é uma afronta ao esforço de colonização de todos os tipos, sendo a decomposição da carne dos mártires a responsável pela renovação da terra. No México, a luta pela posse da terra comum tem oscilado ao longo de mais de 500 anos e, desde 1994, as comunidades estão novamente coletivizando as terras. Tornar a terra musha’ é um ponto de partida para se preparar para o fim da colonização da Palestina, porque ela chegará ao fim, como todos os colonialismos: é apenas uma questão de tempo²⁶. Sob a tirania do pensamento moderno, a descolonização na Palestina é incompreensível. No entanto, depois que os palestinos romperam os muros coloniais e retornaram à sua terra ancestral — ainda que temporariamente — no dia 7 de outubro de 2023, a descolonização tornou-se mais imaginável do que nunca.

“Do rio ao mar”, sussurram insistentemente os Mortos de Gaza, “tudo para todos”. Antes do estabelecimento de um Estado supremacista judeu em 1948, os habitantes da Palestina, independentemente da sua fé, viviam lado a lado; antes da ocupação britânica em 1914, a maioria dos habitantes da terra, e a própria terra, viviam livres do mito da propriedade privada. Do rio ao mar” expressa uma noção que não é nacional, mas decolonial. “Do rio ao mar” articula relações radicais entre todos os seres, incluindo os humanos e a terra. “Do rio ao mar” transmite a necessidade de redefinirmos nossas bússolas — todas elas.

 

Pós-escrito, maio de 2026

Este texto foi concluído durante um breve cessar-fogo em Gaza no inverno de 2025. Apesar do mais recente acordo de cessar-fogo, atores estatais e não estatais israelenses continuam dizimando vidas na Palestina. Na segunda-feira, 11 de maio de 2026, o parlamento israelense aprovou uma lei que determina que todos os palestinos considerados participantes dos ataques de 7 de outubro serão julgados por um tribunal militar, que determinará a execução pública por enforcamento de qualquer pessoa considerada culpada. Isso revela mais uma dimensão do assassinato contínuo de vidas palestinas por meios judiciais, sistematicamente e sancionados pelo Estado.

Entretanto, outra mudança está ocorrendo na reação aos recentes ataques brutais e ilegais dos EUA e de Israel contra o Irã. A cada dia, a cada hora, um realinhamento geopolítico vai se consolidando e continuará afetando a realidade na Palestina e na região circundante, representando uma ameaça significativa às narrativas ocidentais de supremacia. Os iminentes julgamentos-espetáculo de palestinos não salvarão o projeto sionista diante da arrogância de seus líderes e de seu povo. A quebra de sistemas antigos implica uma abertura. É necessária uma visão para a vida palestina que se baseie no passado, mas que seja revigorada para o presente. Uma visão que serve de exemplo para o mundo.

Glória aos mártires
المجد للشهداء


 

O autor agradece a Linda Quiquivix, Denise Ferreira da Silva e Marwa Arsanios pelos comentários sobre as versões anteriores deste trabalho. 

 

Philip Rizk é um cineasta e escritor do Cairo radicado em Berlim. Realizador dos filmes Out on the Street (2015, codirigido com Jasmina Metwaly), Land Listening (2024), Mapping Lessons (2020), Terrible Sounds (2022) e Terror Tales (2024). É editor do livro Neocolonialism & its Dismantling (no prelo), que coloca a obra Os condenados da terra, de Frantz Fanon, em diálogo com as revoluções ocorridas na região de língua árabe nos últimos 15 anos. 

 

Texto original publicado em 11 de junho de 2016 em: https://www.internationaleonline.org/contributions/reading-the-dead-of-gaza-musha-as-mentality/. Reprodução sob licença Creative Commons: https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/4.0/ 

 

Tradução e revisão: coletivo Desorientalismos

 

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Trujillo, Simón Ventura. Land Uprising: Native Story Power and the Insurgent Horizons of Latinx Indigeneity. Tucson: University of Arizona Press, 2020.

