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Visão racializada do colonizado e o objeto olhar: Fanon com Merleau-Ponty e Lacan (Mônica Assunção Costa Lima)

O objetivo do texto é aprofundar a análise das experiências vividas pelo negro, relatadas por Frantz Fanon no capítulo 5 de Pele negra, máscaras brancas, iluminando-as com as contribuições de Merleau-Ponty e Lacan sobre as noções de sujeito, objeto, visão e olhar.

Vislumbramos a luz lançada pelas elaborações do livro O visível e o invisível, sobre a problemática ali discutida por Fanon, que frequentou as aulas de Merleau-Ponty na Universidade de Lyon. Não podemos afirmar que Fanon tenha de fato considerado tal teoria quando escrevia o capítulo do livro, mas como toda obra publicada está endereçada ao leitor, tomamos a liberdade de estabelecer algumas relações entre os dois textos.

No livro O visível e o invisível Merleau-Ponty constrói conceitos para uma ontologia do sensível, que tem o corpo como o elemento primordial da percepção. Trabalha com categorias que não se encerram na díade mente-corpo, mas explora ambiguidades como fato-essência, interior-exterior, aparente-real, criticando de forma contundente a intersubjetividade. Rompe com a perspectiva de uma consciência fechada que se torna uma ilha, um mundo privado que só pode ter certeza de sua existência através da auto-confirmação.

Já Lacan, influenciado pelo pensamento de Merleau-Ponty, propõe, no Seminário XI, a cisão entre o olho e o olhar, além de propor o olhar como uma das formas do objeto pequeno a.

Isso posto, vejamos como as passagens de Fanon em Pele negra, máscaras brancas podem ser analisadas a partir das referências acima citadas. 

Destaco os fragmentos abaixo:

 

“Preto sujo!” Ou simplesmente: “Olhe, um preto!”

Cheguei ao mundo pretendendo descobrir um sentido nas coisas (…) e eis que me descubro objeto em meio a outros objetos.

Enclausurado nesta objetividade esmagadora (…) no novo mundo o outro, através de gestos, atitudes, olhares, fixou-me como se fixa uma solução com um estabilizador. Explodi. Aqui estão os farelos reunidos por um outro eu.¹

 

Depois tivemos de enfrentar o olhar branco. Um peso inusitado nos oprimiu (…). No mundo branco, o preto encontra dificuldades na elaboração de seu esquema corporal (…) Em torno do corpo reina uma atmosfera de incertezas.²

 

(…) o esquema corporal atacado em vários pontos. Desmoronou, cedendo o lugar a um esquema epidérmico racial (…). Onde situar-me? Onde meter-me? Olhe um preto!…Mamãe, um preto!³

 

Meu corpo era devolvido desancado, desconjuntado, demolido (…)⁴

 

Nas frases de Fanon, ele descreve como o ser do colonizado se molda, se modifica, ganha consistência ou se apaga, na relação com o colonizador, que o percebe, o ouve, e o vê. Isto é, o corpo e o Eu do preto são tomados no âmbito das experiências vividas no sensível, que não devem ser, aqui, entendidas relacionadas aos órgãos do sentido, e, sim, aos objeto pequenos a.

Uma das referências para se pensar o olhar como uma das formas do objeto a é o livro O visível e o invisível de Maurice Merleau-Ponty⁵, em que este discute as condições de possibilidade do sujeito e da experiência. O filósofo pretende responder à questão considerando o que precede o advento do sujeito e da experiência. Ele quer saber o que é o homem antes do duplo advento do sujeito e do objeto, e interroga o fundo de natureza inumana sobre o qual o homem se instala.

Merleau-Ponty faz referência ao terreno do pré-subjetivo e do pré-objetivo, que preocupou Freud em textos como o “Projeto para uma psicologia científica” e “O mal-estar na cultura”, nos quais evoca a indiferenciação originária entre o Eu e o mundo.

