Estamos em guerra, logo existimos (Orly Noy)
Meses depois de proclamar uma “vitória histórica”, Israel embarca em outra ofensiva contra o Irã — e o ritual de apagamento da dissensão política recomeça.
A sirene rompeu o silêncio da manhã de sábado em Israel. Não para instar civis a correrem para os abrigos, mas sim para anunciar a eclosão da guerra em si — quase como uma fanfarra triunfal. Após mais de uma semana de incerteza angustiante, divididos entre a tensa antecipação de uma guerra que nos disseram repetidamente ser inevitável e as tênues esperanças de que a diplomacia ainda pudesse prevalecer, finalmente ela tinha chegado.
“Não se pode entrar no mesmo rio duas vezes”, diz o ditado do antigo filósofo grego Heráclito. Mas aparentemente você pode destruir um inimigo que você já declarou destruído. Há apenas oito meses, após o cessar-fogo com o Irã, o Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu declarou que “nos 12 dias da Operação O Leão Levantado, alcançamos uma vitória histórica, que perdurará por gerações”.
Acontece que essa “vitória histórica” não durou nem um único ano, muito menos gerações.
Desta vez, o ataque veio com um objetivo adicional: libertar o povo iraniano do governo opressivo dos aiatolás. Pois é bem sabido que um dos papéis centrais de Israel no Oriente Médio é fazer chover a liberdade sobre os povos da região com caças e bombardeiros.
De repente, as vidas iranianas tornaram-se muito queridas aos corações israelenses; tão queridas que eles estão dispostos a passar longas noites em abrigos antiaéreos, sabendo que enfrentarão pesadas baixas de seu próprio lado, desde que nossos pilotos tragam boas notícias de liberdade — ou pelo menos o assassinato da liderança do Irã e a destruição da infraestrutura da Guarda Revolucionária e das instalações nucleares.
“Nossa operação criará as condições para que o corajoso povo iraniano tome seu destino em suas próprias mãos”, tuitou Netanyahu pouco depois do início do ataque. “Chegou a hora de todas as partes do povo do Irã — persas, curdos, azeris, balúchis e ahwazis — se livrarem do jugo da tirania e promoverem um Irã livre e que busca a paz.”
O mesmo homem que, mais do que qualquer outro na história de Israel, trabalhou incansavelmente para colocar cidadãos uns contra os outros, para incitar e inflamar, para despertar ódio sem precedentes entre eles; o homem que tem um mandado de prisão internacional pendente sobre sua cabeça por crimes contra a humanidade — este homem agora expressa preocupação com a unidade do povo iraniano e sua luta contra a tirania. Poderia ser cômico se não houvesse tantas vidas em jogo.
O povo iraniano está travando uma luta corajosa e inspiradora por sua liberdade. A comunidade internacional tem ferramentas diplomáticas e econômicas para auxiliá-los sem repetidos ataques aéreos que prometem pouco em termos de mudança duradoura. Aplaudir o ataque israelense-americano é abraçar uma ordem global canibal em que a força sozinha define a moralidade.
Ao celebrar a guerra, os israelenses estão celebrando esse sistema: um mundo em que o valentão define as regras. Por enquanto, eles podem sentir-se aliviados de que o valentão está do seu lado.
O coro familiar
Mas a retórica da solidariedade dissolveu-se quase tão rapidamente quanto apareceu. Assim que começaram a surgir relatos de baixas civis — especialmente da escola primária para meninas em Minab, onde cerca de 150 crianças foram mortas em um aparente ataque aéreo israelense — a suposta preocupação com o povo iraniano revelou-se frágil como papel.
Chocada, compartilhei os vídeos da escola na minha página do Facebook. Confesso que não esperava a torrente de ódio que se seguiu.