 

 


¹ Enquanto finalizo este texto, um instável cessar-fogo entrou em vigor. Os bombardeios podem até cessar, ou pelo menos serem significativamente reduzidos, mas todos os elementos para a eliminação contínua da vida palestina foram postos em prática: a destruição de 92% das casas; a destruição da maioria dos hospitais, disseminando doenças e, crucialmente ignorado, a destruição de fontes de água potável e terras agrícolas na Faixa de Gaza — a aniquilação da vida foi posta em curso para os próximos anos. O efeito de 85 mil toneladas de bombas em uma área de 365 km² não cessa quando o bombardeio termina. Em relação ao número de mortes, a revista The Lancet apresentou uma estimativa muito mais provável do que a feita pelo Ministério da Saúde em Gaza ou qualquer número divulgado pelo agressor, afirmando que, até 19 de junho de 2024, a máquina de guerra israelense havia matado 186 mil palestinos em Gaza. Esse número é muito maior do que a maioria dos relatos atuais, em parte porque leva em consideração as mortes causadas não apenas por munição direta, mas também aquelas causadas pela destruição (totalmente intencional) de infraestrutura ou pela indisponibilidade de alimentos. Os números continuam subindo, sendo ainda muito maiores (ver Khatib et al. 2024). Optei por evitar o uso da terminologia de genocídio, não porque não acredite que Israel, juntamente com seus aliados globais, esteja deliberadamente matando na Palestina “um grande número de pessoas de uma nação ou grupo étnico específico com o objetivo de destruir essa nação ou grupo” (definição do termo no Dicionário Oxford), mas porque mesmo o debate em torno de tais atos de impunidade, dentro da linguagem do genocídio, mantém uma visão eurocêntrica do mundo, na qual toda eliminação de vidas e tentativas de eliminá-las são medidas apenas em comparação com experiências reconhecidamente perpetradas por atores europeus. Os crimes passados ​​da Europa não se limitam ao genocídio da Shoah, nem atingiram seu ápice nesse evento; portanto, debater se o assassinato em massa e a intenção de aniquilar vidas se enquadram na categoria de genocídio apenas perpetua o mito da singularidade do Holocausto. O intelectual judeu antifascista Franco Fortini escreveu durante a guerra de 1967: “Muitos porta-vozes da chamada ‘cultura’ do Ocidente buscaram interpretações extra-históricas e metapolíticas e rapidamente acabaram por colocar o massacre dos nazistas no registro do ‘sagrado’, considerando-o obra do Mal em Si Mesmo, basicamente aceitando, ao mesmo tempo que inverte seu conteúdo, um dos mitos centrais do misticismo nazista — a pureza ou purificação através do holocausto (…) uma ‘fixação’ do nazismo em formas mitológicas (…) e se beneficiaram, no fim, de suas formas atípicas, isto é, as igualmente ferozes do imperialismo moderno” (Fortini, 2013 [1967], p. 56). Sobre a construção da categoria “Faixa de Gaza”, ver Abu Sitta, 2024.

² Do original escrito por Hossam Shabat na rede social X em 15 dez. 2024: “For the past 435 days, I’ve seen a dead body every single day. I’ve heard the screams of parents every single day. I’ve seen the flesh of children every single day. All this horror will change you, and I will never be the same”. Em 24 de março de 2025, militares israelenses mataram Shabat, de 23 anos, depois de tê-lo colocado em uma “lista de alvos”. Shabat foi o 206º jornalista morto pelo exército israelense desde o início do genocídio.

³ Sobre a problemática da Autoridade Palestina, ver nota de rodapé 24.

Para saber mais, ler: “Companies Profiting from the Gaza Genocide”, “Small Defense Firms See Big Gains as War Drives Massive Investments”; ver por fim a refutação de Salman Abu Sitta.

Refaat Alareer, no poema “If I must die”, 14 dez. 2023, Cidade de Gaza.

“Grande Intifada” é uma referência ao historiador Abdelqadir Yassin. 

 Ver HajYahia, 2024; e Salman Abu Sitta, “I Could Have Been One of Those Who Broke Through the Siege on October 7”. É também Abu Sitta — inimigo número um do Estado alemão por minar o contrato tácito (o da Alemanha em particular e do “Ocidente Cristão” em geral) de reparar os crimes passados ​​da Alemanha apoiando incondicionalmente os crimes presentes de Israel — quem delineou como tal retorno pode ser possível. Para contrariar a ameaça ao projeto colonial sionista da possibilidade do retorno, criou-se e amplificou-se o discurso dos homens palestinos, em particular dos membros do Hamas, como predadores sexuais, a fim de justificar todos os assassinatos que se seguiram — esta não é uma avaliação da ocorrência real de estupros no dia 7 de outubro, mas faz uma reflexão sobre o discurso que emergiu — espelhando o desgastado tropo colonial do homem negro estuprador, culpado ou não; ver também Philip Rizk, Terror Tales (2024). Essa prática se torna ainda mais insidiosa à medida que surgem inúmeros relatos sobre o uso sistemático de violência sexual contra prisioneiros palestinos como forma de tortura em prisões israelenses, onde a violência sexual é uma das várias formas documentadas de tortura sistemática contra detentos palestinos em prisões israelenses, como afirma a Comissão Internacional Independente de Inquérito sobre o Território Palestino Ocupado, incluindo Jerusalém Oriental, e Israel. Aqui também volto a Hortense Spillers, quando rretorna ao ensaio de 1987: “Eu estava tentando (…) encontrar um vocabulário que tornasse isso possível, e não completamente sozinha (…) e não encontrei nenhum que estivesse imediatamente disponível. Ou a linguagem sucumbiu (…) Que a história do povo negro era algo que você podia usar como uma nota de inspiração, mas nunca algo que tivesse a ver com você — você nunca poderia usá-la para explicar algo em termos teóricos” (Spillers et al., 2007). É nesse momento que nos encontramos hoje, e por isso é crucial que desmascaremos os clichês usados ​​para legitimar a tentativa sionista em curso de aniquilação da vida na Palestina, ao mesmo tempo que encontremos uma linguagem para falar, em termos teóricos, da legítima resistência palestina. (Nota de rodapé foi atualizada em maio de 2026).