A questão do pré-subjetivo e do pré-objetivo é justamente o que Lacan retoma na construção do conceito de objeto a. Podemos compreender o interesse de Lacan por Merleau-Ponty, devido ao fato de este ser um pensador que afirma o corpo como fonte da experiência, como o meio formador do objeto e do sujeito⁶, e o faz sem recorrer a qualquer consideração biológica ou antropológica. ⁷

O filósofo formula algo essencial para Lacan e para compreendermos as experiências às quais Fanon se refere, a saber, a ideia de uma pré-história do sujeito antes da estruturação tanto deste quanto do objeto. ⁸ Antes da constituição do campo do sujeito e do objeto, existiria algo que já determina a relação com o mundo: o corpo. Corpo que ainda não estabeleceu uma relação de exterioridade com o mundo, e que o pensador designa como “carne”, indicando, com essa denominação, a existência de algo que antecede a ordem do humano. É anterior à distinção entre o objeto sensível e o sujeito que experimenta o mundo. Vem antes da distinção entre o visível e aquele que vê.

Lacan, no Seminário XI, introduz seus ouvintes, na perspectiva de Merleau-Ponty, ao dizer que seu intuito é reconstituir a via pela qual surge da “carne” o ponto original da visão. Ele busca uma substância inominada de onde eu mesmo, aquele que vê, me extraio. ⁹ Nessa aula, Lacan se refere a diversos trechos de O visível e o invisível, em que Merleau-Ponty afirma que o corpo que vê é também visto. De um lado, o corpo faz parte das coisas sensíveis (uma vez que é visto), de outro, experimenta o mundo, pois o vê, bem como seus objetos.

Com efeito, é assim que Merleau-Ponty sustenta que o ato da visão reúne as coisas percebidas e o corpo que percebe. ¹⁰ Na interpretação de Lacan, o ponto de interseção entre os dois registros destacados (o registro do corpo que faz parte das coisas sensíveis e o registro do corpo que experimenta o mundo) prefigura algo do objeto pequeno a; prefigura, mais exatamente, sua dupla pertinência à ordem do mundo e à ordem do sujeito.

Essa ideia tem a ver com a concepção lacaniana de que o objeto a é aquilo que cai entre o Outro e o sujeito, sem pertencer nem ao campo do sujeito, nem ao campo do Outro. 

A topologia do corpo que vê e ao mesmo tempo é visto, apresenta-se como o verso e o reverso. Merleau-Ponty fala da dobradura daquele que vê sobre o visível, bem como da dobradura do visível sobre aquele que vê. A carne, elemento pré-subjetivo, dobrando-se sobre si mesma, torna-se aquele que vê, visível, e se constitui, no mesmo movimento, como o visível que vê. ¹¹

A leitura de Lacan, inspirada por Merleau-Ponty, pretende mostrar que o objeto a, como olhar, não é a visão, e, si esse ponto de interseção entre o olho que vê e, ao mesmo tempo, é visto. O objeto a é o objeto não objetivável que sustenta a visão, já que a possibilidade de ver se funda na dobradura do visível sobre aquele que vê e vice-versa, razão pela qual Lacan enfatiza a distinção entre o olho (a visão) e o olhar em que se manifesta a pulsão no campo escópico. ¹² 

O interessante é que o olhar, como elemento de interseção entre o olho que vê e ao mesmo tempo é visto, foi igualmente deduzido por Freud em sua gramática das pulsões proposta na em “As pulsões e suas vicissitudes”. ¹³ Nessa gramática, o psicanalista vienense usa a perversão como modelo para examinar dois destinos da pulsão: 1) a reversão a seu oposto e 2) o retorno em direção ao próprio eu. Ao se referir ao par sadismo e masoquismo, Freud demonstra o circuito da pulsão do seguinte modo: parte da instância ativa “ele tortura” e chega à forma passiva “ele é torturado” ou “ele se faz torturar”. Quanto ao par escopofilia e exibicionismo, diz que os tempos são estes: “ele olha”, “ele olha a si mesmo” e “ele é olhado” ou “ele se faz olhar”. ¹⁴ 

Além disso, Freud sugere uma discrepância entre a pulsão escópica e o sadismo. No caso da pulsão escópica, é possível reconhecer um estádio anterior à instância ativa “ele olha”, já que, ao iniciar sua atividade, ela é auto-erótica. Possui um objeto, mas este é parte do corpo do sujeito. Só mais tarde a pulsão, levada por um processo de comparação em que se envolve o sujeito, troca esse objeto por uma parte do corpo de outra pessoa. 

