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Manifesto por uma psicanálise decolonizada (Andréa Guerra)

Este manifesto nasce do movimento psicanalítico em elipse decolonial – mais que em giro. Sua raiz é o encontro da psicanálise com corpos subalternizados e seus modos inconscientes de ocupação. Corpos negros na metrópole, aquilombados no Sul Global, transgêneros nas conquistas jurídicas, organizados nos desastres ecológicos, pacifistas nas guerras tribais, indígenas em preservação de suas terras, denunciantes na cena violenta doméstica, em luta nos motins e chacinas, migrantes e ribeirinhos em terra natal, apátridas pelo avanço tecnológico, resistentes de telas.

Descentrados, eles se tornam visíveis pela equação equante. Ponto deslocado em relação ao centro que traça o movimento errante de um corpo – e não seu movimento regular e fixado pelo discurso homogeneizante. Uma órbita elíptica em relação a uma órbita circular. Clínica de bordas. A elipse, ao produzir mínimos movimentos, desloca o próprio centro.

Revela o poder que antes obturava o lugar vazio como olhar que monta a cena em perspectiva. Gozo escópico da arrogância do ponto zero. Desde a desmontagem desse plano especular, ponto de onde o movimento de sobreposições e contenções não é mais encoberto, a obscenidade salta aos olhos. Outro plano subterrâneo de leitura das vísceras, do jorro, da carne, se autoriza.

Fora do centro, se complexificam as perspectivas hierárquicas das linhas abissais. O mapa vermelho da violência no sul global desbota o peso imperial. Em perspectivismo, caça e caçador se veem desde outra humanidade nesses pronomes cosmológicos que não os contêm. Nem detêm. A escala de grandeza dos seres deixa a ver todo corpo em combustão. Multinaturalismos. A psicanálise arde em sua leitura-escolta.

As violações invertem-se nas esquinas globais. O pretenso complexo de dependência do colonizado, desmontado, mostra o esqueleto neoliberal do gozo civilizatório predatório. O fardo do homem branco imperial mostra o lucro que ele carrega. O susto do encontro com a fabricação do Outro, único ser inexistente com um corpo, desvela seu sadismo originário. A psicanalista suleia, enegrece, kizomba. A-bunda-m novos significantes e outros modos de dialetos e de regozijos.

Desde então, o olhar e a voz, objetos-veículo de gozo, se somam à pele e ao cabelo. Seio, falo, ânus. Língua e buracos. O narcisismo primário e secundário se triplicam num espelho cisheteropatriarcal e racista que se deseja norma universal. Ver e, ao mesmo tempo ser visto, síncope imagética. Desmontagem. O discurso do mestre capitalista imperial é corrompido por seu avesso colonial. O sinthoma introduziu o “h” da questão: uma língua colonizada imiscuída da brutalidade do colonizador. Encriptam-se a história e a geo-política na estrutura inconsciente.

Epistemicídios de saberes em terras plurais, plantation da egologia divina, assepsia e branqueamento do olhar que pretende tudo ver – menos a si mesmo –, disfarçado de neutralidade. Águas caudalosas de regimes sexistas e generificados fabricaram canais de prazer e códigos tecnocráticos fizeram crer no desvalor atribuído aos saberes, subjetividades, seres e poderes que, desde sempre, habitaram terras originárias.

Entre ser uma deusa ou uma ciborgue, perguntamos por que não um orixá Obaluaê ou uma outra trindade una: Brahma, Vishnu e Shiva? Tupã, Jaci e Guaraci teriam vivido um complexo de Édipo? Como pensar a unidade e sua impossível coesão num eu habitado por tantos furos e corrompido por tantos ideais? Como fazer ver o gozo que escorre no corpo pelas tramas da linguagem colonial? Como disjuntar em sua relação moebiana natureza e cultura? Como pensar o sintoma, a norma simbólica e a língua que dão carne e forma aos discursos que domesticam gozo? Como desamar suas vestes imperiais?