Ver Fanon (1963). Sobre essa equação fundamental que Jean-Paul Sartre não conseguia admitir para si mesmo devido ao egocentrismo da Europa, ver Bouteldja, 2017. Ver também Abdeljawad Omar; Nasser Abourahme. Sobre a violência revolucionária contra a violência colonial, ver a análise crítica de Jean Genet.

Ver o vídeo publicado nas contas do Instagram e Telegram do Al-Quds Al-Bawsala (7 out. 2023, por HajYahia, 2024. Patrick Taylor (1989/2006) identifica a importância de “atores humanos tomarem consciência de seu envolvimento criativo na história” como uma afronta à desumanização que justifica os atos dos perpetradores, como o conto mítico que busca manter os colonizados sob a ordem do colonizador. Um exemplo poderoso da forma cotidiana de resistência é o do agricultor Yousef Abu Sagger; em uma postagem por ele compartilhada, Youssef está visitando seus amigos Salah e Nasr, que estão se preparando para plantar em um campo que os israelenses bombardearam com um míssil F-16. Sem acesso a máquinas pesadas para arar a terra, eles usam um método palestino chamado bazouk, no qual preparam um caminho ao longo das laterais da cratera deixada no solo pelo míssil. Duas semanas antes, os militares israelenses alvejaram especificamente as terras de sua família mais uma vez, bombardeando e arrasando o local, e duas semanas depois da gravação desse vídeo, os militares israelenses enviaram um drone atrás de Youssef, que estava cuidando de suas terras, assassinando o agricultor a sangue frio. Após sua morte, sua família relembrou uma frase que ele frequentemente repetia: “Plantar sementes não é apenas um ato; é uma declaração de resiliência”. Aqui, é importante ouvir os protagonistas do dia a dia; no dia do anúncio do cessar-fogo, uma mulher de Gaza diz: “Gaza está dentro de nós, nós somos aqueles que resistiram: nós somos aqueles que perseveraram. Nenhuma conquista é devida a ninguém, nenhum líder, nenhum funcionário, nenhum país”. Sobre a expansão das fronteiras, ver “Israel Isn’t Leaving Syria: Settlement Plans Signal a Permanent Land Grab”; “Israel Orders Thousands of Lebanese Not to Return to Border Area”. As comunidades do sul do Líbano, no entanto, continuam resistindo. Ver “West Bank: record amount of land stolen by Israel. More acres annexed since Oct. 7 than in 30 years”.

¹⁰ Ver texto de Nadera Shaloub-Kevorkian, “Ashlaa’ e o genocídio em Gaza: produzir vida vivível¹ contra a carne fragmentada”. Agradeço a Denise Ferreira da Silva pela referência a esse texto crucial.

¹¹ Em outro trecho, Silva identifica como “os pilares do pensamento moderno que sustentam o domínio da razão tornam as palavras dos Mortos incompreensíveis (…) essa incompreensibilidade também expõe como a razão transcendental não foi capaz de compreender tudo” (p. 43-44). Assim, ela chega à conclusão de que “infelizmente, minha afirmação é incompreensível”, e aqui também devemos celebrar essa incompreensibilidade como um ato de desafio aos pilares da modernidade (p. 45).

¹² Ver a contribuição de Ruth Wilson Gilmore ao painel “Life and Death Beyond the Boundary”, em 2024. Esta é uma forma de raciocínio que se encontra novamente no canto popular dos revolucionários sudaneses: شهدائنا ما ماتوا … عايشين مع الثوار [Os nossos mártires não morreram… ​​eles vivem dentro dos revolucionários].

