Menino palestino de 11 anos descreve os últimos momentos da vida de seus familiares (Gideon Levy e Alex Levac)

Estamos na esquina das ruas. Foi daqui que o carro Kia desceu e virou à esquerda, em direção à casa da família. E aqui, atrás do muro ao lado do pequeno restaurante “Nablus”, que serve homus, falafel e fava, e que agora está fechado, os policiais da Guarda de Fronteira se esconderam até saírem e abrirem fogo infernal contra o carro. Era uma e meia da madrugada, entre sábado e domingo desta semana. As janelas do Kia estavam abertas e era possível ver de fora quem estava no carro: uma família. Os pais na frente, e um dos quatro filhos, cego e com necessidades especiais, no colo da mãe; as outras três crianças atrás.
Também era possível gritar para eles pararem e eles teriam ouvido. Mas os policiais da Guarda de Fronteira da unidade de “elite” dos mista’arvim (forças disfarçadas), que já havia executado há três meses em Jenin, diante das câmeras, dois suspeitos depois que levantaram as mãos em sinal de rendição, pensaram diferente. Para parar um carro civil na Cisjordânia que, por alguma razão, não parece suspeito aos policiais, agora também é possível metralhá-lo sem qualquer aviso prévio com dezenas de balas e matar o maior número possível de seus ocupantes inocentes. De acordo com o pesquisador do B’Tselem, Aref Daraghmeh, os policiais dispararam entre 50 e 70 balas dentro do carro de família lotado de passageiros.
Na segunda-feira desta semana, menos de dois dias após o incidente, tudo o que restou na estrada como testemunho são os minúsculos cacos de vidro esverdeados do carro que os policiais apreenderam, o que pode dificultar a investigação do Departamento de Investigação de Policiais (Mahash). Diante de nós na rua está Khalid Bani Odeh, um menino de 11 anos, e descreve, com demonstrações físicas, passo a passo, o massacre de sua família diante de seus olhos, um dia e meio antes. Aqui o carro parou e ali estavam os policiais da Guarda de Fronteira e dispararam um fogo infernal sobre ele. Aqui eles também o espancaram, depois que ele saiu vivo do carro da morte, e ali o colocaram de frente para a parede e gritaram que ele era mentiroso, num piscar de olhos depois de destruírem sua família. Eles pensaram que ele era outro menino que estavam procurando.
As ruas estavam vazias e desertas. Não faziam ideia de que uma força disfarçada da Guarda de Fronteira havia invadido a cidade naquela noite num carro camuflado com placas palestinas. “Não vimos nenhum soldado ou policial”, diz Khalid.
Khalid fala mecanicamente, com a automaticidade de quem já descreveu isso inúmeras vezes, disparando palavras que descrevem o inferno, fala numa linguagem de adulto, e seu rosto não revela qualquer expressão de emoção. Nem lágrimas, nem dor, nem raiva, nem medo, apenas olhares opacos e gelados de quem está em estado de choque e ainda não começou a processar o que descreve. Assim também foi antes, quando nos sentamos juntos por uma longa hora em cadeiras de plástico na entrada de sua casa, enquanto centenas de mulheres de toda a Cisjordânia afluíam, delegação após delegação, à casa da família para consolar o que restou da família, e principalmente a avó Najah, que a partir de agora será uma mãe substituta. Os homens se reuniram em outro lugar, no diwan (salão de recepções) da cidade. Khalid estava parado na porta de casa, como se esperasse alguém que viesse.
Mapa
O caminho de Tel Aviv até Tamun é longo. O aplicativo Waze promete 45 minutos, mas ele inventa para si uma realidade desprovida de postos de controle e portões fechados na Cisjordânia. A viagem leva cerca de duas horas e exige atravessar a cidade de Nablus de uma ponta a outra, de oeste a leste. Tamun fica no limiar do norte do Vale do Jordão, a nordeste de Nablus, uma cidade agrícola com quase 20 mil habitantes, com pequenos lotes de terra incrivelmente cultivados entre as casas. É também uma cidade combativa, com quase 40 mortos desde 7 de outubro de 2023.