Eu já sei que, exceto por uma minoria muito restrita, não se pode esperar reações empáticas ao assassinato em massa de palestinos; que a esmagadora maioria do público judeu em Israel não só não lamenta, mas se alegra abertamente com cada morte palestina, em quaisquer circunstâncias. Mas não imaginei que semelhante sede de sangue acompanharia o bombardeio até a morte de meninas em uniformes escolares, particularmente depois que tantos israelenses se apressaram em declarar que não era o povo iraniano o nosso inimigo, mas o regime.
Em cinco horas, minha postagem acumulou centenas de comentários odiosos, e a usual onda de ameaças e abusos começou a bombardear minha caixa postal. Alguns negaram que o incidente tivesse ocorrido, ou alegaram que o regime iraniano bombardeou sua própria escola. Uma parcela maior regozijou-se com o destino das meninas assassinadas.
“Pena que não fecham as escolas no Shabat!”, escreveu alguém, adicionando cinco emojis de risada para sublinhar seu prazer. “Excelente, excelente, excelente, alegre e animador. Que haja muito mais casos como este, e em breve entre os esquerdistas”, escreveu outro.
Não menos deprimente, e previsível, foi como os líderes da oposição judaica se alinharam pronta e reflexivamente junto a Netanyahu em apoio à guerra. “Quero lembrar a todos nós: O povo de Israel é forte. As FDI e a Força Aérea são fortes. O poder mais forte do mundo está conosco”, tuitou Yair Lapid. “Em momentos como estes, ficamos unidos — e vencemos juntos. Não há coalizão nem oposição, apenas um povo e umas FDI, com todos nós atrás deles.”
Até Yair Golan, que deveria marcar o limite mais à esquerda do espectro sionista como presidente do partido Os Democratas, manteve uma contenção educada e ofereceu apoio total à guerra. “As FDI e as forças de segurança estão operando com força e profissionalismo”, escreveu. “Eles têm nosso total apoio.”
Naftali Bennett, o principal candidato a substituir Netanyahu nas próximas eleições, ficou atrás de seus colegas porque teve que esperar o fim do Shabat para tuitar. Assim que terminou, ele prontamente se alinhou ao esforço de guerra. “Apoio total às FDI, ao governo de Israel e ao primeiro-ministro pela Operação ‘Leão Rugidor’. Todo o povo de Israel está atrás de vocês até que a ameaça iraniana seja destruída”, declarou.
Para estes três homens — Lapid, Golan e Bennett — nenhuma tarefa é supostamente mais urgente do que substituir o governo ensanguentado e kahanista de Netanyahu, que levou o país a abismos sem precedentes. Eles entendem o quão perigoso ele é. Eles conhecem a devastação que outro mandato traria.
No entanto, no momento em que o cheiro da guerra enche o ar, todas essas percepções evaporam, substituídas por uma reverência automática à máquina de guerra israelense. É como se a própria ideia de que uma guerra pode ser contestada simplesmente não existisse em seu quadro cognitivo.
Ninguém entende esse mecanismo melhor do que Netanyahu. Por mais precária que seja sua posição política, ele sabe que unir até seus rivais mais ferrenhos em todo o espectro sionista está a apenas um clique de distância. Se “em tempo de guerra não há coalizão nem oposição”, então a guerra perpétua torna-se sua estratégia política mais confiável — e ele aprendeu a implantá-la com frequência crescente.
Netanyahu é um criminoso de guerra cínico e perigoso. Mas uma coisa não pode ser negada: Nenhum líder israelense compreendeu tão profundamente a psique coletiva da sociedade judaica israelense. Uma sociedade que parece ser capaz de sentir seu próprio pulso apenas na guerra e na destruição; que, se não está atacando, destruindo e matando, não tem certeza absoluta de que
existe. Nesse sentido, Netanyahu se encaixa perfeitamente nela.
Publicado no Local Call em 1º de março de 2026
Orly Noy é editora do Local Call, ativista política e tradutora de poesia e prosa persa. É presidente do conselho executivo do B’Tselem e ativista do partido político Balad.