¹³ Isso implica o reconhecimento da narrativa palestina “como um drama de desafio, persistência e autodeterminação” — como escreveu Edward Said no prefácio de A Questão da Palestina, citado recentemente por Budour Hassan, que acrescentou — “a fim de formar sua subjetividade radical”. Para entender por que a Palestina é necessária para a libertação de todos os povos, ver Quiquivix, 2024.

¹⁴ Ver Fanon, 1967 [1961], p. 196. Fanon escreveu este artigo dias após o assassinato de seu amigo Patrice Lumumba, um evento que marcou o momento fundador da violência neocolonial. Ver Rizk, Neocolonialism and its Dismantling, a ser lançado em 2027.

¹⁵ Essa dinâmica não é de forma alguma única da Palestina ou da região. Para outros exemplos críticos, ver Leigh, 2009 e Trujillo, 2020.

¹⁶ É importante notar que Jabotinsky é o precursor ideológico do atual ministro israelense Bezalel Smotrich e do ex-ministro Itamar Ben-Gvir; ver também Yosef Weitz, diretor do Fundo Nacional Judaico, entrada do diário de 19 dez. 1940, referenciada no filme de David Koff, Palestina ocupada (1991).

¹⁷ O termo árabe ard musha’ não é universal nem uniforme, e ainda há muita pesquisa a ser feita. Ver Mundy & Smith, 2007. A forma aparentemente dominante de posse de terras comuns envolvia regras de distribuição de terras que podiam variar de aldeia para aldeia, com rotações de terras ocorrendo a cada um a cinco anos, mas implementadas de forma diferente em todo o antigo Império Otomano. A forma flexível de musha’ al-ard tinha como objetivo impedir a alienação de terras a estranhos e fomentar a cooperação na aldeia (ver El-Eini, 2006, p. 289; Quiquivix, 2013; Arraf, 1996. É fundamental identificar uma tendência comum no distanciamento dos revolucionários urbanos em relação ao campo. Um exemplo é Ghassan Kanafani (2023 [1972])., que, embora reconheça a importância dos camponeses na resistência à colonização durante a revolução de 1936, não menciona o papel crucial que a privatização desempenhou na tomada de suas terras É fundamental lembrar que essa separação entre o ser humano e a Terra era uma estratégia anterior à colonização e, após o sucesso dos movimentos de libertação nacional, continua sendo praticada por regimes neocoloniais locais (ver Silva, 2016). Considere exemplos vizinhos como a Tunísia, onde o Estado reinou supremo, seja no início da era ‘pós-colonial’, seja mais recentemente após a revolução de 2011, na experiência do oásis de Jifna (ver Fouad Ghorbali, “Tunisia: The State and Its Nationalized Lands’, As-Safir Al-Arabi, 3 out. 2022, assafirarabi.com). Aqui, precisamos aprender a desenvolver uma nova linguagem que possa acompanhar uma reinvenção tão radical.

¹⁸ Ya’akov Firestone, ‘The Land-Equalizing Musha’ Village: A Reassessment’, G. Gilbar (ed.), Ottoman Palestine, 1800–1914: Studies in Economic and Social History, Leiden: Brill, 1990, p. 109–10.

¹⁹ Ver Oliveira, 2021, p. 6. Escute também Ruth Wilson Gilmore, ‘Make no mistake, it’s capitalism that we’re after’, warscapes, Instagram, 30 abr. 2025, instagram.com.

²⁰ Assim responde um camponês à pergunta de quem é aquela terra: “O governo é dono da terra, nós apenas a tomamos emprestada para nos sustentarmos” (ver minuto 19:16). Ver também Quiquivix, 2024, p. 80.

²¹ El-Eini, Mandated Landscape, p. 291, apud Noura Alkhalili, ‘Enclosures from Below: The Mushaa’ in Contemporary Palestine’, Antipode v. 49, n. 5, 21 mar. 2017, p. 6.

²² Martha Mundy, ‘Qada ‘Ajlun in the Late Nineteenth Century: Interpreting a Region from the Ottoman Land Registry’, Levant, v. 28, 1996, p. 84, 87. Em outro contexto, Mundy (1994) identifica como “sistemas [que] bloqueiam a imposição de impostos agrícolas e como estratégias para a minimização do risco na produção agrícola por meio da distribuição equitativa e rotação da terra”, sistemas que são “recursos, bem como relações sociais”. Ver também Quiquivix, 2013, p. 8. Sobre “separação” ver Silva, 2016.