Assim, a fase preliminar auto-erótica da pulsão escópica constitui a fonte de ambas as transformações sofridas posteriormente pela pulsão: tanto a transformação de atividade em passividade quanto o retorno ao próprio eu.

Aqui, interessa-nos destacar o fato de que Freud afirma que a pulsão é obrigada a satisfazer as três lógicas simultaneamente. A transformação por reversão da atividade para a passividade ou por um retorno em direção ao eu, segundo o psicanalista, nunca abarca a totalidade da pulsão. A direção ativa da pulsão persiste ao lado de sua direção passiva ulterior, de modo que todas as fases de desenvolvimento da pulsão coexistem. ¹⁵ 

Nota-se que, nesse modo de funcionamento da pulsão, é possível reconhecer a perspectiva indicada por Merleau-Ponty, qual seja, a topologia do olho que vê e ao mesmo tempo é visto.

Aliás, na opinião de Lacan, Merleau-Ponty apreende perfeitamente essa lógica reflexiva bipolar em que “eu me vejo vendo”, algo que nos indica que sempre vemos de fora. ¹⁶

Tendo sido situada a concepção freudiana da gramática da pulsão escópica, e a distinção lacaniana do olho e do objeto olhar, inspirada nas experiências clínicas com a psicose e na obra de Merleau-Ponty, passemos à problematização dessas noções na experiência do preto sendo visto pelo branco na França.

O que percebemos nos relatos de Fanon é que a imagem do preto, que se torna o centro da cena na França, provoca angústia tanto no preto, quanto no branco. Do lado do preto, ele se vê sendo visto pelo branco e há claramente a suspensão de sua identificação à imagem ideal. O olhar do branco faz surgir um excesso que retorna sobre a imagem corporal, desarranjando-a. 

Surge o desconforto com o próprio corpo e a própria imagem: “queria me livrar deste corpo, queria ser apenas homem”. Esse é o indicador do retorno, na imagem, de um real perturbador que o simbólico fracassa em regular. É o signo de um gozo irredutível ao princípio do prazer manifestando-se na imagem ideal, que parece surgir tanto do lado do branco quanto do lado do preto. Damos a este real o estatuto de objeto a, com base na função que este desempenha nas experiências de angústia. Ambos se angustiam, o branco ao vislumbrar o preto e o preto ao encontrar o olhar do branco.

No Seminário X, Lacan assinala que o olhar está sempre presente nas manifestações de angústia. O modelo proposto por ele para exemplificar essa hipótese encontra-se na peça de Sófocles, onde Édipo arranca seus olhos. Édipo quis desvendar sua história e acabou vendo algo que não pôde suportar. Nos termos de Lacan, trata-se da emergência de um olhar impossível que olha para o sujeito. Os olhos arrancados, agora fora das órbitas, ainda olham para ele. Trata-se do protótipo da angústia: ser olhado pelos próprios olhos arrancados, mas que ainda olham. ¹⁷

De acordo com o que discutimos até aqui a partir das contribuições de Merleau-Ponty e da gramática pulsional freudiana, é possível dizer que neste paradigma de Édipo, o objeto pequeno a, como olhar, aparece na dobradura do que é visível sobre o olho que vê, fazendo irromper a angústia. Isto é, a situação descrita por Fanon evidencia o fato de que quando olhamos, somos também olhados.

Sabemos que a imagem especular ideal, o eu ideal, é envoltura de gozo, ponto de capitonagem particular de gozo. Por isso, quando o objeto olhar rompe, tal envoltura emerge como excesso. Fanon experimenta uma espécie de opressão e sente seu corpo desmoronar.

O objeto a, que perfura a imagem, pode aparecer como um olhar que observa o sujeito. A sensação de um corpo desancado é o simulacro de uma experiência psicótica, quando algo retorna no real.