Quando Khalid se senta para a entrevista, sua perna bate nervosamente, sem parar. Ele conta que no sábado passado, as crianças da família acordaram de manhã e brincaram no celular, ele e seus dois irmãos mais novos, Mustafa, de oito anos, e Muhammad, de cinco. Sua mãe, Widad, de 35 anos, preparou café da manhã para Othman, de sete anos, cego e com necessidades especiais desde o nascimento, o único na família que não jejuava no Ramadã. Perto do meio-dia, seu pai também acordou, tendo voltado no dia anterior de três meses contínuos de trabalho na construção civil em Bnei Brak. A alegria pelo retorno do pai para casa era grande. Ali, de 37 anos, planejava ficar até depois do Eid al-Fitr, que começa no final desta semana, em casa com sua esposa e filhos, e então voltar a trabalhar em Israel.
Após acordar, o pai foi para a vizinha vila de A’tuf, para o pequeno lote de ervilhas que tem lá, para cultivá-lo. Às cinco voltou e toda a família se sentou para brincar com Lego. A mãe preparou o jantar para todos, para a quebra do jejum, um ensopado de arroz com carne. Após o jantar, o pai e seus filhos foram à mesquita, cujo minarete se ergue acima do pátio onde estamos sentados, para a oração noturna. De lá, ele foi visitar um amigo e então todos tomaram banho, comeram e decidiram dar um passeio divertido em Nablus, que fica a cerca de 15 quilômetros de Tamun.
Khalid ouviu seu pai murmurar os versículos que todo muçulmano deve dizer antes de morrer e que toda criança conhece de cor. Ele pensou que todos ao seu redor tinham sido mortos.
Por volta de 11:30, chegaram à grande cidade, movimentada nas noites do Ramadã. Perto do feriado que se aproxima, decidiram ir ao novo shopping, CITY MALL, comprar roupas de festa para as crianças. Khalid diz que todos estavam felizes e contentes naquela noite. Para si, ele pediu um agasalho da Adidas, conta. Os pequenos se divertiram principalmente subindo e descendo nas escadas rolantes modernas do shopping. Após passearem cerca de meia hora no centro comercial, e também tomarem sorvete, decidiram adiar a compra das roupas para o dia seguinte: já era depois da meia-noite.
No caminho de casa, ainda deram uma volta pela cidade e também comeram crepe de chocolate numa das barracas. Já passava da uma da manhã quando deixaram a cidade a caminho de casa, em Tamun. Khalid temia que seu pai pegasse no sono ao volante, mas o pai garantiu que não estava cansado. Por volta de 1:30, chegaram ao entroncamento de entrada da cidade. Khalid diz que seu pai dirigia devagar. Todos no carro estavam acordados e de bom humor, como disse. Muhammad ainda apontou para seu pai a sua escola quando passaram por ela. Foram quase as últimas palavras ditas no carro. As ruas estavam vazias e desertas. Não faziam ideia de que uma força disfarçada da Guarda de Fronteira havia invadido a cidade naquela noite num carro camuflado com placas palestinas. “Não vimos nenhum soldado ou policial”, diz Khalid em resposta a uma pergunta repetida.
E então, de repente, os portões do inferno se abriram. Khalid diz que o tiroteio contra o carro veio de duas direções, da frente, dos policiais que apareceram de repente na estrada diante deles a uma distância de cerca de 10 metros, e de trás, do telhado de uma das casas. Ele ainda teve tempo de ver o feixe de laser vermelho que precedeu os disparos. Khalid diz que ninguém gritou para pararem, nem atirou para o ar antes da saraivada. Khalid apressou-se a se curvar dentro do carro e cobrir a cabeça. Ele diz que sua mãe e seu irmão deficiente em seu colo foram mortos primeiro. Depois ouviu seu pai murmurar os versículos que todo muçulmano deve dizer antes de morrer e que toda criança conhece de cor. Khalid pensou que todos ao seu redor tinham sido mortos e apressou-se a sair atordoado do carro.