²³ Esta obra tenta uma “leitura poética feminista negra” que “retrata o mundo como tendo sempre sido diferente da sua representação moderna” (Silva, 2022, p. 48). Sobre “tempo espiral”, ver Martins, 2026. Essa mudança em direção à terra como musha’, no entanto, não satisfaz a descolonização como “a exigência de nada menos que o retorno do valor total expropriado e produzido pela capacidade produtiva das terras indígenas e dos corpos escravizados” (Silva, 2022, p. 40-41).

²⁴ As elites palestinas se identificaram mais estreitamente com o ímpeto capitalista do projeto sionista desde o início, “incorporando seus interesses à classe da burguesia judaica” (Kanafani, 2023/1972, p. 3). Nas negociações dos Acordos de Oslo, as elites palestinas, de forma traiçoeira, negociaram o direito de retorno em troca de sua pseudo-autoridade estatal; posteriormente, alguns lucraram com a venda de cimento subsidiado do Egito para Israel, para a construção do muro divisório que, de fato, roubou ainda mais terras (ver Erakat et al., 2023, p. 77–81). Durante o genocídio em curso na Faixa de Gaza, essa mesma pseudo-autoridade estatal chamada Autoridade Nacional Palestina fez parceria com os genocidas para prender e matar forças de resistência palestinas em cidades sob sua jurisdição. Aqui, a reflexão adicional de Silva sobre a descolonização é esclarecedora: “Porque o capital global é capital pós-colonial, isto é, vive do valor gerado pela capacidade produtiva das terras indígenas e dos corpos escravizados, de modo que o fim das lutas anticoloniais, a descolonização, só será alcançado se a linha que separa o presente colonial do passado colonial for apagada, porque esta é a única maneira de se apoderar do futuro colonial” (Silva, 2020, p. 47). Ou, mais simplesmente, como perguntam os zapatistas: “Para que serve uma casa como esta?” (EZLN, 2016, p. 3). Como o caso do México comprovou de forma definitiva, dando continuidade a um legado colonial, é o governo mexicano que tenta desferir o golpe final nas terras comunais. Da mesma forma, a África do Sul oferece um estudo de caso para a libertação nacional, mas não para a descolonização — o colonialismo foi substituído pelo neocolonialismo. Enquanto durante o apartheid 80% das terras pertenciam a colonos brancos, no censo de 2017, 72% eram propriedade de homens brancos. Em contrapartida, 92% da Palestina foi tomada por colonos sionistas. Ambas as lutas pela libertação continuam até que “a linha que separa o presente colonial do passado colonial seja apagada”. Ou até que a reivindicação seja atendida: “Terra para plantarmos alimentos e vivermos nela. Assim podemos esquecer o passado”. Parte de honrar os mortos é não esperar que as elites autóctones determinem a forma de libertação, uma vez que ela terá sido conquistada por todos. Sobre as armadilhas do neocolonialismo, tal como Fanon identificou, um sistema partilhado entre forças externas e internas, ver Rizk et al., Neocolonialism and its Dismantling, no prelo.

²⁵ Em um relatório de junho de 2024, a Forensic Architecture constatou que, entre outubro de 2023 e junho de 2024, aproximadamente 83% de toda a vegetação em Gaza foi destruída; cerca de 70% das terras agrícolas de Gaza, ou seja, 104 km² (de um total de 150 km²) de campos e pomares, foram destruídos; mais de 47% dos poços de água subterrânea e 65% dos reservatórios de água foram destruídos ou danificados; e nenhuma das instalações de tratamento de esgoto em Gaza permaneceu intacta ou funcional. Assim, o juiz decide, para pôr fim à disputa entre as duas mulheres que alegavam ser a mãe da criança, que a criança será dividida ao meio, cabendo a cada mãe uma metade. A verdadeira mãe cede imediatamente e diz que a criança deve ser entregue à outra mulher para poupar sua vida. Assim, o juiz conclui que aquela mulher é a verdadeira mãe, pois nenhuma mãe concordaria com o fim da vida de seu filho — ver 1 Reis 3:16-27. E assim acontece com a terra da Palestina em Gaza; apenas um grupo devasta a terra, numa tentativa de aniquilação de todas as formas de vida nela, revelando suas verdadeiras cores: não é o guardião da terra.

²⁶ Sobre o fim de Israel, ver Khaled Odetallah, Shir Hever (video); Pappé, Shir Hever; Mtanes Shihadeh. Pensar além do colapso é fundamental para tentar evitar um retorno ao status quo, atentando para o aviso: “O sionismo está enfrentando um impasse, mas não há garantia de que isso constituirá uma vitória para nós” (Hashem Abushama).