Relação tóxica entre Israel e EUA caminha para o ponto de ruptura em meio à guerra (Gideon Levy)
Ao fim dessa guerra perdida, desponta uma esperança. Frágil, escrita no gelo: pode se converter em desastre — assim como a própria guerra —, mas ainda assim é esperança. Nesses dias de desespero, seria pedir demais esperar mais do que isso.
A guerra pode provocar uma revolução decisiva nas relações entre Estados Unidos e Israel. O que existia não voltará a ser. Enquanto Israel se orgulha da cooperação entre os dois países e da aliança de pilotos forjada nos céus de Teerã, nuvens escuras se acumulam no horizonte. Quanto mais evidente for o fracasso da guerra, quanto mais claro se tornar que os EUA se enredaram nela sem fazer ideia de como sair, maior será o jogo de acusações.
E esse jogo será claramente unilateral. Os EUA colocarão toda a culpa sobre Israel. Isso poderá desencadear um efeito dominó entre outras nações que só esperam a chance de romper o vínculo entre americanos e israelenses. Quando o fogo diminuir, Israel poderá se ver numa situação inédita: uma Coreia do Norte no Oriente Médio. Um país isolado, pária, sem o apoio dos EUA — apoio sem o qual ele simplesmente não existe.
O vínculo doentio entre os dois deveria ter sido cortado há muito tempo. Sem uma base lógica de interesses comuns, ele jamais teria durado tanto. Com os anos, o jogo de papéis tornou-se cada vez mais confuso, a ponto de não se saber mais qual dos dois é a superpotência. Israel fez o que bem entendeu, desafiando pedidos explícitos dos EUA e agindo contra os próprios interesses — e, ainda assim, enormes quantidades de ajuda fluíram incondicionalmente.
Nos dias do amargo inimigo dos Estados Unidos, Benjamin Netanyahu — que desafiou os EUA mais do que qualquer outro premiê —, essas relações atingiram proporções monstruosas. Um primeiro-ministro minou presidentes americanos, e seu país não sofreu consequências. Barack Obama, por exemplo. Assentamentos, anexações, guerras atrozes em Gaza e no Líbano, pogroms, apartheid, genocídio — e os EUA condenaram. Condenaram e pagaram. Condenaram e vetaram. Condenaram e garantiram a ponte aérea com armamento.
A Europa foi forçada a engolir e a não tomar nenhuma medida — mesmo depois de Gaza — por medo dos EUA. Agora, ela só espera a oportunidade para se vingar de Israel. O mesmo ocorre com amplos setores da opinião pública americana, inclusive dentro das comunidades judaicas. Todos já estão mais do que fartos deste Israel: do seu constante desrespeito à comunidade internacional, do seu desprezo pelo direito internacional, da diferença incompreensível entre a opinião pública na maioria dos países e a posição de seus governos.
A guerra contra o Irã pode ser um divisor de águas. Nos dois partidos americanos, só se aguarda a brecha que deve se abrir. O primeiro a lançar a culpa será Donald Trump. O sinal será dado, e a virá. Ela pode ser devastadora — mas também pode empurrar Israel para uma mudança positiva.
O rompimento do vínculo incondicional entre EUA e Israel pode tornar-se a esperança — a única disponível — se dele surgir uma mudança profunda na política israelense. Essa mudança não virá sozinha. Israel não vai acordar um dia e dizer a si mesmo que a ocupação, o apartheid e suas guerras intermináveis precisam acabar, e que é preciso ouvir o mundo. Somente o rompimento com os EUA pode provocar isso. Aqui também reside o perigo de que a criança — que já não é mais criança — seja jogada fora junto com a água do banho global.
É difícil imaginar Israel manobrando sem os EUA. Os fanfarrões da direita estão convencidos de que Israel não precisa dos EUA, mas a realidade lhes esbofeteará o rosto. De repente, não haverá armas, dinheiro nem veto no Conselho de Segurança. E então? Daniela Weiss vai nos proteger? Itamar Ben-Gvir vai conseguir um veto na ONU? Os “rangers” dos colonos vão dirigir até Teerã?
Esse dia está mais próximo do que todos os participantes do desfile de insanidade israelense imaginam. E então Israel finalmente terá de decidir: um Israel diferente, ou não Israel.
Gideon Levy é renomado jornalista do jornal israelense Haaretz, onde esse texto foi publicado originalmente.