O confronto necessário de psicanalistas com a herança colonial descentrou sua obediência civil. Nosso agora movimentou sua estrutura epistêmica, ontológica, sexual e afetou sua práxis. Decidimos enterrar com dignidade cada corpo irmão assassinado. Um véu se levantou quando a subalterna falou e foi escutada, quando o oriental não mostrou seu turbante e quebrou o espelho, quando a indígena não cedeu de sua tez e guardou o direito a sua terra vermelha, quando a funcionária doméstica entrou pelo elevador social e requereu seus direitos trabalhistas, quando a sexualidade saiu dos manuais diagnósticos, quando as nações ao controlarem suas fronteiras foram denunciadas em sua falácia.

Elipses decoloniais engendraram outras dispersões no território da psicanálise. A terra e o sol no heliocentrismo, o homem e o primata no darwinismo, a razão e o inconsciente na psicanálise. Nome de feridas narcísicas. A elas acrescentamos o imperialismo e as raças. Desalinhadas pelas quebradas da periferia, quarto golpe. A peste avança. Enquanto houver o que manca, o que não cabe e o que se fabrica, a psicanálise irá se recriar. Fora do regime das hegemonias – já em crise.

A psicanalista com seu corpo sobre a tela experimentou outra materialidade do gozo. Letra, rasura, litoral, sulco, significante, gíria, meme, imagem. O objeto subtraído da cena decodifica o padrão em ato. Não há como voltar ao antes. O tempo se mostrou manobra neoliberal. Primitivos eternos do passado, lançados incondicionais ao progresso, inibidos do imediato. Os sujeitos ganham qualidades temporais num corpo volatizado pelo monitor. A presença do analista na praça e no celular, carregado no bolso, radicaliza sua condição de equivocidade.

“Pai, não vês que estou queimando?”, um sonho, um pesadelo. Quem é o pai? De qual incêndio estamos falando? O que arde, dói e arrasa um corpo-filho? Qual corpo foi morto? Por quem? Como? Quando o real toma a cena e se imiscui no simbólico não é mais possível imaginarizar uma cena descolada do mundo.

A mancha entra na linha de frente nesse assalto à mão armada de um povo inteiro. O corpo em chamas foi um indígena em uma calçada brasileira, um corpo árabe na primavera, uma estátua durante o protesto. A psicanálise, com seu corpo vivo, estava lá, e não apenas como testemunha. Poesia para fazer fixão.

Arsenal de guerra, objeto-arma, corpo em composição. Somos muitas na frente de batalha da guerra transversal do cotidiano. E sabemos de que lado estamos. Não jogamos, porém, o bebê com a água do banho fora. Nós o lavamos, antes mesmo do pai, em lama, mar, rio e sal. O real não cede e o inconsciente arma suas defesas, assente com o desejo e resiste à normalização que faz sacudir suas escrituras.

Ler, escutar, intervir, se pronunciar, participar, denunciar, tomar posição e partido. Decolonizar. Verbos infinitivos porque em descontinuidade. A clínica, inundada. O caminho, na encruzilhada. A escuta, carta-letra. A psicanálise, incomodada.

Esse manifesto não fagocita porque não destrói. Fundante e afundante. Busca desalojar semblantes e realocar os termos no simbólico para ler o inconsciente real. Canibaliza e em-corpora. Whiteless. Segue o fluxo gozoso do corpo, inadestrável e retumbante de um modo de ser Um, não sem o Outro. Aposta ética do devir psicanalítico na falta de horizonte de nosso doravante. Não ficaremos por aqui hoje.

 

deferências bibliográficas (canibalizadas)*

frantz fanon, aimée césaire, sigmund freud, enrique dussel, aníbal quijano, santiago castro gómez, jacques lacan, sojourner truth, bell hooks, oyèrónkẹ́ oyěwùmí, donna haraway, paul b. preciado, jacques-alain miller, kalpana seshadri-crooks, glen sean coulthard, éric laurent, boaventura de sousa santos, achille mbembe, anne mcclintock, silvia federici, grada kilomba, eduardo viveiros de castro, rita laura segato, lélia gonzalez.


 

Andréa Guerra é doutora em Teoria Psicanalítica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) com Études Approfondies em Rennes II (França), mestre em Psicologia Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), professora adjunta do Departamento e da Pós-Graduação em Psicologia da UFMG, onde coordena o @psilacs. Psicanalista, Psicóloga e Bacharel em Direito.