“De repente, não sei de onde, havia muitos soldados ao meu redor”, conta ele, sem distinguir entre soldados e policiais da Guarda de Fronteira — e por que distinguiria, em sua idade, ou diante da realidade ao seu redor? Um deles, segundo ele, agarrou-o pelos cabelos e jogou-o no chão. “Matamos os cães”, ouviu-o dizer a seus colegas.
Uma delegação de soldadas da Força Nacional Palestina chega agora para uma visita de condolências, em uniformes impressionantes com ornamentos dourados e com uma aparência militar meticulosa e bem cuidada. Sua comandante abraça Khalid, que se levanta para encontrá-las, mas logo ele volta a relatar a história de sua noite. Os policiais o pressionaram contra a parede e ordenaram aos gritos “uskut, uskut” (cala-te). E então aconteceu o inacreditável: Mustafa de repente emergiu do carro. Khalid estava convencido de que ele estava morto. Mustafa ficou apenas levemente ferido por um estilhaço que atingiu seu rosto abaixo do olho direito. Segundo Khalid, é difícil de acreditar, ele quis correr em direção ao seu irmão sobrevivente, e então um dos policiais o atingiu com a coronha do fuzil.
Depois, Khalid foi levado para o jipe. Segundo ele, também o espancaram lá. Os policiais da Guarda de Fronteira queriam saber quem estava com ele no carro, enquanto os corpos de seus entes queridos ainda estavam amontoados dentro. Ele disse que seus pais e irmãos estavam lá. O policial gritou com ele: “Você é mentiroso, você é mentiroso” e depois perguntou seu nome, Khalid respondeu, e então novamente gritou que ele estava mentindo. Os policiais disseram que ele era Yaman Bani Odeh, um garoto de 15 anos cujo irmão Ryan era procurado até ser morto. “Você tem que admitir que é Yaman”, ameaçou o policial. Khalid diz que repetiu sua resposta, mas em vão. Mas ele tinha algo mais importante a dizer ao policial. “Você amaria quem mata seu pai, sua mãe e seus irmãos?”, perguntou-lhe. “Por que você me chama de ‘habibi’; (querido)? Você me bate e mata minha família e me chama de habibi? Você matou minha família diante dos meus olhos e me bate com o fuzil, e eu vou ficar calado?”
Num comunicado conjunto do Exército e da Polícia, foi divulgado esta semana que o carro da família acelerou em direção às forças e que eles sentiram perigo e abriram fogo. Um parente dos mortos, Majdi Bani Odeh, disse esta semana em resposta: “Um pai com uma mãe e quatro filhos — em direção a quem ele aceleraria?” Segundo Khalid, o carro camuflado dos mista’arvim com placas palestinas não estava parado no local, e eles não viram os policiais disfarçados. Na segunda-feira, Josh Breiner reportou no Haaretz que o Mahash (Departamento de Investigação de Policiais) — que abriu uma investigação do incidente, é verdade — ainda não se deu ao trabalho de convocar os mista’arvim envolvidos na morte da família para depor. Em outros incidentes no passado, reportou Breiner, policiais da Guarda de Fronteira suspeitos eram interrogados imediatamente sob aviso para evitar combinação de versões e obstrução de provas.
No final do interrogatório no jipe, os policiais acompanharam Khalid até a ambulância palestina do Crescente Vermelho que entretanto chegara da vizinha Tubas. Segundo ele, os policiais ordenaram que ele não contasse ao paramédico que o haviam espancado. Mustafa junta-se a nós entretanto, mas não diz uma palavra. Seu rosto está pálido, seus olhos também estão secos de lágrimas. O ferimento do estilhaço é aparentemente o único sinal do que ele passou.
Khalid foi levado junto com seu irmão para o hospital turco em Tubas, onde os corpos dos familiares foram amontoados. Khalid diz que a única vez que chorou desde que tudo isso aconteceu foi quando viu os corpos no hospital. Mustafa também chorou. “E se chorarmos, isso os trará de volta?”, pergunta Khalid com uma maturidade quase inacreditável. No dia seguinte, às 10 da manhã, ocorreu o funeral, e os quatro membros da família foram enterrados lado a lado no cemitério da família extensa em Tamun.
Publicado no Jornal “Haaretz” em 19 de março de 2026