A envoltura do gozo pela imagem especular, ordenada pelo ideal do eu, tem como uma de suas funções apagar o objeto olhar. É a identificação narcísica, como nos lembra Lacan, que permite ao homem situar sua relação imaginária e libidinal em relação à realidade em geral. ¹⁸

Para que a realidade se torne objetiva, é necessário que esta esteja desinvestida de libido, ou seja, é preciso que haja uma cisão entre a visão – realidade sem gozo – e o olhar – campo escópico que inclui o gozo.

Para Lacan, esse desinvestimento libidinal é a operação de extração do objeto, necessária para que a realidade se torne um deserto de gozo. Em outros termos, para que haja uma visão “objetiva”, o olhar deve ser um objeto que falta à realidade.

Quando o campo perceptivo não está esvaziado de libido, produz-se no sujeito o efeito de que as coisas o olham. Os brancos olham o preto, de fato, mas o que, aí, está em jogo não é a visão, mas o olhar, seu objeto imanente. 

O olhar, que deveria estar apagado do mundo irrompe como gozo não regulado pelo invólucro imaginário e pelo ideal do eu. Trata-se de um gozo para além do princípio do prazer, para além do júbilo experimentado na identificação do infans à imagem ideal. Essa é a razão pela qual diante da irrupção do objeto olhar, o sujeito definido como falta-a-ser desaparece e é reduzido ao objeto. O preto então vive experiências de “não ter resistência ontológica”, “de um peso inusitado opressor”, “de ausência de certezas”, “de não suportar o peso da maldição-corporal”, “de ter seu esquema corporal atacado” e de ter seu corpo “desancado, desconjuntado e demolido”. ¹⁹


 

¹ Frantz Fanon, Pele negra, máscaras brancas, trad. bras. Renato da Silveira. Salvador: EDUFBA, 2008, p. 103.

² Ibid, p. 104.

³ Ibid, p. 105. 

⁴ Ibid., p. 106.

⁵ Jacques Lacan, Le Séminaire, Livre XI, Les quatre concepts fondamentaux de la psychanalyse. Paris: Éditions du Seuil, 1964/1973, p. 68. [Ed. bras.: O seminário, livro 11, os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, trad. de M. D. Magno. Rio de Janeiro: Zahar, 2008]. 

⁶ Maurice Merleau-Ponty, Le visible et l´invisible. Paris: Gallimard, 1964, p. 193.

⁷ Ibid., pp. 179, 184.

⁸ Ibid., pp. 172, 180.

⁹ Jacques Lacan, Le Séminaire, Livre XI, op. cit., p. 77.

¹⁰ Merleau-Ponty, op. cit., 1964, p. 178-81.

¹¹ Merleau-Ponty, 1964, p. 179, 182-185

¹² Jacques Lacan, Le Séminaire, Livre XI, op. cit., p. 70

¹³ Sigmund Freud, “Os instintos e suas vicissitudes”, in: A história do movimento psicanalítico, artigos sobre a metapsicologia e outros trabalhos (1914-1916), Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1996

¹⁴ Ibid., p. 133-4.

¹⁵ Ibid., p. 133-4.

¹⁶ Jacques Lacan, Le Séminaire, Livre XI, op. cit., p. 77-8.

¹⁷ Jacques Lacan, Le Séminaire, Livre X, L’Angoisse, 1962-1963, p. 190. [Ed. bras.: O seminário, livro 10, A angústia, trad. de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2005]. 

¹⁸ Jacques Lacan, “O estádio do espelho como formador das funções do eu”, in: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

¹⁹ Frantz Fanon, op. cit., pp. 104-106. 

²⁰ A. Mngxitama, Blacks can’t be racist. New frank talk, 3, 2009, pp. 6-27, tradução livre.

²¹ Ibid., p. 25, tradução livre.

²² E. Said, Freud & the non-European. London & New York: Verso, 2003, pp. 53-54, tradução livre.

²³ Ibid., p. 54, tradução livre.

 

Mônica Lima é doutora em Teoria Psicanalítica pela UFRJ, pesquisadora do Psilacs, membro da equipe de Assistência às Mulheres Vítimas de Violência no HC/UFMG.