Pensando na cabeça de Jequié e de Londres, do Rio e de Uberaba, como abrir uma brecha no amontoado de futuros cancelados? É aí que Nas brechas dos futuros cancelados entra. Não como um livro que a gente abre para poder fazer parte da comunidade de ninguéns para a qual Renan escreve, mas como um livro que abre a gente na direção dessa comunidade de ninguéns, que são também os materiais limítrofes, indisponíveis, desse bricolagem – como quem tenta refazer a manta Tupinambá no presente. Este livro não está nas brechas. Ele faz as brechas, e para isso conjuga uma dupla dimensão, que é também um duplo movimento. Ele inscreve uma travessia, um câmbio, e a entrada em jogo de uma nova configuração do pensamento de Renan. Numa primeira dimensão, este livro é um texto de ascese, envolvimento e vitrificação. Se eu tivesse de qualificá-lo de algum modo, diria que sua primeira metade são ensaios de somatização, isto é, manifestam na criação de uma rede semiótica de conceitos, problemas e tensões a passagem das dores imateriais do nosso tempo pelos corpos (e a dor que faz doer todas as dores se chama capital). Somatizando-as, Renan faz as dores muito espirituais do nosso tempo ganharem corpo, fazerem corpo, envolverem-se numa trama que nos envolve e que está por descerrar.