“Israel se tornou um Estado-fortaleza imperialista” Entrevista com Menachem Klein (por Gwenaelle Lenoir)
Mediapart: Como o senhor analisa a deflagração desta nova guerra, apenas alguns meses após a de junho de 2025 e enquanto negociações estavam em andamento?
Menachem Klein: Existem, da parte de Benjamin Netanyahu, duas razões essenciais, na minha opinião. Ele quer remodelar toda a região. Não se trata apenas de uma guerra preventiva, de eliminar o risco de segurança bombardeando as bases de mísseis no Irã, ou de interromper o projeto nuclear iraniano. Trata-se de remodelar toda a região, de construir, estabelecer, realmente manter a superioridade judaica. E eu digo superioridade judaica, não superioridade israelense.
Porque a identidade israelense mudou sob Netanyahu, e particularmente nos
últimos vinte e cinco anos. Ela passou do sionismo militarista, do sionismo israelense, para a superioridade judaica. Não por acaso os membros-chave do gabinete de Netanyahu são Bezalel Smotrich e Itamar Ben Gvir. Não é um acaso nem um acidente. Não é um bug, é estrutural.
Com a expansão dos assentamentos desde os anos 1990 e o fracasso de Camp David em 2000, Israel estabeleceu um regime único do rio ao mar, do Mediterrâneo ao Jordão. Nele, onde os judeus representam apenas 48% da população, a superioridade judaica é uma necessidade, se Israel quiser existir. Não apenas sobre a Cisjordânia e Gaza. Ela deve incluir o Líbano. E também toda a região, do Irã ao oeste, ou do oeste do Irã ao Mediterrâneo. É por isso que Netanyahu está em concorrência com Erdoğan.
Qual é esse Oriente Médio com que Benjamin Netanyahu sonha?
Netanyahu disse “entramos em guerra contra o regime para que o povo iraniano nos siga”. Em sua mente, o povo iraniano é uma marionete que Israel pode manipular e dirigir para que faça o que Israel espera dele. Ele pensa que os iranianos apreciarão muito o que Israel está fazendo com eles, transformando-os em discípulos ou colocando-os sob a supervisão de Israel e dos Estados Unidos.
Ora, na história iraniana, na memória coletiva, há o trauma de Mossadegh nos anos 1950: a revolução da CIA que derrubou o primeiro-ministro que os iranianos elegeram, e instalou o xá, aquele que Khomeini substituiu.
Mas o que Netanyahu diz sobre os iranianos se inscreve na noção de superioridade judaica. Voltamos, portanto, à ordem mundial imperialista e colonialista. Assim, o mais forte é o chefe. O mais poderoso é o chefe. Netanyahu e Donald Trump submetem todos os outros atores à sua vontade.
O senhor disse que outra razão também presidiu a decisão de deflagrar esta guerra?
Sim. Permanecer no poder, com ou sem eleição. Tudo indica atualmente que Netanyahu vencerá se houver eleições amanhã. A guerra lhe é muito favorável – com exceção de um círculo muito marginal de detratores. Netanyahu entende que, passando de uma guerra para outra ou de uma frente para outra, mantendo o público em uma zona de guerra, ele impede as críticas e cada operação bem-sucedida deixa os israelenses embriagados de seu poder.
O público israelense não se contenta em apoiar a guerra. Ele está embriagado por ela. Após o assassinato de Khamenei, o público israelense festejou. Os religiosos nacionalistas dançavam nos abrigos, nas ruas, nas sinagogas e em outros lugares. Recitaram orações especiais, orações de festas sagradas judaicas. As pessoas bebiam e estavam felizes. Os partidários de Netanyahu esqueceram seu papel no ataque de 7 de outubro, agora o elogiam e dizem como ele é formidável. Ele venceu o Hamas, agora está vencendo o Irã.
Para onde vai este país, então?
Nos anos 1990, Israel se abriu para o mundo, juntou-se à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), negociou com a Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Israel reconheceu a OLP.
Hoje, vamos na direção oposta. Estamos nos fechando. Estamos nos fechando como um estado-fortaleza, imperialista, com superioridade judaica. Outrora, no tempo das cruzadas cristãs, cidadelas foram construídas aqui. Hoje, construímos cidadelas judaicas, em cooperação com a aliança judaico-cristã no exterior. O futuro de Israel é ser um Estado-fortaleza.
Mesmo no plano econômico. O que vemos é que nossa economia está se orientando para o armamento e a alta tecnologia. Até a alta tecnologia é colocada a serviço do exército e das guerras. As empresas israelenses de alta tecnologia ganham muito dinheiro. As start-ups são vendidas no exterior e trazem receitas ao Tesouro, que nos permitem financiar o desenvolvimento de cada vez mais armas.
Cada vez mais, os palestinos de Israel são considerados inimigos internos. Há algumas semanas, várias turmas de alunos e alunas, palestinos israelenses, fizeram uma excursão a um parque aquático em Israel, perto de Afula. Eles vinham da cidade de Sakhnin. Foram agredidos fisicamente por outros alunos e alunas. Vemos, portanto, que a jovem geração absorveu a agressividade e a violência e considera que esses garotos e garotas merecem ser agredidos
fisicamente simplesmente por serem árabes.
Os colonos violentos, até pouco tempo atrás, agrediam verbalmente e insultavam os judeus de esquerda que vão à Cisjordânia ajudar e proteger os camponeses palestinos. Sexta-feira passada [27 de fevereiro], eles atacaram violentamente militantes pacifistas. Chegaram com grandes porretes e feriram gravemente esses judeus israelenses.
O senhor traça um retrato muito sombrio do seu país…
E é. A elite altamente educada de Israel deixou o país em grande número.
Cerca de 100 mil pessoas partiram nos últimos dois anos. Portanto, só nos
restam os religiosos nacionalistas, e a classe média.
Estamos caminhando para um regime de supremacismo judaico, com Itamar Ben Gvir como sucessor oficioso de Netanyahu. Aos olhos do público, ele é o homem forte do gabinete. Se tudo correr como previsto, Ben Gvir será o grande vencedor das próximas eleições.
Publicado no dia 2 de março de 2026 no Mediapart
Menachem Klein é professor de ciência política na Universidade Bar-Ilan, em Israel. É autor de vários livros sobre o conflito entre israelenses e palestinos.